“Esses jogos não podem ser vistos como entretenimento. Ponto final”. O alerta da psicóloga Laura Lobo, conselheira do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG), resume a gravidade de uma prática que deixou de ser apenas lazer para se tornar um problema de saúde pública em BH. De acordo com dados oficiais da Secretaria Municipal de Saúde (SMSA), o número de pacientes que buscaram ajuda para se livrar do vício em bets e apostas online na capital mineira aumentou 424% de 2024 para 2025, saltando de 62 para 263 pessoas atendidas no período.
Além disso, segundo o levantamento, os dados preliminares deste ano já indicam um cenário alarmante em BH. Até julho de 2026, a SMSA já contabilizou cerca de 206 belo-horizontinos procurando ajuda contra a ludopatia, quase o mesmo número registrado ao longo de 2025. Em nota ao BHAZ, a pasta informou que tem feito, nos últimos anos, “uma sensibilização dos trabalhadores para incluir, nos registros de atendimento, os CIDs relacionados à ludopatia, mesmo que a motivação da demanda não tenha sido prioritariamente este transtorno”, disse.
Ainda conforme a SMSA, esses pacientes são diagnosticados por Jogo Patológico (CID-10 F63.0), caracterizado por um padrão de comportamento compulsivo de apostar, apesar das consequências negativas. Além disso, há também o diagnóstico de Mania de Jogo e Apostas (CID-10 Z72.6), um comportamento que envolve o desejo incessante de apostar e jogar, provocando a sensação de empolgação e euforia seguida de frustração, ansiedade ou depressão após as perdas.
Ludopatia
Segundo a psicóloga Laura Lobo, a dependência em jogos de azar e bets atua no cérebro de forma similar à dependência química. “A pessoa, mesmo sabendo que é prejudicial, continua dentro desse mecanismo apostando por causa do vício e da compulsão, e se torna algo que ela não consegue mais controlar”, explicou. De acordo com a especialista, as apostas provocam a liberação de dopamina e adrenalina, criando um “looping” de excitação que o cérebro passa a desejar repetidamente.
Laura ainda destacou que o vício é alimentado pela sensação de que a vitória está muito próxima, a chamada ilusão do quase ganho. Conforme explicou, esse sistema de recompensas das plataformas impede que os apostadores tenham tempo para refletir sobre as perdas e aumenta a necessidade de jogar mais vezes, com valores maiores. Além disso, a psicóloga refletiu que a internet transformou o vício em algo onipresente, diferente das loterias, bingos e demais locais que exigem o deslocamento para efetuar a aposta.
“Hoje, a pessoa está na casa dela, no celular, muitas vezes lidando com outras emoções e tendo essa recompensa no cérebro. É dopamina, é adrenalina e aquele sentimento de ‘eu quase ganhei’. Antes, a pessoa jogava uma vez, hoje ela joga duas, três vezes… vai aumentando a necessidade. Quanto mais ela joga, mais ela quer jogar”, disse.
De acordo com Laura, o bombardeio de publicidade, especialmente no futebol, é uma armadilha para que as pessoas vejam o jogo apenas como lazer e não como um problema futuro que pode afetar todo o ciclo familiar. “A propaganda é muito tentadora. Fica parecendo até que a gente é o careta. E eu acho que nessa situação é até bom a gente ser careta”, afirmou.
Além disso, ela disse que muitos acabam se viciando ao entrar em apostas com os amigos para se sentirem incluídos nos grupos. “A pessoa pensa: ‘poxa, todo mundo está apostando, só eu não vou apostar’, mas infelizmente elas só vão falar dos ganhos, ninguém vai falar do quanto perdeu”, explicou. Esse é o caso do jovem Rafael Silva, que teve recaídas no vício durante o período da Copa do Mundo, conforme publicado pelo BHAZ na última semana.
A especialista ainda reforçou que a ludopatia é um problema de saúde pública que afeta toda a sociedade, sendo necessário que as pessoas entendam que as plataformas são empresas desenhadas para não ter prejuízo, assim como quaisquer outras. “Se você está ganhando R$ 1.000, pode ter certeza que alguém perdeu R$ 10 mil”, exemplificou Laura. Para ela, o tratamento deve ser humanizado e envolver a família, uma vez que o isolamento social e a vergonha de pessoas próximas são os maiores obstáculos da melhora. “A rede de apoio é o que mais faz diferença. Quando a pessoa entende que ela não é um fracasso, que aquilo é um transtorno, ela se sente mais otimista”, concluiu.
Ações contra a ludopatia em BH
Para quem busca ajuda contra a ludopatia, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) oferece acolhimento na Rede SUS-BH. Segundo a SMSA, os casos leves são atendidos pelas equipes de saúde mental nos Centros de Saúde. Já situações de crises e urgência são encaminhadas aos Centros de Referência em Saúde Mental (CERSAMs), que funcioam 24 horas por dia. Os endereços estão disponíveis neste link.
Além disso, o aumento dos casos de ludopatia motivou a criação de políticas públicas, como a Lei 11.964/2026, sancionada em janeiro deste ano, que instituiu a Política Municipal de Atenção à Saúde Mental para dependentes de jogos de azar. A nova norma prevê campanhas educativas sobre os riscos associados ao jogo, bem como atendimento especializado e humanizado na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Além disso, o texto determina capacitação de profissionais de saúde, educação e assistência social para identificar e tratar casos permanentes.
Neste mês, o prefeito Álvaro Damião (UNIÃO) publicou um decreto municipal que proíbe a publicidade de bets em espaços públicos, mobiliário urbano e eventos promovidos pela prefeitura. A restrição é ainda mais rígida no entorno de locais frequentados pelo público jovem, com proibição de propagandas em um raio de 100 metros de escolas e museus.
Autoexclusão
O Ministério da Fazenda disponibiliza a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, que permite ao cidadão bloquear o próprio acesso a todas as casas de apostas autorizadas a operar no Brasil. O acesso é feito por meio da conta Gov.br, nos níveis prata ou ouro. Ao entrar no sistema, o usuário deve aceitar os termos e escolher um dos motivos para a exclusão, que incluem desde decisão voluntária e dificuldades financeiras até perda de controle sobre o jogo (saúde mental) ou recomendação profissional.
Assim que a solicitação é registrada, o sistema comunica automaticamente todas as operadoras autorizadas pela SPA/MF. Segundo a pasta, a casa de apostas tem o dever de encerrar a conta do apostador em até três dias e deve permitir que ele retire seus recursos financeiros da plataforma em até dois dias. Além disso, o usuário fica protegido da publicidade direcionada, não podendo receber marketing ou ofertas das plataformas durante o período de exclusão.













