‘Quem fez isso não tem noção da pessoa que tirou da gente’, diz irmã de segurança morto em Divinópolis

edson carlos
Edson morreu logo após ser agredido por um convidado de uma festa em que trabalhava (Reprodução/Facebook)

A revolta com a morte de Edson Carlos Ribeiro, segurança que foi agredido por um convidado de uma festa em Divinópolis, ainda ecoa nesta segunda-feira (27). A delegacia de Polícia Civil da cidade é palco de uma concentração de moradores que protestam e pedem justiça pela vítima. Ontem, eles se reuniram em frente à loja do investigado pelo crime, Pedro Lacerda.

O BHAZ conversou com a irmã do segurança, Ana Paula Ribeiro, de 43 anos. Os irmãos naturais de Itapecerica, região Centro-Oeste de Minas, se mudaram para Divinópolis ainda crianças e a família vive no município até hoje.

“Eu perdi meu pai com 13 anos, então eu e ele ficamos órfãos na mesma idade. Minha mãe criou a gente sozinha”, relembra a irmã. Para ela, Edson era sinônimo de esforço, trabalho e família, já que nunca saía de perto da esposa e da filha, de apenas 12 anos de idade.

‘Pedia para tomar cuidado nessas festas’

“Ele era uma pessoa muito calma, tranquilo, do bem, nunca reclamava de nada. A esposa dele sempre ficava com medo [quando ele ia trabalhar], e pedia para tomar cuidado nessas festas. Ele não falava, mas a gente via que ele gostava do que fazia. Esse era o meu irmão”, lembra Ana Paula.

Apesar da dor de ter perdido Edson, ainda mais nas circunstâncias em que o crime foi cometido, Ana Paula diz que tudo o que a família espera é justiça. “Eu quero Justiça, nada além disso. Não vou guardar rancor [do assassino], mas quero deitar na cama em paz e pensar que fiz o que pude e meu irmão teve a justiça que ele merecia”, afirma.

‘Pior notícia da vida’

Ana Paula estava em casa quando recebeu a notícia que ela afirma ser “a pior da vida”. Por volta de uma hora da manhã, a equipe da empresa de segurança que havia contratado Edson foi até a casa da família para informar o que havia acontecido.

“Fiquei sabendo na noite [do crime], quando vieram aqui em casa e me chamaram. Falaram que tinha acontecido um acidente, mas pelo horário e pelo lugar que ele estava…. Pensei que ele ainda estava vivo. Foi a pior notícia da vida”, diz.

A irmã ainda relembra outro fato importante: que, além de muito querido, Edson era pai de família responsável por levar o sustento para casa. “Ele precisava desse emprego, a mulher tinha problemas de saúde, os dois pagavam aluguel. Essa pessoa que fez isso não tem noção da pessoa que tirou da gente. Não tem”, lamenta.

Mobilização

Aqueles que se mobilizam pela penalização do suspeito também criaram uma vaquinha com o objetivo de arrecadar dinheiro para a família de Edson Carlos Ribeiro. “Pai de família, homem honesto”, descreve o projeto, que foi autorizado pelos familiares da vítima.

Até a tarde de hoje, a vaquinha já havia arrecadado mais de R$ 12 mil e contava com mais de 230 apoiadores. A meta é juntar R$ 30 mil, que devem ser enviados aos entes queridos do segurança. Acesse a vaquinha aqui.

“Minha cunhada precisa sobreviver agora, ela precisa ter o lado financeiro estabilizado para conseguir cuidar da parte emocional. A vaquinha vai ajudar nisso”, afirma a irmã.

Protestos

O ato que pedia justiça por Edson nesse domingo foi realizado em frente à Pedro Lacerda Imports, loja de produtos importados do investigado pela morte do segurança. Manifestantes chamaram o homem de “assassino” e apontaram o racismo como motivação para o crime.

“Vidas negras importam! Nós estamos avisando: toda vez que um negro, uma negra, uma criança, uma mulher, for atentada com frases racistas, nós iremos até o final”, declarou uma representante do Movimento Unificado Negro de Divinópolis (MUNDI) durante o ato.

“Não é porque o Pedro é rico, branco, playboy, que ele é melhor. A gente quer justiça! O Brasil é um país racista, se mata gente preta há centenas de anos e vocês estão naturalizando, enquanto a família do Edson não vai ver ele de novo”, protestou outra manifestante.

Investigação policial

A morte de Edson Carlos Ribeiro ainda não pode ser tipificada como homicídio por falta de elementos. Por enquanto, o crime está enquadrado como lesão corporal seguida de morte. As informações foram repassadas pela Polícia Civil hoje.

“Não temos elementos sobre o objeto que foi utilizado [supostamente um soco-inglês], que ele foi agredido reiteradas vezes, que foi espancado, não temos evidência para falar que foi homicídio”, aponta o delegado responsável pela prisão em flagrante do investigado, Renato Alves da Fonseca, que reforça que a tipificação do crime ainda pode mudar conforme o andamento da investigação.

Pedro Lacerda, de 32 anos, foi ouvido pela Polícia Civil amparado pelo advogado e negou qualquer envolvimento no crime. Segundo Renato Alves da Fonseca, ele confirmou que estava no evento, mas nega que tenha tido atrito com Edson Carlos Ribeiro.

Já ao organizador do evento, Pedro Lacerda teria dito que “fez porque quis”. A informação consta no boletim de ocorrência registrado pela Polícia Militar. Já segundo a Polícia Civil, nenhuma testemunha apontou nenhum elemento que remetesse a um crime motivado por racismo.

O crime

Edson Carlos Ribeiro, de 42 anos, foi morto enquanto fazia a segurança de uma festa, em Divinópolis, nesse sábado (25). A polícia prendeu o agressor em flagrante. De acordo com o boletim de ocorrência, Pedro Lacerda disse para o organizador do evento que agrediu a vítima “porque quis”.

De acordo com a PM, frequentadores da festa tentavam reanimar o segurança quando viaturas chegaram ao Parque de Exposições. Pedro foi contido por outras pessoas que trabalhavam no evento.

Uma das testemunhas contou que descia do camarote quando viu Edson sendo atingido com um soco. A vítima caiu já inconsciente e o suspeito tentou fugir. Um outro homem também afirmou ter visto a agressão praticada contra o segurança do evento.

O agressor teria tentado entrar em um camarote, mas foi impedido, já que o ambiente era controlado por pulseira de acesso. Antes de ser agredido e morto, Edson Carlos Ribeiro chegou a advertir o suspeito por urinar em local inapropriado.

O crime gerou revolta na cidade. Uma manifestação foi realizada na tarde de ontem (26), em Divinópolis, denunciando o racismo sofrido pelo segurança. “A guerra está declarada. Não vamos ficar pra sempre pacíficos. Fogo nos racistas. Esta luta não vai parar aqui”, disseram os populares que participaram.

A Prefeitura de Divinópolis também emitiu uma nota de pesar, lamentando a morte de Edson Carlos Ribeiro. ”Todo tipo de violência deve ser efetivamente combatido e repudiado de todas as formas. Que possamos aprender a conviver e respeitar as diferenças. Que todo trabalhador seja tratado com respeito”, disse o prefeito Gleidson Azevedo (PSC).

Edição: Giovanna Fávero
Sofia Leão
Sofia Leãosofia.leao@bhaz.com.br

Repórter do BHAZ desde 2019 e graduanda em jornalismo pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Participou de reportagem premiada pela CDL/BH e pelo Prêmio Sebrae de Jornalismo em 2021, além de figurar entre os finalistas do Prêmio Cláudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados.

Jordânia Andrade
Jordânia Andradejordania.andrade@bhaz.com.br

Repórter do BHAZ desde outubro de 2020. Jornalista formada no UniBH (Centro Universitário de Belo Horizonte) com passagens pelos veículos Sou BH, Alvorada FM e rádio Itatiaia. Atua em projetos com foco em política, diversidade e jornalismo comunitário.

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