“É como se você estivesse com o cigarro o dia inteiro na mão”, comparou Carlos Silva*, de 35 anos, ao descrever a onipresença das apostas online na vida dele. Policial penal, ele viu o que começou como um lazer no pôquer transformar-se em uma compulsão de sete anos que consumiu R$ 1 milhão de seu patrimônio. O prejuízo, contudo, não foi apenas financeiro. Em entrevista ao BHAZ, ele revelou que o vício fez com que ele vendesse bens de outras pessoas, mentisse para outras próximas e até mesmo dormisse com fome após apostar o único dinheiro que tinha.
A trajetória de Carlos Silva* ilustra a transição do perfil dos apostadores ao longo dos anos, do jogo físico para o digital. Durante a pandemia da covid-19, ele contou que criou um clube virtual de pôquer e, embora tivesse lucros com a corretagem das partidas, a própria compulsão o impedia de ser apenas um espectador das partidas. “Se eu ficasse parado, eu estava ganhando dinheiro. Só que a minha compulsão era tão grande que eu não conseguia ver o jogo e não entrar”, comentou.
De acordo com o policial, a “sensação de ganho imediato” fez com que ele perdesse a noção do prejuízo causado pelas apostas. “Depois você vê que perdeu muito dinheiro”, disse. Em pouco tempo, Carlos adquiriu dívidas que o levaram a apostar sucessivamente, desencadeando uma bola de neve. Segundo ele, a lógica seguida por apostadores é a seguinte: “se eu perdi no jogo, eu vou recuperar no jogo”.
“Eu não tinha paciência de esperar o jogo todo acabar para recuperar o dinheiro”
Conforme relatou, ele chegou a apostar, inclusive, em jogos de videogame, como o FIFA, porque duravam menos tempo que as partidas de futebol. “Era um negócio mais rápido, porque eu não tinha paciência de esperar o jogo todo acabar para recuperar o dinheiro”, explicou. Segundo Carlos*, diferente dos vícios em cigarro ou bebida que dependem de logística para serem adquiridos, as apostas online não possuem barreiras e podem ser feitas de diversas maneiras. “O cigarro acabou, você vai sair e comprar. A bet não, ela está ali do seu lado. Você acordou e seu telefone está ali”, explicou.
A facilidade do acesso digital às apostas gera o que a psicóloga Laura Lobo chama de “looping da adrenalina”, que dessensibiliza o apostador em relação ao valor real do patrimônio. Carlos disse que sentiu essa distorção na pele: “às vezes eu estava perdendo R$ 300 na mesa de pôquer, mas no celular já estava perdendo 3 mil”, contou. “Porque no pôquer o dinheiro está na mão e online você perde noção de quanto é”, completou. Ele revelou que em uma das ocasiões ganhou R$ 24 mil e, no dia seguinte, revolveu apostar para aumentar o prêmio, mas acabou perdendo R$ 78 mil de uma só vez.
O prato de comida substituído pela aposta
Segundo o policial penal, antes de procurar ajuda para se livrar do vício em apostas, ele chegou a tomar atitudes extremas, como roubar e vender um objeto de uma pessoa próxima, além de deixar de pagar contas essenciais e se alimentar para continuar jogando. “Já cheguei a ligar para o meu pai e falar: ‘pai, me manda R$ 30 que eu não tenho dinheiro para comer’. Ele mandava os R$ 30, eu ia lá e apostava”, confessou. “Era para comer e eu realmente estava com fome, mas preferia dormir com fome”, completou.
De acordo com pesquisa realizada pela Fecomércio em setembro de 2025, essa mesma realidade atinge cerca de 12% dos apostadores de BH, que já deixaram de pagar contas como água e luz. Segundo economista Gabriela Martins, esse redirecionamento de renda é alarmante pois atinge o consumo de subsistência.
“A perda de controle orçamentário de algumas famílias gera, além dessa mudança de comportamento do consumo, também um impacto no consumo essencial, que seria aquele consumo que não tem como ser alterado. É muito alarmante o fato de que muitas pessoas já deixaram de comprar itens no supermercado”, explicou.
Conforme analisou Gabriela, essa mudança no perfil de consumo dos brasileiros gera um ciclo negativo que também enfraquece o comércio local. “Deixa de circular esse dinheiro na economia. Menos renda circulando na economia, menos trabalho sendo gerado, menos consumo…”, explicou. Muito além disso, a economista reforçou que a ludopatia é um problema de saúde que afeta a todos. “A família toda acaba entrando dentro desse processo. E não é só a pessoa deixa de consumir e fica endividado. A gente está falando de todo o núcleo familiar impactado negativamente”, comentou.
A “turma do fundão”
Mesmo sabendo que precisava de ajuda contra o vício “há muitos anos”, Carlos* só conseguiu procurar acompanhamento após pressão familiar. “Ela falou assim: ‘essa é sua última chance, você vai lá e recupera ou acabou'”, relatou o policial penal. Atualmente em abstinência há oito meses, ele encontrou suporte nos Jogadores Anônimos, que promove reuniões às terças e quintas-feiras no bairro Santa Efigênia, na região Leste de BH. Ele disse já havia tentado tratamentos clínicos e religiosos, mas foi com o grupo que ele conseguiu controlar o vício.
“Quando você vai num psiquiatra ou um psicólogo, ele não sente, de fato, o que você tá passando. Aqui tem a vivência. É muito diferente você conversar com uma pessoa que viveu o que você está passando do que uma pessoa que só conhece aquilo na teoria”, comentou.
Hoje, Carlos* sente orgulho de fazer parte da “turma do fundão”, um círculo de amigos dos Jogadores Anônimos que se apoiam independente da situação financeira. Ele contou que o grupo viaja e socializa juntos, fortalecendo a rede de apoio de impede a primeira aposta. Para ele, a recuperação é um resgate diário de caráter e que, para isso, foi necessário aceitar a derrota definitiva. “Eu perdi pro jogo. Não vou enfrentá-lo. Eu sei que vou perder”, finalizou.
Autoexlcusão
O Ministério da Fazenda disponibiliza a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, que permite ao cidadão bloquear o próprio acesso a todas as casas de apostas autorizadas a operar no Brasil. O acesso é feito por meio da conta Gov.br, nos níveis prata ou ouro. Ao entrar no sistema, o usuário deve aceitar os termos e escolher um dos motivos para a exclusão, que incluem desde decisão voluntária e dificuldades financeiras até perda de controle sobre o jogo (saúde mental) ou recomendação profissional.
Assim que a solicitação é registrada, o sistema comunica automaticamente todas as operadoras autorizadas pela SPA/MF. Segundo a pasta, a casa de apostas tem o dever de encerrar a conta do apostador em até três dias e deve permitir que ele retire seus recursos financeiros da plataforma em até dois dias. Além disso, o usuário fica protegido da publicidade direcionada, não podendo receber marketing ou ofertas das plataformas durante o período de exclusão.
*Nome fictício












