Idoso é esfaqueado e espancado até a morte, à luz do dia, enquanto pessoas filmam e nada fazem

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Vítima foi esfaqueada e agredida em plena luz do dia (Reprodução/Facebook)

Um idoso de 73 anos foi esfaqueado e agredido até a morte, em Timóteo, na região do Vale do Aço, nessa quinta-feira (16). A vítima foi executada em uma avenida, com a presença de várias pessoas e em plena luz do dia. Nenhuma delas parou para tentar conter a violência ou prestar ajuda. O suspeito foi preso em flagrante. Ele faz tratamento psiquiátrico e tem passagens pela polícia. Ao BHAZ, especialistas explicam a reação de inércia das pessoas e como a humanidade tem banalizado a vida.

O aposentado Maurício Neves Nascimento caminhava pela avenida Alexandre Torquetti quando foi surpreendido pelo suspeito. A vítima, conforme registrado na ocorrência, recebeu 15 facadas em diversas partes do corpo. As agressões praticadas contra o idoso foram gravadas por uma testemunha que passava pela via.

Maurício foi chutado enquanto estava caído na calçada. O vídeo que circula pelas redes sociais mostra as agressões. O idoso não conseguiu reagir e se defender. Mesmo diante de tamanha brutalidade, ninguém se aproximou para impedir a continuidade da violência. As imagens chocam e mostram que, pelo menos, 14 pessoas passaram no momento da gravação em 12 veículos.

A vítima chegou a ser socorrida pela equipe do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência). O óbito foi constatado ainda no local do crime.

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Agressões foram gravadas e ninguém prestou ajuda (Reprodução/Facebook)

Prisão

O suspeito fugiu em uma bicicleta, no entanto, uma pessoa o perseguiu até o Centro de Coronel Fabriciano e comunicou a localização dele à polícia. Um cabo de faca com a lâmina quebrada foi encontrado com o homem. As pernas do suspeito estavam sujas de sangue.

Em conversa com os PMs, ele alegou que possuía desavença com o idoso e que já tinha sido ameaçado pela vítima. As facadas e as agressões, segundo ele, foram vingança. O homem tem passagens, sendo que uma delas por ameaça à integridade física ou psicológica.

O suspeito, segundo o registro policial, tentou fugir e precisou ser contido e algemado. A Polícia Civil foi procurada pelo BHAZ e informou que o homem foi preso em flagrante pelo crime de homicídio. “Ele foi encaminhado ao sistema prisional. Um inquérito policial foi instaurado para apurar a motivação e circunstâncias do fato”, esclareceu.

O BHAZ decidiu editar o vídeo tamanha violência exibida nas imagens. Assista abaixo:

Paciente psiquiátrico

Familiares do suspeito informaram que ele é esquizofrênico e realiza tratamento psiquiátrico desde 2012. O homem faz uso de medicamentos controlados e tem acompanhamento médico. Os parentes disseram ter laudo médico que comprova tudo que foi relatado e os surtos psicóticos que o ente sofre.

‘Ninguém faz nada’

A falta de ação das testemunhas que presenciaram o idoso sendo brutalmente agredido deixaram internautas indignados. “Tantas pessoas e ninguém interferiu? Preferiu deixar matar? Meu Deus, que tristeza”, “Por que ninguém fez nada?”, “Bem-vindo ao mundo onde filmar é mais importante do que socorrer”, comentaram alguns.

Mas qual o motivo da inércia das pessoas nessa situação? O psicanalista e escritor Eduardo Lucas Andrade acredita que a indiferença das pessoas não é somente falta de tempo. “É quem é o outro para a gente? Qual prioridade temos dado à vida? O outro, humano tal como somos, tem sido um nada, um corpo, uma imagem. Logo, também temos sido assim, cercado de vínculos vazios”.

“Os que passam e apenas olham, fecham os olhos, mesmo que olhando para a cena, para a ajuda que pode ser ofertada ao outro, alguns pelo choque mesmo, outros por frieza, cada um a seu modo e contexto. O desamparo social tem sido um grande problema e culminado em inúmeras mortes por violências que poderiam ser evitadas por um terceiro. Não se trata somente deste vídeo, se trata do que diariamente temos visto. O ‘não é comigo’, ‘esse problema não é meu’, ‘não se mete a colher’, tem prevalecido lá onde o ajudar teria valia de salvar vidas”, continua o psicanalista.

Ainda de acordo com Eduardo Lucas Andrade, cada pessoa que filma ou compartilha esse tipo de conteúdo, tem seus motivos. “Mas como tem algo que vem do modo de vida civilizatório que temos levado, podemos considerar alguns pontos, tais como: as violências, nas ruas e lares, têm sido vistas como se essas fossem exposições de vitrines”. O escritor destaca que vivemos uma época onde “aparentemente se existe pela imagem e ou partilha desta e daí, de imediato, estas imagens viscerais estão sendo partilhadas e filmadas pelos que poderiam ajudar”.

Prazer em filmar e compartilhar

“Os que filmam não ficam indiferentes, estes têm algum prazer no processo ainda que apontem o terror”, destaca o psicólogo. “Não se trata de matérias de jornais e ou policiais, que tem seus cuidados tomados, sua ética a ser seguida, para preservar identidades e tem seus objetivos. Se trata de escancarar o real de qualquer jeito, de forma irresponsável, sendo a filmagem colocada como prioridade frente a uma tentativa de ajuda”.

Durante o vídeo, algumas pessoas parecem ter a vontade de tentar algo, mas logo desistem, por inúmeras questões. “Se tratando de vida e morte, muita coisa está em questão em tão poucos segundos. Quando é pelo choque, o rosto muda, o sujeito depois fica com aquela cena na cabeça, tentando entender, demora instantes para a ficha cair, e tem até quem depois fica se culpando por não ter dado conta no momento de ter esboçado reação. Entretanto, vejamos, esses não são os que filmam e tiram seu tempo para a cena”.

Sociedade do espetáculo

Segundo Cristiane Nogueira, psicóloga e conselheira do CRP-MG (Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais), a ciência vem mostrando que existe uma “naturalização” da violência urbana. “Há uma banalização do mal, principalmente se forem pessoas que a sociedade identifica como ‘pessoas de descarte’. Quando o caso ocorre com pessoas simples, pobres, a reação é sempre diferente. Estamos em uma sociedade em que a vida já não importa. Vivemos algo extremamente preocupante”.

As redes sociais aumentam o potencial de disseminação de tais conteúdos. “Estamos inseridos na ‘sociedade do espetáculo’, na qual tudo é para ser visto, postado e publicizado. Isso vai gerando uma exaustão e diminuindo a capacidade das pessoas de se sensibilizar. A barbárie apresentada no vídeo é algo quase não humano. Cada vez mais tem aumentado essa indiferença, porque tudo vai sendo despejado, transmitido o tempo todo. Isso diminui a capacidade de empatia das pessoas”. A psicóloga ainda afirma que vivemos em uma sociedade que tem a violência “legitimada pelo Estado”.

Corpo na Sapucaí

No último domingo (12), o artista plástico Carlos Gomes, de 56 anos, morreu ao cair de uma mureta da rua Sapucaí, no bairro Floresta, região Leste de Belo Horizonte. A rua estava lotada e, o fato das pessoas continuarem suas festividades com um corpo no chão, também chamou a atenção.

O acidente ocorreu por volta das 20h30. Testemunhas relataram que o homem estava sentado na mureta, porém disseram aos agentes de segurança que não viram o momento exato da queda. A vítima caiu de uma altura de aproximadamente sete metros. Mesmo com a tragédia, as pessoas seguiram suas comemorações, separadas apenas por uma fita colocada pela polícia.

Nota da Polícia Civil

“Sobre os fatos registrados ontem (16), em Timóteo, a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) ratificou a prisão em flagrante do suspeito por homicídio. Ele foi encaminhado ao sistema prisional. Um inquérito policial foi instaurado para apurar a motivação e circunstâncias do fato”.

Edição: Roberth Costa
Vitor Fernandes
Vitor Fernandesvitor.fernandes@bhaz.com.br

Editor e repórter do BHAZ desde fevereiro de 2017. Jornalista graduado pela PUC Minas, com experiência em redações de veículos de comunicação. Trabalhou na gestão de redes do interior da Rede Minas e na parte esportiva do Portal UOL. Com reportagens vencedoras nos prêmios CDL (2018, 2019 e 2020), Sindibel (2019) e Sebrae (2021).

Vitor Fórneas
Vitor Fórneasvitor.forneas@bhaz.com.br

Repórter do BHAZ desde maio de 2017. Jornalista graduado pelo UniBH (Centro Universitário de Belo Horizonte) e com atuação focada nas editorias de Cidades e Política. Teve reportagens agraciadas pelo prêmio CDL.

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