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Estudo da UFMG mostra que rejeitos da tragédia em Mariana favoreceram espécies invasoras às margens do Rio Doce

30/10/2025 às 16h37 - Atualizado em 04/11/2025 às 16h52
Divulgação UFMG

O rompimento da barragem do Fundão em Mariana, que matou 19 pessoas e é considerado o maior desastre ambiental do Brasil, ainda gera impactos negativos significativos para o meio ambiente. Uma pesquisa inédita da Universidade Federal de Minas Gerais revela que os rejeitos de mineração alteraram profundamente a decomposição da matéria orgânica na floresta em volta do rio, processo essencial para a saúde dos ecossistemas.

A tragédia liberou mais de 50 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério de ferro na bacia do Rio Doce, contaminando 663 km de curso d’água, destruindo habitats, ribeirinhos, vida aquática e mais de 1400 hectares de vegetação nativa, lamenta João Carlos Figueiredo, biólogo e doutor em biotecnologia, e um dos integrantes da pesquisa.

O estudo ‘Revelando as consequências ocultas dos rejeitos de mineração sobre os processos ecossistêmicos: a interrupção da decomposição de espécies nativas na bacia do Rio Doce’ revela dois aspectos na decomposição às margens do rio atingido: a redução de espécies nativas e o aumento de espécies invasoras.

A ocorrência das folhas de espécies nativas essenciais está severamente reduzida nas áreas afetadas pelo rejeito, comprometendo a fertilidade do solo e a saúde da floresta. Em contraste, a decomposição de uma planta invasora e agressiva, chamada braquiária, foi acelerada, mostrando que a alta concentração de ferro, favorece espécies oportunistas como o capim e com isso prejudica as espécies nativas.

“Essa vantagem favorece a dominância da planta invasora em detrimento das espécies nativas, alterando a estrutura e a composição da vegetação local, dificultando os esforços de restauração ecológica, pois a presença dominante da gramínea pode impedir o retorno das plantas nativas”, explica Figueiredo.

O pesquisador observa que a ‘ciclagem’ de nutrientes passou a acontecer de forma mais lenta. Esse processo, segundo o biólogo, é basicamente a forma como a natureza recicla o que cai no chão, por exemplo, folhas, galhos e outros materiais orgânicos, transformando tudo em elementos essenciais, como carbono. A decomposição é a etapa chave desse ciclo e, quando ela desacelera, o solo perde a fertilidade e as plantas crescem menos, pela carência de nutrição. “Então essas mudanças afetam diretamente a vegetação e a fauna ribeirinha que dependem desse equilíbrio entre solo e água, os impactos observados, portanto, são químicos, biológicos e ecológicos”, explica.

No estudo, foi observado que a decomposição da matéria orgânica ficou bem mais lenta. Em algumas espécies, houve uma redução de 63% na taxa de decomposição quando comparado a áreas sem rejeitos. “Em outras palavras, é como se o motor ecológico da floresta estivesse funcionando em marcha lenta. A gente sabe que ele ainda está vivo, mas com o metabolismo mais devagar”, esclarece o pesquisador.

Essa mudança na ciclagem também gera consequências diretas para as pessoas. Por exemplo, uma mata degradada, como explica João, é menos capaz de filtrar água e de proteger as margens do rio contra erosões, favorecendo as catástrofes climáticas. E em consequência disso, afeta também a qualidade de água, o equilíbrio do rio e com isso as comunidades que dependem dessa água.

Desastre ambiental

Os rejeitos decorrentes do rompimento da barragem do Fundão, no dia 5 de novembro de 2015, deixou os distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo cobertos de lama. A partir dali, esses rejeitos avançaram por toda a bacia atingindo várias cidades e 663 km de rio.

Entretanto, segundo Figueiredo, os impactos não pararam em Minas. Eles chegaram até o Espírito Santo, alcançando a Foz do Rio Doce e afetando ecossistemas aquáticos por onde passavam até desaguar no oceano.

Figueiredo contou ao BHAZ que o Rio Doce e seu ecossistema podem ser recuperados e isso não depende apenas do tempo, mas também de ações contínuas de restauração e de um monitoramento ambiental a longo prazo. A pesquisa mostra que mesmo depois de uma década ainda há alterações no solo, na água e na vida das pessoas, por isso ele reforça que a recuperação necessita de investimento permanente, principalmente em estratégias ecológicas ativas para que o rio e, portanto, suas florestas, voltem a funcionar como ecossistema saudável.

rio doce mariana
Rio Doce foi afetado após rompimento da barragem em Mariana (Fred Loureiro/Secom-ES)

A pesquisa

O estudo faz parte de uma grande pesquisa chamada Biochronos, que monitora o impacto do rompimento da Barragem do Fundão sobre o ecossistema da Bacia do Rio Doce. “Nós já conhecíamos bem os impactos imediatos, como por exemplo a devastação da paisagem, as alterações do solo, mas pouco se sabe sobre os efeitos crônicos disso”, explica o pesquisador.

O monitoramento de longo prazo é importantíssimo para compreender como o ecossistema está reagindo às estratégias de restauração. Por isso, o compromisso dos pesquisadores é manter a pesquisa ativa enquanto houver sinais de que o rio e suas florestas ainda estão em processo de transformação.

O estudo começou em 2023 e tem a participação de 19 pesquisadores de instituições nacionais e internacionais, incluindo a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), University of Oxford (Reino Unido), Henan Agricultural University (China), University of Minnesota (EUA) e o Centro de Conhecimento em Biodiversidade (INCT/CNPq/MCTI).

A pesquisa abrangeu cinco regiões da bacia do Rio Doce durante as estações chuvosa e seca de 2023, com 2.160 sachês de chá enterrados em 180 locais para medir a decomposição sob diferentes condições. “Esse método mede a velocidade da decomposição da matéria orgânica e permite comparar ecossistemas em diferentes lugares do mundo”, conceitua Figueiredo.

Além das taxas de decomposição, os pesquisadores analisaram propriedades físicas e químicas dos solos, elucidando como o rejeito afeta os processos ecológicos. Essas informações fundamentam ações de recuperação das matas ciliares (em volta do rio) e solos contaminados pelo rejeito, sendo fundamentais para a formulação de estratégias em cenários pós-mineração.

Mariana Brandão

É estudante de jornalismo pela PUC Minas e repórter do BHAZ desde setembro de 2025. Atuou na TV Horizonte e na comunicação interna da ALMG. Ganhou o prêmio na categoria de Assessoria de Imprensa do Expocom Sudeste com ações realizadas no Quilombo de Pinhões e o Prêmio Sebrae 2025 a categoria Jornalismo Universitário com a matéria “Empreendedores nas favelas: do Aglomerado ao Cabana”
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