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Casa Mojubá: conheça o espaço de luta e comida ancestral no Santa Tereza

19/11/2024 às 11h00
Casa Mojubá
Espaço inaugura, nesta semana, programação cultural voltada à cultura preta em BH (Thiago Cândido/BHAZ)

Funciona no coração do Santa Tereza, reduto boêmio de Belo Horizonte, há pouco mais de um ano, a Casa Mojubá, um bar de cultura e axé. De quinta-feira a domingo — às vezes, de quarta a domingo —, o local oferece um espaço de resgate à ancestralidade, sem deixar de lado o propósito gastronômico, regado a drinques e pratos autorais. Nesta semana, entretanto, a programação do bar começa um pouco mais cedo: já nesta terça-feira (19), com agenda voltada ao Dia da Consciência Negra.

À frente da Casa Mojubá pinta a dupla de sócias-proprietárias formada por Janine Gonçalves, de 29 anos, e Thalita Mariano, de 28. Parceiras na vida e nos negócios, elas explicam o conceito do empreendimento, que vai muito além de um comércio tradicional. “A gente se plantou em meio ao Santa Tereza, que é um bairro elitizado, branco, e estamos aqui como uma forma de resistência pra quebrar preconceitos, pra mostrar pra todo mundo que a religião de matriz africana, diferentemente do que é falado, não é uma coisa ruim”, diz Janine.

Consequentemente, a programação da Casa segue uma linha afrocentrada, o que também reflete no perfil dos clientes. “Nosso público principal são os povos pretos, de terreiro, mas para além disso, a gente tá aqui pra quem tem o coração aberto”, diz Thalita. “A ideia é ser um lugar acolhedor àqueles que frequentam o Mojubá, um lugar onde não há preconceito, que ninguém vai passar por uma situação desagradável por estar aqui com suas guias ou com suas vestimentas”.

Toda a casa traz em sua decoração elementos de religião de matriz africana. Há quadros diversos representando orixás e uma parede, queridinha dos cliques dos clientes, com saudações às entidades. A Casa Mojubá é um espaço de celebração, mas também de respeito à religião.

Comida e funcionamento

Sem competir espaço com o propósito cultural do Mojubá, a comida é o principal destaque do bar. De acordo com as proprietárias, os ingredientes escolhidos para os pratos são aqueles utilizados em oferendas aos Orixás nos terreiros. “Nós trazemos esses ingredientes para o uso comum. Como, por exemplo, o dendê, a farinha e o quiabo”, explica Janine, que, além da direção, divide com Thalita o balcão de bebidas quando um funcionário eventualmente vem a faltar.

O cardápio da Casa é dividido entre aperitivos, pratos completos, drinques e sobremesas. As opções de comida variam de R$ 17, pela cocada cremosa ao molho de maracujá, a R$ 89, pela farofa de dendê com coraçãozinho, bacon, pernil desfiado e angu de moinho. Mas os campões de venda, segundo as donas, são as porções de pastéis artesanais, na média dos R$ 33, junto com a asinha de frango acompanhada por vinagrete de banana da terra, coentro e farofa de dendê, por R$ 45.

O espaço também oferece cerveja, drinques clássicos e não alcoólicos.

A Casa Mojubá ocupa o número 817 da rua Mármore, no Santa Tereza, e funciona das 18h à 1h às quintas e sextas-feiras; aos sábados, de 14h à 1h; e aos domingos, das 12h às 23h. Relativamente pequeno, o espaço possui entre três e quatro espaços do tamanho de cômodos de uma casa comum com mesas e cadeiras, por isso, é recomendada a reserva para grupos maiores de pessoas.

Origens e luta

Antes recepcionista, Janine destaca a garra da dupla para manter o empreendimento de pé, apesar dos obstáculos. “A quantidade de preconceito que a gente sofre aqui, mais a dificuldade que a gente tem pra fechar propostas, são muito difíceis de lidar”, diz. Thalita, que antes trabalhava como cuidadora de idosos, complementa: “o maior desafio é ser uma mulher preta empreendendo no Santa Tereza”.

Segundo elas, além de lutar contra o racismo, o espaço luta contra o machismo e a intolerância religiosa. “Tem gente que passa pelo bar falando mal das nossas roupas, dos nossos cabelos. E tem gente que chega procurando o dono, o homem branco, e aí a gente vê que a imagem que a galera procura é muito diferente do que somos”.

A força pra contornar os episódios deploráveis vem da mesma fonte que deu base para a criação da Casa: a espiritualidade. “Dos meus guias, dos meus Orixás, que abrem os caminhos”, aponta Janine. O apoio do público que frequenta o lugar também é fundamental para a manutenção do funcionamento, destaca Thalita. “Tem pessoas que andam lado a lado com a gente, que apoiam nossa ideia. Nisso, a gente vê que a luta não é só nossa, que a gente tá no caminho certo e vamos continuar sendo resistência”, afirma.

Programação especial

Janine explica que o nome do estabelecimento advém de uma saudação usada a Exu, Orixá cultuado no Candomblé e na Umbanda. “É uma saudação de encontro, de permanência. Exu é abertura de caminhos, então fizemos essa escolha”, conta a empresária. O nome também dá o tom da programação que ocupa os espaços da casa nesta terça (19) e quarta-feira (20), batizada ‘Mojubá: Casa de Resistência Negra no Território Santa Tereza’.

De acordo com o post no perfil oficial do bar no Instagram, o objetivo é “realizar atividades culturais, de reflexão, debates e resistência de maneira regular para todos, todas e todes que quiserem fortalecer a luta”. A agenda começa nesta semana, mas seguirá adiante, “porque o racismo e a intolerância religiosa não dormem”.

Logo na estreia, são previstos dois dias de encontro. Entenda:

Terça-feira (19), véspera de feriado

  • 19h: exibição do curta ‘Kbela’, seguido de uma roda de conversa mediada por Beth Rowe pesquisadora da UFMG;
  • 20h30: roda de conversa sobre o livro ‘Racismo Estético: Decolonizando Mentes’, do autor João Xavier.

Quarta-feira (20), Dia da Consciência Negra

  • 12h: Ajeum, Ofò e Batucada, começando com o Almoço Ancestral, seguido de uma roda de conversa, com o tema ‘Casa Mojubá, uma Casa de Resistência Negra no Território Santa Tereza’ com participação de Maryh Beneditta, Gláucia Martins e Luciana de Souza Matias. Pra finalizar, roda de Samba e Batucada com os amigos do Negro Hud.

A Casa cobrará R$ 10 de entrada nos dias de eventos especiais.

“Sobre a programação do Dia da Consciência Negra, a gente acredita que isso não seja uma celebração. Não vamos fazer uma celebração, porque a luta continua. O combate ao racismo, ao preconceito, à intolerância, sempre vai ter”, pontua Janine. “O que nós estamos fazendo é lançar o projeto para dar voz aos povos pretos, de quilombo, compartilhar ideias e trazer a galera pra cá. A gente quer transformar a Casa Mojubá num ponto de resistência no Santa Tereza”.

Sem medo, a dupla mira o futuro confiante de que a espiritualidade trata de abrir os melhores caminhos. “Enquanto eles [os guias] continuarem nos dando força pra lutar, a gente vai continuar aqui”, cravam.

Então se liga!

Casa Mojubá
Endereço: rua Mármore, 817, Santa Tereza, Belo Horizonte
Funcionamento: quinta e sexta, das 18h à 1h | sábado, das 14h à 1h | domingo, das 12h às 23h
@casa_mojuba

Anota aí!

Classificação etária: Livre
Entrada: Gratuita

Thiago Cândido

Jornalista pela UFMG. Repórter no BHAZ desde 2023. Participou de reportagem vencedora do Prêmio CDL/BH de Jornalismo 2024.
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Jornalista pela UFMG. Repórter no BHAZ desde 2023. Participou de reportagem vencedora do Prêmio CDL/BH de Jornalismo 2024.
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