Coletivo denuncia alunos da UFOP por ‘blackface’ em festa de repúblicas; prática tem histórico em universidades

Blackface na UFOP
Estudantes formalizaram denúncia e UFOP vai investigar o caso (Reprodução/Instagram)

Mais uma denúncia de “blackface” em festas universitárias vem à tona no país. Desta vez, estudantes da UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto) que pintaram o corpo com tinta escura em uma festa são acusados da prática racista. A universidade informa que recebeu a denúncia, formalizada pelo coletivo negro Braima Mané nessa terça-feira (3), e os estudantes acusados afirmam que estavam fantasiados de personagens “não-humanos” de desenhos animados.

Imagens que viralizaram nas redes sociais mostram os estudantes no evento “Miss Bixo”, uma festa à fantasia que promove um “concurso” entre os calouros, aqueles que entraram recentemente na universidade. Nas fotos, vários jovens aparecem com o rosto e o corpo pintados de tinta preta e marrom.

Miss Bixo
Jovens aparecem com tinta escura por todo o corpo (Reprodução/Instagram)

O blackface é nome dado a uma prática antiga de pintar o rosto com tintas marrons ou pretas para “parecer negro”, comum no teatro estadunidense a partir do século XIX (leia mais abaixo). A prática vem se repetindo em eventos universitários no Brasil ao longo dos últimos anos, principalmente naqueles que envolvem “trotes” com calouros.

O “Miss Bixo” aconteceu na sexta-feira (29) e os registros começaram a provocar revolta nas redes sociais nessa terça. Após a repercurssão, os estudantes e as repúblicas se justificaram defendendo a tradição do evento, além de argumentar que os calouros pintados de cor escura estavam representando personagens como o cachorro Mutley e os Irmãos Rocha, do desenho “Corrida Maluca”, e um pombo, citado em uma música da banda Mamonas Assassinas.

República
Repúblicas alegam ter seguido temas para as fantasias (Reprodução Instagram)

Denúncia

O coletivo negro Braima Mané, de Mariana, se reuniu na tarde de ontem para formalizar uma denúncia sobre o caso à reitoria da UFOP. “Em que se pese que as repúblicas venham a lamentar o ocorrido, dizendo se tratar de uma inocente e infeliz escolha e que não tinham intenção de expor conteúdo racista ou não ser o objetivo ofender pessoa que seja, fato é, comprovado pelas imagens em anexo, que o ato fora cometido”, diz o documento.

Os denunciantes reforçam que a exclusão das publicações por parte das repúblicas, após a repercussão negativa, só reforça que os envolvidos perceberam a gravidade do que foi cometido. A denúncia ainda aponta que a prática do trote já é proibida pelo Conselho Universitário da instituição.

Por fim, a carta-denúncia solicita a instauração de uma comissão de sindicância para apuração dos fatos, além de uma resposta da UFOP à comunidade acadêmica. Procurada pelo BHAZ, a universidade informou que recebeu as denúncias e que elas que serão formalizadas diretamente no sistema e encaminhadas aos setores responsáveis.

“O fluxo interno para o trâmite e tratamento de denúncias no âmbito da UFOP segue o regulamentado pela portaria Reitoria 123/22. Selecionados os elementos comprobatórios, serão encaminhadas à Pró-reitoria de Assuntos Comunitários e Estudantis (Prace) para instauração de sindicância, apuração e posterior decisão”, informa a UFOP.

Já em nota divulgada pelas redes sociais nesta quarta-feira (4), a universidade pediu que a comunidade acadêmica busque o diálogo e o respeito aos trâmites legais. “O linchamento virtual de pessoas ou moradias pode provocar prejuízos difíceis de serem dissolvidos”, diz o comunicado (leia na íntegra abaixo).

O DCE (Diretório Central dos Estudantes) da UFOP também informou que recebeu denúncias e que irá acompanhar a tramitação da investigação. “Deixamos o nosso repúdio a todos os atos de racismo que ocorrem em nossa universidade e em qualquer outro espaço, nos somamos a todos os que se sentem feridos e daremos todo apoio na luta contra a reprodução do sistema racista que se perpetua em nosso país”, diz nota.

O que dizem os envolvidos?

A república Cravo e Canela, uma das envolvidas na festa, também divulgou nota de esclarecimento por meio das redes sociais. O comunicado (leia na íntegra abaixo) explica que o “Miss Bixo” conta com “uma apresentação referente a algum desenho, personagens ou tema”, e que “os estudantes tem a tradição de se fantasiar e se pintar para a apresentação da equipe”.

Segundo a república, o tema escolhido foi o desenho animado “Corrida Maluca”, e por isso três integrantes se pintaram de marrom para “representar a pelagem dos personagens não-humanos em questão”. A Cravo e Canela pediu desculpas “aos que se sentiram ofendidos” e informou que repudia atos de racismo.

Outras repúblicas envolvidas, como a Território Xavante, Baviera e Xamego, apagaram ou tornaram privadas suas contas no Instagram após as represálias.

Blackface

Os primeiros registros de blackface datam do século XIX, em Nova York, quando atores brancos pintavam os próprios rostos para encenar negros em peças humorísticas. A mudança física era comumente associada a sotaques e trejeitos exagerados, que ridicularizava pessoas negras para entretenimento dos brancos. Além da pintura, muitas vezes outros traços físicos dos atores também eram modificados, além do modo de falar e agir.

O blackface surgiu porque, na época, pessoas negras não eram autorizadas a subir em palcos e atuar. Até os dias de hoje, atores negros ainda enfrentam dificuldades para conseguir papeis de relevância na indústria audiovisual e a prática se espalhou para outras esferas, reproduzindo estereótipos ofensivos em diversos âmbitos.

Humberto Adami, presidente Comissão Estadual da Verdade da Escravidão Negra da OAB-RJ (Ordem dos Advogados do Brasil no Rio de Janeiro), afirma que a prática se configura “uma forma de racismo e diminuição do ser humano negro, de desumanização da figura do preto e do pardo”.

O advogado ainda cita personagens nacionais, como Velho Zuza e Azambuja, interpretados por Chico Anysio, que faziam uso da prática. “Isso foi, por muito tempo, a comédia brasileira. Hoje já há o sentimento de que esse tipo de característica humilha, faz chacota das pessoas pretas e pardas, e portanto não é aceita”, diz.

Para Adami, as justificativas das repúblicas não passam de “desculpas esfarrapadas”, já que “o fato é que pessoas brancas estão se pintando de preto”. “É uma pena que grupos nacionais fiquem repetindo essas coisas, mas o debate sobre isso é importante, faz a questão avançar”, completa.

Prática recorrente

Casos de blackface em eventos universitários, principalmente nos trotes, já podem ser considerados recorrentes no país. “Não é o primeiro caso, sempre temos essas denúncias, e cabe apontar e denunciar”, defende Humberto Adami.

Em março de 2020, um trote do curso de engenharia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) também se tornou alvo de críticas nas redes sociais depois que calouros do curso publicaram imagens que mostram uma estudante branca com o corpo inteiro pintado com tinta preta e caracterizada como garçonete (relembre aqui).

Macaé
Episódio aconteceu em trote do curso de engenharia da UFRJ (Reprodução/Instagram)

O trote foi realizado no campus da universidade em Macaé, no litoral fluminense. A imagem foi publicada por uma aluna da faculdade em uma conta que foi deletada posteriormente. “Eu não escolhi ser pintada da forma que foi, foi escolha dos veteranos e eles escolheram assim não sei o porquê, mas não acho que foi no intuito de fazer blackface”, explicou a estudante.

A publicação ainda acrescentava que a decisão de pintar os calouros com tinta marrom e caracterizá-los como garçonetes foi uma brincadeira que surgiu de uma piada interna da turma.

Blackface
Legenda da imagem foi editada para acrescentar a explicação (Reprodução/Instagram)

Em 2015, alunas de medicina do Centro Universitário de Araraquara, em São Paulo, também publicaram uma foto com o rosto pintado de preto durante jogos universitários, com legendas como “peste negra” e “inclusão social”. Outra usuária, na ocasião, ainda comentou em tom de brincadeira: “negritude”.

Já em 2013, um caso de trote racista também marcou a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Na ocasião, estudantes da Faculdade de Direito também passaram tintas escuras na pele de calouros brancos e ainda foram mais longe: fizeram uma jovem andar acorrentada e com uma placa que dizia “caloura Xica da Silva”.

Caso levou à expulsão dos estudantes (Reprodução/Facebook)

Em outras imagens, um aluno aparece com um bigode que faz referência ao do ditador alemão Adolf Hitler, enquanto posa fazendo saudação nazista ao lado de um jovem com a pele pintada de marrom amarrado a um poste.

Mais de um ano depois do episódio, a UFMG decidiu pela expulsão de um aluno e pela suspensão durante um semestre de outros três envolvidos no caso. Na época, a universidade informou, em nota, que tomou a decisão por recomendação feita por uma comissão encarregada de conduzir o processo administrativo disciplinar instaurado contra os estudantes.

Alunos fizeram gestos alusivos ao nazismo (Reprodução/Facebook)

Nota da UFOP

“A Reitoria da Universidade Federal de Ouro Preto reafirma seu posicionamento contra qualquer ação que se configure como de cunho racista ou que esteja alinhada com outras formas de discriminação, como a misoginia, a homofobia e a transfobia. Entendemos que a reprodução de estereótipos que reforçam a opressão está na contramão do que propõe uma instituição de ensino superior comprometida com o desenvolvimento social, com o respeito às diversidades e com a garantia dos direitos à cidadania plena.

Sobre a caracterização de estudantes no último fim de semana, que foi apontada como um ato racista, a Ouvidoria da UFOP confirmou que recebeu as denúncias, as quais serão formalizadas diretamente no sistema e encaminhadas aos setores responsáveis. O fluxo interno para o trâmite e tratamento de denúncias no âmbito da UFOP é regulamentado pela Portaria Reitoria nº 123/22, página 02 do Boletim Administrativo nº 10, ano 32. Selecionados os elementos comprobatórios, essas denúncias serão encaminhadas à Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários e Estudantis (Prace) para instauração de sindicância, apuração e posterior decisão.

Diante disso, pedimos a toda a comunidade acadêmica a busca do diálogo e respeito aos trâmites legais, que devem ser seguidos. O linchamento virtual de pessoas ou moradias pode provocar prejuízos difíceis de serem dissolvidos.

Reforçamos nosso posicionamento de que, da forma apropriada, a administração da UFOP não será complacente com atos discriminatórios, mesmo entendendo que essa triste atuação seja resultado do racismo estrutural (re)produzido histórica e culturalmente no Brasil.

Contra isso, sempre apoiamos as políticas de ações afirmativas como tentativa de minimizar os impactos de uma sociedade que julga uma pessoa pelos seus traços físicos, pelo seu poder econômico e pelo lugar onde mora, entre outras questões. A UFOP foi a segunda universidade federal de Minas Gerais a adotar uma ação afirmativa, conta com o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas e com o Coletivo Negro, que congrega pesquisadoras e pesquisadores reconhecidos nacional e internacionalmente. Essa política mostrou-se profícua ao aumentar a inserção de pessoas pretas e pardas nos bancos da Universidade e, acima de tudo, comprovou que a oportunidade de acesso é capaz de dirimir, em pouco tempo, possíveis deficiências na educação básica. O que verificamos é que, na média, em poucos semestres o desenvolvimento de estudantes cotistas se iguala ao dos demais.

A cor da pele, a cultura, as formas de vestir e outras características dos grupos sociais que compõem nossa sociedade não são fantasias e, muito menos, motivos para exposições públicas com o objetivo de torná-las risíveis. As nossas diferenças se complementam e nos possibilitam uma perspectiva mais ampla diante dos desafios que são apresentados regularmente.

Para além de tudo isso, não podemos ignorar que estamos diante de um grande desafio, que é o de nos educarmos permanentemente para as relações étnico-raciais e em direitos humanos. Na engrenagem do racismo estrutural, nem mesmo uma instituição de educação como a UFOP está vacinada contra suas armadilhas. Devemos, pois, continuar investindo na educação para a diversidade e o enfrentamento de qualquer tipo de opressão.

Cláudia Marliére – Reitora
Hermínio Nalini Júnior – Vice-Reitor”.

Nota do DCE da UFOP

“No dia 02/05/22 recebemos denúncias de racismo associado ao blackface no evento universitário realizado no ultimo final de semana denominado “Miss Bixo”.

Para esclarecimento dos fatos, no dia 03/05/22 o DCE convidou a Ouvidoria UFOP e as repúblicas envolvidas no caso para as devidas explicações sobre as ações que podem ser tomadas em relação à série de denúncias recebidas.

As denúncias relacionadas a prática de blackface foram formalizadas e dadas as evidências, o caso segue em processo administrativo. Respaldando o conteúdo das denúncias, a Ouvidoria salientou que a Controladoria Geral da União – CGU também acompanhará o processo, através da criação de Comissão para Sindicância, que encaminhada à PRACE dará continuidade ao processo de investigação e apuração dos fatos ocorridos.

Deixamos o nosso repúdio a todos os atos de RACISMO que ocorrem em nossa Universidade e em qualquer outro espaço, nos somamos a todos os que se sentem feridos e daremos todo apoio na luta contra a reprodução do sistema racista que se perpetua em nosso país.

Salientamos também, que não concordamos com as ameaças físicas que os envolvidos alegam ter recebido, uma vez que entendemos que a violência não é o melhor caminho para condução do caso.

O DCE irá acompanhar a tramitação do PAD com bastante cuidado e atenção. Ressaltamos que o DCE não tem papel de investigar e punir os envolvidos”.

Nota da República Cravo e Canela

“Ontem postamos em nosso perfil fotos do final de semana do Miss Bixo, evento tradicional de Ouro Preto que os estudantes fazem uma apresentação referente a algum desenho, personagens ou tema.

Os estudantes tem a tradição de se fantasiar e se pintar para a apresentação da equipe.

Nossa tema escolhido foi Corrida Maluca, e para representar os personagem Mutley (cachorro) e os Irmãos Rocha, 3 pessoas foram pintadas de marrom para representar a pelagem dos personagens não-humanos em questão.

Pedimos desculpas aos que se sentiram ofendidos pela forma como representamos esses personagens. Em nossa república repudiamos qualquer ato de racismo, e estamos abertas para esclarecer e debater sobre essa questão, mas esclarecemos que não fizemos Blackface para representar pessoas pretas. As fantasias pretendiam representar os personagens fictícios.

Entraremos em contato com o DCE pessoalmente para falar sobre a situação, e pedimos desculpa sobre o ocorrido”.

Edição: Roberth R Costa
Sofia Leão[email protected]

Repórter do BHAZ desde 2019 e graduada em jornalismo pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Participou de reportagens premiadas pelo Prêmio Cláudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados, pela CDL/BH e pelo Prêmio Sebrae de Jornalismo em 2021.

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