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Espancamento de Alice foi motivado por transfobia, conclui Polícia Civil

04/12/2025 às 16h47 - Atualizado em 04/12/2025 às 18h46
Alice Martins foi espancada na região da Savassi (Reprodução/Redes sociais)

A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) concluiu o inquérito que investigava a morte de Alice Martins Alves. De acordo com a investigação, a mulher trans faleceu em decorrência das agressões em 9 de novembro. Segundo as autoridades, o estopim para o crime, inicialmente, seria uma dívida, mas a transfobia foi a motivação da agressão brutal. As informações foram repassadas em coletiva de imprensa, na tarde desta quinta-feira (4).

A conclusão das investigações da morte de Alice aponta que os dois garçons do Rei do Pastel, na Savassi, região Centro-Sul de BH, perseguiram e encurralaram a mulher, entre 100 a 200 metros do estabelecimento.

Um dos autores, de 27 anos, foi apontado como o responsável por comandar as agressões de forma mais ativa. Ele já tinha passagens na polícia por roubo e uso de drogas. O agressor de 20 anos também teve a participação considerada.

A motivação seria uma dívida de R$ 22,00, gastos em consumação de bebida alcóolica pela mulher no estabelecimento. De acordo com a PCMG, os autores deixariam de receber dois reais, equivalentes a 10% da gorjeta, que seria descontado do salário de cada um.

Segundo a delegada Iara França Camargos, do Departamento de Investigação de Homicídio de de Proteção à Pessoa (DHPP) durante as agressões os autores tiveram acesso à bolsa de Alice e não pegaram o celular, nem o dinheiro que estava na carteira dela. A PCMG afirma que os homens puniram Alice pela identidade de gênero.

As agressões foram interrompidas pela chegada de um entregador de aplicativo, que ouviu os chamados de socorro da vítima. Neste momento, Alice já estava ensanguentada e com o nariz quebrado.

Segundo a PCMG, durante a ação, não há indícios de participação de nenhum outro funcionário e proprietário do Rei do Pastel. A ação é exclusiva e autônoma dos dois homens. Ambos foram ouvidos pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), se colocaram na cena do crime e reconheceram a própria voz nos áudios.

A Polícia Civil pediu a prisão cautelar de ambos os autores no dia 14 de novembro, mas foi negada pela Justiça. Um novo pedido foi enviado ao 1º Tribunal do Júri de Belo Horizonte.

O crime

O ataque contra Alice ocorreu na avenida Getúlio Vargas, na madrugada de 23 de outubro. Segundo a investigação, ela saiu do Rei do Pastel, na esquina com a Contorno, onde estava com amigos, quando foi abordada e espancada por dois funcionários da lanchonete, após, supostamente, não ter pago uma conta no valor de R$ 22.

Segundo a família, após a agressão, Alice foi atendida em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e, depois, foi para casa. O pai a encontrou no quarto já com várias lesões pelo corpo e sentindo muitas dores. Devido à gravidade do quadro, ela foi a um hospital particular. O espancamento causou fraturas nas costelas, perfuração intestinal e uma úlcera no estômago da vítima.

A vítima registrou um boletim de ocorrência, no dia 5 de novembro. Nele, informou que não conhecia os agressores. Alice morreu no último domingo (9), 17 dias após a sessão de espancamento.

“Nesse boletim de ocorrência, ela descreve os autores de certa maneira porque tem medo deles. Ela demorou a relatar para o pai que foi agredida porque ficou com vergonha. Ela sabia que foi agredida por ser uma mulher trans. Diante a vergonha e o medo de não ser acolhida pelas instituições, ela não descreve exatamente como são os funcionários. Também temos que lembrar que ela estava sob efeito de álcool e desmaiou rápido devido às agressões intensas. Chegou a quebrar as costelas dela”, comentou a delegada responsável pelo caso.

“Parece que ela estava pressentindo que algo ia acontecer. Tinha três meses que ela não estava saindo de casa. Eu falei para ela dar uma volta porque tinha muito tempo que ela estava em casa e acontece isso”, contou Edson Alves, pai de Alice, no velório da filha.

“Será que uma transsexual não tem direito a viver em paz? Agora eu perdi uma grande parceira e amiga. Uma companheira de filme e de tomar uma cervejinha em casa”, desabafou o pai.

MP recorre e Justiça nega mais uma vez

A Justiça voltou a negar pedido do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) pela prisão dos suspeitos de agressão de Alice. De acordo com a a juíza Ana Carolina Rauen Lopes, do 1º Tribunal do Júri de Belo Horizonte, a decisão inicial não deve ser modificada, uma vez que os fundamentos “resistem” às razões do recurso.

O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) havia recorrido após o primeiro pedido de detenção ter sido negado, com a justificativa de que as agressões não foram graves e não apresentaram perigo de vida à mulher.

Segundo o MPMG, a gravidade da situação e a periculosidade dos réus à sociedade é atestada pela lesão que originou a morte da mulher– sepse decorrente de perfuração do intestino por costela fraturada. De acordo com a Justiça, no entanto, as fraturas na costela, segundo o próprio laudo de perícia, não foram responsáveis por causar a morte de Alice, já que não há ligação direta entre as lesões e o óbito, até o momento.

Classificado como feminicídio, o crime foi motivado por uma dívida de R$ 22,00 no estabelecimento Rei do Pastel, no qual os suspeitos trabalhavam. O gerente do estabelecimento reconheceu as vozes dos investigados nos áudios da câmera de segurança, atestando a agressão.

O crime é considerado, pelo órgão, fútil e torpe, além de ter sido executado de forma covarde, intensa e desproporcional, com indício de transfobia. O MPMG ainda considera que os investigados apresentaram frieza ao retornaram ao trabalho calmamente após as agressões.

Os documentos ainda afirmam que a violência bárbara empregada indica um absoluto desprezo pela vida humana. O ministério pede a intervenção e revisão da decisão do Estado para evitar a sensação de impunidade e a reprodução de novos crimes relacionados à motivação da morte de Alice.

Ana Magalhães

Jornalista pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Foi estagiária do Jornal Estado de Minas e do programa Agenda da Rede Minas de Televisão. Repórter do BHAZ desde agosto de 2024.
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