TikTok
Youtube
X (Twitter)
Instagram
Facebook
Whatsapp

‘Ora-pro-nóbis, azeite, farinha… e amor’: cantineira de BH fica no pódio de melhor merenda do Brasil

26/06/2026 às 14h37 - Atualizado em 26/06/2026 às 14h46
Farofa de ora-pro-nóbis de escola de BH conquista prêmio nacional
A merendeira Marina de Fátima da Cunha Reis, uma das principais responsáveis pela receita (Leonardo Fonseca/BHAZ)

Uma muda de ora-pro-nóbis trazida por uma aluna de oito anos, direto do quintal da avó, foi o ponto de partida para uma história que mistura educação, alimentação e memória afetiva em Belo Horizonte. Cultivada na horta da Escola Municipal Sebastiana Novais, a planta virou ingrediente da farofa preparada pela cantineira Marina de Fátima da Cunha Reis, de 70 anos, receita que conquistou um prêmio nacional de alimentação escolar e levou a profissional à Brasília.

A “Farofa de ora-pro-nóbis” ficou entre as melhores receitas do país na terceira edição do Concurso Melhores Receitas da Alimentação Escolar, promovido pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Ao todo, mais de 2,7 mil preparações foram inscritas.

A receita da escola da capital garantiu o segundo lugar de Minas Gerais e colocou Marina entre as merendeiras homenageadas nacionalmente. “Foi um sonho. Você sabe aquele sonho que parece que você vai acordar? Foi assim.”, conta a cantineira, que trabalha há quase 17 anos na escola.

Mas a receita premiada começou bem antes da cozinha. A primeira muda de ora-pro-nóbis chegou pelas mãos da estudante Antonela, então com oito anos, que levou a planta da casa da avó para integrar a horta da escola. Desde então, ela passou a fazer parte de um projeto que envolve estudantes, professores e funcionários em atividades de cultivo, compostagem e educação ambiental.

Na escola os alunos acompanham todas as etapas do cultivo, registram o processo em atividades de arte e aprendem sobre sustentabilidade desde cedo. “Semente na peneira, casca na lixeira”, repetem as crianças, transformando em rotina o cuidado com a terra. “O projeto é deles”, resume Maria Cristina, responsável pela horta escolar há mais de uma década.

A receita premiada

Quando a produção de ora-pro-nóbis começou a crescer, surgiu a ideia de levá-la para o prato. A missão ficou com Marina, que, ao lado da equipe de alimentação escolar, adaptou a receita até encontrar uma versão que agradasse às crianças.

O segredo está na simplicidade. A farofa leva farinha de mandioca, azeite e uma pasta verde preparada com ervas colhidas na própria horta, como manjericão, salsa, cebolinha e coentro. O ora-pro-nóbis entra refogado, em uma técnica que, segundo Marina, exige cuidado. “Não pode deixar cozinhar demais, senão ele solta muita água.”

Para ela, porém, o principal ingrediente não aparece na ficha técnica. “Quando os meninos perguntam o que tem na farofa, eu respondo: tem ora-pro-nóbis, azeite, farinha… e amor.”

A planta também carrega lembranças da infância da cozinheira. Ela conta que o pai costumava servir ora-pro-nóbis no lugar da carne e dizia que a família já havia consumido a proteína necessária no dia. “Ele chamava de ‘orô-brô-brô’. Só depois que fui pesquisar para representar a escola é que descobri o quanto a planta é rica em proteínas.”

Segundo a diretora da escola, Roseli Mariles, o reconhecimento é resultado de um projeto construído ao longo dos anos. Além de estimular hábitos alimentares mais saudáveis, a iniciativa valoriza alimentos tradicionais, fortalece a educação ambiental e aproxima os estudantes da origem dos alimentos que chegam ao prato.

A viagem a Brasília também foi marcada pela troca de experiências com escolas de todo o país. Maria Cristina levou sementes produzidas na horta da Sebastiana Novais para distribuir durante o encontro e voltou com novas ideias para aplicar na escola.

Ao final, o concurso não premiou apenas uma receita, mas também um trabalho coletivo: da aluna que trouxe a primeira muda à equipe da cozinha… Passando pela horta e pelas salas de aula, a farofa de ora-pro-nóbis virou símbolo de um projeto em que alimentação, educação e comunidade crescem juntas.

Raul Costa

Graduando em Jornalismo pela UFMG e estagiário no BHAZ. Gosto jornalismo cultural, cultura pop e tudo que envolve contar boas histórias.

Raul Costa

Email: [email protected]

Estagiário do BHAZ

Mais lidas do dia

Leia mais

Acompanhe com o BHAZ