Cidades bolsonaristas registram maiores taxas de mortalidade por Covid-19, diz estudo científico

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Pesquisa mostrou que segunda onda afetou municípios bolsonaristas com mais intensidade (Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

Um estudo da The Lancet mostrou que os municípios que mais votaram no então candidato Jair Bolsonaro (PL) nas eleições presidenciais de 2018 são aqueles com as maiores taxas de mortalidade pela Covid-19. Os dados consideraram as desigualdades estruturais de cada cidade brasileira.

A principal conclusão da pesquisa, conduzida pela revista científica, é que as vulnerabilidades relacionadas às desigualdades de renda e infraestrutura das cidades definiram a dinâmica da primeira onda de Covid-19 no Brasil. Já a segunda onda foi moldada pela escolha partidária dos municípios, conforme os esforços empregados para o combate à enfermidade.

Vale dizer que as dinâmicas da pandemia foram influenciadas por condições prévias, como a posição das cidades e desigualdades socioeconômicas. No entanto, “o papel da orientação política e ideologia que impulsionam a resposta do setor de saúde e o comportamento de proteção da população” não devem ser ignorados.

“Municípios que escolheram Bolsonaro como presidente mostraram taxas de mortalidade por Covid-19 intensificadas na segunda onda”, diz o artigo. Isso se dá porque, mais de um ano após o início da pandemia, o governo federal ainda se recusava a apoiar as recomendações dos órgãos de saúde para o distanciamento social e o uso de máscaras. O incentivo ao “tratamento precoce” também aparece como motivo.

Relaxamento no ‘lockdown’ prejudicou cenário

O estudo ressalta que a Covid-19 é uma doença complexa. No entanto, considerando que o índice de casos fatais é relativamente baixo, em comparação à do vírus da ebola, alguns governos rapidamente relaxaram nas quarentenas para reabrir os negócios e serviços na tentativa de evitar o colapso em suas economias. O padrão teria contribuído para os resultados negativos observados na transmissão viral.

O grupo também cita o estado do Amazonas como o mais afetado pela Covid-19, mencionando múltiplos fatores como motivadores. Sobretudo, está a resistência do governo local e federal em impor medidas de mitigação não farmacológicas, como distanciamento social e o uso de máscaras.

Tal cenário permitiu a circulação do vírus entre a população, gerando o surgimento da variante gama, de alta transmissibilidade. Em Manaus, na capital amazonense, o resultado foi o grande número de internações em UTIs e o colapso do suprimento de oxigênio e mortes em massa, não somente no município, mas em vários outros locais.

O espalhamento da cepa, aliado à negligência do governo federal em implementar uma administração coordenada e agressiva para conter os avanços da Covid, são alguns motivos pelos quais o quadro epidemiológico no Brasil se mostrou tão severo. Outro fator é a demora em implementar uma campanha de vacinação robusta.

O papel do negacionismo

A pesquisa concluiu que o país mostrou de que forma a falta de uma política de saúde vigorosa e a implementação de campanhas anti-vacina são capazes de agravar os resultados da pandemia. “Embora o Brasil tenha aproximadamente 2,7% da população mundial, sua contribuição para os casos e mortes por Covid-19 é desigualmente alta, atingindo cerca de 8,15% e 11,55% da participação global, respectivamente”.

Para comparar a evolução da doença em cada região e cidade, usou os dados de mortes registrados no SIVEP (Sistema de Informações de Vigilância Epidemiológica da Influenza) e do senso do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O grupo separou as duas principais ondas da pandemia no Brasil. Assim, a análise deu conta de dois períodos: fevereiro a outubro de 2020 e novembro de 2020 a junho de 2021.

Enquanto a primeira fase da pandemia atingiu com mais força as cidades grandes e centrais, a segunda onda “impactou principalmente os municípios bolsonaristas, onde o negacionismo científico entre a população era mais forte”. “Nossos resultados ressaltam a fragilidade das políticas públicas de saúde que foram minadas pelo negacionismo científico dos partidários da direita no Brasil”, diz um trecho do estudo.

Edição: Vitor Fernandes
Nicole Vasquesnicole.vasques@bhaz.com.br

Graduanda em Jornalismo pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.

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