O número de adultos que recebem diagnóstico de TDAH tem crescido nas últimas décadas — e isso não significa necessariamente que o transtorno se tornou mais comum. Uma mudança foi a capacidade de identificá-lo. O avanço do conhecimento científico, o acesso à informação e a atualização dos critérios diagnósticos permitiram que casos que passavam despercebidos há décadas fossem, finalmente, reconhecidos.
O TDAH — transtorno do déficit de atenção com hiperatividade — é um transtorno do neurodesenvolvimento com influência genética, caracterizado por sintomas de desatenção, impulsividade e hiperatividade, explica o psiquiatra Marco Túlio de Aquino, mestre em ciências da saúde pela UFMG, terapeuta cognitivo-comportamental pela PUC-MG e cooperado da Unimed-BH. Durante muito tempo, acreditou-se que o transtorno desaparecia na adolescência. Foi só em 1980 que a APA (Associação Americana de Psiquiatria) reconheceu, pela primeira vez, a possibilidade de persistência do transtorno ao longo da vida.
Por que o diagnóstico passou despercebido por tanto tempo
O que contribuiu para essa invisibilidade é que alguns sintomas mudam com a idade, explica o médico. A hiperatividade física, mais visível nas crianças, tende a se transformar em adultos: vira inquietação interna, dificuldade para relaxar ou sensação de estar sempre acelerado. Sem esse sinal, muitos adultos continuavam a enfrentar dificuldades de organização, atenção e controle dos impulsos sem receber o diagnóstico.
O crescimento dos diagnósticos está mais relacionado ao reconhecimento de casos que antes passavam despercebidos do que ao aumento de pessoas com o transtorno. Os critérios diagnósticos também foram atualizados para considerar a realidade dos adultos.
Quando o TDAH aparece na vida adulta
Em muitos casos, a pessoa consegue compensar as dificuldades durante a infância e a adolescência. Os sintomas se tornam mais evidentes quando crescem as responsabilidades e a necessidade de autonomia, como na entrada da faculdade, em processos seletivos, no acúmulo de funções no trabalho, nas relações conjugais, após o nascimento dos filhos ou quando a pessoa passa a administrar sozinha a rotina e as finanças, exemplifica Aquino.
Há ainda uma situação comum: o diagnóstico surgir durante o acompanhamento de um filho avaliado para TDAH. Ao ouvir os sintomas descritos pelo especialista, muitos pais passam a se identificar com aqueles comportamentos e percebem que fazem parte da própria trajetória desde a infância.
Como o transtorno se manifesta em adultos
O transtorno é o mesmo, mas a forma como ele aparece muda. Os sintomas mais comuns em adultos, segundo o psiquiatra, incluem desorganização, esquecimentos frequentes, dificuldade para administrar o tempo, procrastinação, problemas para manter a atenção em tarefas longas, impulsividade e dificuldade para concluir projetos ou cumprir prazos. Para que o diagnóstico seja considerado, esses comportamentos precisam estar interferindo na vida do indivíduo — e a pessoa precisa sofrer por isso.
Como diferenciar de outros diagnósticos
Ansiedade, depressão, transtornos do humor e problemas de sono podem apresentar sintomas semelhantes aos do TDAH, como dificuldade de concentração, esquecimento e desorganização. Por isso, o diagnóstico exige investigação clínica detalhada, com avaliação do histórico de vida e do contexto em que os sintomas surgem.
Para que o TDAH seja considerado, os sintomas precisam estar presentes desde a infância, manifestar-se em mais de um contexto — trabalho, estudos, ambiente familiar ou relações sociais — e provocar prejuízos no funcionamento cotidiano. Além disso, não podem ser explicados por outra condição clínica ou psiquiátrica.
Aquino ressalta que o diagnóstico em saúde mental parte do princípio de que os sintomas causam prejuízo ou interferência na qualidade de vida. “Não se faz um diagnóstico com base em julgamentos morais, comportamentos considerados errados ou simplesmente porque alguém está fora do que é esperado socialmente”, afirma.
O tratamento
Os princípios do tratamento são semelhantes entre crianças e adultos, mas a conduta é sempre adaptada à fase da vida e às necessidades de cada paciente. Pode incluir medicação, quando indicada, psicoterapia — com destaque para a terapia cognitivo-comportamental —, psicoeducação e estratégias para organização da rotina e gerenciamento do tempo. O tratamento precisa ser individualizado e considerar eventuais comorbidades clínicas ou psiquiátricas.
O que muda com o diagnóstico
Para muitas pessoas, receber o diagnóstico na vida adulta representa um divisor de águas. Desafios que antes eram interpretados como falta de esforço, preguiça ou desorganização passam a ter uma explicação — e isso, segundo Aquino, traz alívio.
“O diagnóstico nunca deve ser encarado como um rótulo, mas como uma ferramenta de autoconhecimento e de acesso ao cuidado e ao tratamento correto”, afirma o psiquiatra.
A partir dessa compreensão, torna-se possível buscar tratamento, desenvolver estratégias para lidar com os sintomas e melhorar o desempenho no trabalho, nos estudos e nos relacionamentos.








