A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) interditou, na noite dessa segunda-feira (29), mais uma clínica de reabilitação clandestina em Juatuba, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Na semana passada, outras duas unidades do município foram fechadas pela mesma operação, localizadas no bairro Residencial Samambaia e na Vila Maria Regina. As três clínicas eram administradas por uma organização criminosa que movimentou cerca de R$ 400 mil nos últimos meses.
Segundo a PCMG, a organização recebia entre R$ 1,5 mil e R$ 2,5 mil mensais de cada família. As unidades operavam sob a fachada de centros de recuperação para idosos e dependentes químicos, submetendo os pacientes a condições degradantes, incluindo maus-tratos, cárcere privado, trabalho forçado, agressões físicas, violência sexual e psicológica. Ao todo, mais de 60 pessoas, incluindo idosos, adolescentes e adultos, foram resgatadas na operação que também envolveu a Polícia Militar (PMMG) e Vigilância Sanitária.
“Quem não respeitasse seria submetido ao famoso ‘danoninho’, um coquetel de remédios psicotrópicos que deixam as pessoas dopadas. Elas estavam lá em situações humilhantes, degradantes e sub-humanas, com colchões sujos, muitas fezes de ratos nos alimentos, as roupas de cama não eram trocadas”, disse a delegada Gislaine Rios, uma das responsáveis pelo caso.
Na última clínica interditada, nessa segunda-feira (29), 12 mulheres foram encontradas em um local sem alvará de funcionamento. Além das irregularidades constatadas, a Vigilância Sanitária apreendeu materiais do estabelecimento. As mulheres foram acolhidas e encaminhadas à rede municipal de assistência social.
“Uma característica dessa organização é que eles mudavam os locais justamente para tentar evitar a fiscalização. Na casa onde essas mulheres estavam, por exemplo, elas chegaram no imóvel há cerca de três semanas”, explicou a PCMG.
Maus-tratos
Segundo a PCMG, quando os parentes pediam para visitar os pacientes das unidades, os responsáveis pela clínica alegavam que poderia atrapalhar a terapia.”Essa terapia era agressões físicas mesmo, com mata-leão, socos e chutes. Além disso, forçavam as pessoas a trabalharem nas lavouras e umas cuidarem das outras o tempo inteiro, ou seja, fazerem a própria limpeza quando não estivessem amarradas”, disse a delgada.
Os dirigentes da clínicas só permitiam visitas após 30 dias de ingresso do paciente e, quando ocorria, eles faziam uma”maquiagem” no local. “Eles separavam uma sala e deixava o ambiente arrumado por pouco tempo para simular uma clínica respeitável. Ninguém poderia comentar com os familiares sobre os maus-tratos, pois seria usada a força física e a violência pra mantê-los sob controle”, afirmou Gislane.
Durante a operação, foram encontrados receituários médicos em branco, medicamentos, carimbos e medicamentos psicotrópicos. “Eram remédios usados sem qualquer prescrição médica, sem prontuário. Não havia profissionais da saúde, terapeutas ou assistentes sociais. Eram apenas pessoas com fins lucrativos”, contou.
Para captar pacientes, as clínicas usavam as redes sociais. “Chegando no local, as pessoas eram colocadas em situação análoga a escravidão. Os familiares acreditavam que as vítimas estavam em um ambiente saudável, com acompanhamento médico e psicológico, mas não tinha isso”, explicou.
Operação
Segundo a PCMG, somente neste ano, 12 clínicas clandestinas foram interditadas. Nos últimos dias, três unidades foram fechadas em Juatuba, e o grupo criminoso já havia atuado em outras cidades da Grande BH, incluindo Mateus Leme, Ribeirão das Neves, Contagem e Betim.
Até o momento, oito pessoas, entre 26 e 50 anos, foram presas, incluindo um homem, de 39 anos, apontado como chefe da organização. Os investigados irão responder por crimes como cárcere privado, violência sexual, trabalho análogo à escravidão, maus-tratos, violência sexual, uso de documentos falsos e associação criminosas. Alguns deles estão em liberdade provisória.
Conforme a PCMG, as investigações começaram após vizinhos denunciaram gritos e movimentos intensos. “Havia muito barulho, sobretudo de gritos e trabalhos forçados. Em algumas unidades, as pessoas não podiam sentar desde o nascer até o pôr do sol. Isso tornou nossa identificação mais fácil”, comentou Gislene.
A delegada ainda alertou sobre a importância dos familiares identifiquem a clínica anteriormente. “Veja se tem alvará de funcionamento, vá fazer visitas periódicas. E isso não serve somente para os familiares, mas os próprios vizinhos. Essas ocorrências mesmo, nos dependemos muitos deles devido à zona rural, onde essas clínicas costumam se instalar”, informou.










