Neste dia 18 de maio de 2026, data conhecida pela Luta Antimanicomial, o Hospital Colônia de Barbacena, maior manicômio do Brasil, permanece em funcionamento. Em abril deste ano, o Governo de Minas Gerais anunciou o fechamento definitivo da instituição, que se tornou um dos maiores símbolos de violações de direitos humanos no Brasil ao longo do século 20. Mas para o fechamento do local acontecer, é necessário ainda transferir os últimos 12 pacientes internados no local. Desde a década de 1990, o antigo manicômio foi desativado.
O anúncio foi feito pelo governador de Minas Gerais, Mateus Simões (PSD), no dia 27 de abril de 2026, durante a sua passagem pela cidade. Na ocasião, ele afirmou que o encerramento da estrutura marca o fim de um capítulo da história de Barbacena. Segundo o governo estadual, os pacientes remanescentes não possuem vínculos familiares, não falam e vivem em condições específicas de saúde.
“O Governo do Estado, com o apoio da prefeitura e da Fundação Hospitalar de Minas Gerais (Fhemig), decidiu desativar definitivamente a estrutura do Hospital Colônia. Nós vamos passar um cadeado nessa fase da história de Barbacena”, afirmou o governador.
Atualmente, o antigo Hospital Colônia funciona como Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHBP), voltado ao tratamento humanizado em saúde mental, além de abrigar o Museu da Loucura.
Segundo o governo estadual, a desativação acompanha as mudanças nas políticas públicas de saúde mental, que priorizam o cuidado em liberdade e substituem grandes instituições psiquiátricas por redes de atenção psicossocial.
Ainda de acordo com o estado, os últimos pacientes serão transferidos ainda nesse mês de maio para uma nova unidade de saúde do município. O BHAZ entrou em contato com a Prefeitura da cidade, para saber a data que irá acontecer a transferência, mas não teve resposta até a publicação dessa matéria.
Hospital Colônia de Barbacena
O Hospital Colônia foi considerado, durante décadas, o maior sanatório do país. Estima-se que mais de 60 mil pessoas tenham morrido no local, muitas delas sem diagnóstico de transtorno mental, vítimas de abandono, maus-tratos e práticas consideradas desumanas.
Fundado em outubro de 1903, o hospital fazia parte de um grupo de sete instituições psiquiátricas edificadas na cidade. Inicialmente, o local foi construído como um hospital para tratar tuberculose, mas com o passar do tempo, foi transformado em um instituição psiquiátrica.
Em 1980, durante a reforma psiquiátrica no Brasil, o maior manicômio do país foi fechado e teve escancarado toda a violência que os pacientes sofriam no local. Anos mais tarde, pesquisas do estado mostraram que 70% das 60 mil pessoas que morreram, não tinham diagnóstico de transtorno mental, eram alcoólatras, andarilhos, amantes de políticos, crianças indesejadas, epiléticos, inimigos políticos da elite local, prostitutas, homossexuais, vítimas de estupro e pessoas que simplesmente não se adequavam ao padrão normativo da época.
Pesquisas mostram que boa parte dos pacientes do Hospital Colônia eram negros.
Cidade dos Loucos e Trem de Doido
Barbacena, cidade localizado na região do Campo das Vertentes é até hoje chamada e lembrada por mineiros como ‘Cidade dos Loucos’, um termo que foi se popularizando devido ao crescimento de pacientes que chegavam no hospital.
Quando fundada, o local tinha capacidade para 200 leitos mas no final de 1961 já chegavam em mais de cinco mil pacientes.
Desde o momento em que os pacientes eram destinados ao Colônia de Barbacena, eles estavam fadados a um tratamento desumano. As pessoas chegavam à cidade no “Trem de Doido”, transportadas em vagões cargueiros que levavam gados pelas linhas ferroviárias.
Compra de cadáveres para estudo
Em abril de 2026, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) publicou uma nota pedindo desculpas e admitindo ter comprado corpos dos pacientes do Hospital Colônia de Barbacena para serem utilizados como estudo durante as aulas de anatomia.
A prática ocorreu entre as décadas de 1960 e 1980, período marcado por graves violações de direitos humanos no local, conhecido como “Holocausto Brasileiro”.
Em declaração oficial, a instituição reconheceu que utilizou cadáveres vindos do hospital psiquiátrico onde milhares de pessoas morreram em condições degradantes ao longo do século XX. Segundo levantamento citado pela própria universidade, ao menos 1.853 corpos foram vendidos para instituições de ensino médico em todo o país entre 1969 e 1981.
No documento, a UFMG afirma que a prática “violou a memória e a dignidade” das vítimas e destaca que muitas dessas pessoas estavam em situação de vulnerabilidade e abandono social.
A universidade também aponta que, mesmo sob a justificativa científica, esse tipo de procedimento não pode ser dissociado de contextos de violação de direitos humanos.
Residências terapêuticas
A discussão sobre saúde mental e o modelo antimanicomial também segue presente em Barbacena. Desde 2023, a Prefeitura de Barbacena destacou ações voltadas à reinserção social de pessoas que passaram por longos períodos de internação psiquiátrica.
A cidade possui atualmente 23 Serviços Residenciais Terapêuticos (SRTs), distribuídos em diferentes bairros, que atendem cerca de 170 moradores. As residências são destinadas à pessoas com transtornos mentais egressas de internações de longa permanência e que não possuem suporte familiar.
Segundo a prefeitura, os moradores vivem em liberdade e recebem acompanhamento psicossocial.
Em parceria com a Faculdade de Medicina de Barbacena (FAME), a Coordenação de Saúde Mental do município também promove o projeto “Ressignificando a Liberdade”, voltado à capacitação de cuidadores que atuam nas residências terapêuticas.
Ao longo de quatro oficinas realizadas entre setembro e dezembro, cerca de 200 profissionais devem participar das atividades teórico-práticas conduzidas por estudantes extensionistas da instituição. A iniciativa busca contribuir para a qualidade de vida dos moradores e ampliar o conhecimento sobre a história do movimento antimanicomial e o funcionamento das residências terapêuticas.
A prefeitura afirma que Barbacena se tornou referência nacional e internacional no modelo de residências terapêuticas, apontado como alternativa ao modelo manicomial tradicional.
Luta Antimanicomial
Em 2001, a lei 10.216, que determina a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental, foi sancionada, acabando de vez com todos os sanatórios e manicômios do Brasil.










