Uma sardinha sozinha num balde fica parada. Com um bagre por perto, ela se mexe para sobreviver. Essa imagem, que vem de pescadores nórdicos, ajuda a explicar como a China virou potência em smartphones e, depois, em carros elétricos. Quem conta é Ricardo Geromel, em entrevista ao jornalista Marcelo Tas.
Geromel é investidor na 3G Radar, onde se dedica à tecnologia. É autor do best-seller O poder da China: o que você deve saber sobre o país que mais cresce em bilionários e unicórnios. Ele se formou em administração de empresas pela Fairleigh Dickinson University (FDU) em 2008, com uma bolsa de estudos que ganhou graças ao futebol. Em 2011, morou em Pequim e fundou uma startup por lá.
A lição do balde
Geromel explica o “efeito bagre” assim. Os pescadores colocavam as sardinhas num balde para levá-las até o destino. “Se só tiver sardinha ali dentro, a sardinha fica letárgica, preguiçosa”, conta. A saída era jogar um bagre no balde. O predador comia algumas sardinhas e outras morriam, mas as que sobravam ficavam espertas e chegavam em melhor forma.
Segundo ele, o governo chinês aplicou essa lógica à economia.
O preço de ser a fábrica do mundo
Geromel lembra que Pequim era a cidade mais poluída do mundo em 2011, ano em que morou lá. Ele vê a poluição como efeito colateral de uma conquista enorme. Ao virar a fábrica do mundo, a China tirou 800 milhões de pessoas da miséria. Para ele, é “a maior conquista econômica da história da humanidade”.
Com isso resolvido, o governo quis criar uma indústria de carros própria. A aposta era que o carro elétrico seria o futuro.
Mais de cem montadoras e nenhum comprador
Dinheiro não faltou. Surgiram centenas de marcas, com recursos do governo, de empreendedores e de fundos. “O governo dá a opção, e os agentes econômicos, investidores, bancos, todo mundo vai naquela direção”, explica Geromel.
Mesmo assim, o plano não deu certo durante dez anos. O país chegou a ter mais de cem montadoras, e ninguém comprava o carro chinês.
A lição do iPhone
Então o governo lembrou de algo que tinha dado muito certo: a vinda da Apple para fabricar o smartphone na China.
Para Geromel, o iPhone talvez seja o produto que mais deu lucro na história. “Aquilo lá é uma obra-prima da tecnologia”, diz. O aparelho tem mais de 200 fornecedores, a maioria chineses. A fábrica fica na China, e os fornecedores de fora também produzem no país, porque precisam estar perto dela.
Esses fornecedores ficaram tão bons fazendo o iPhone que passaram a vender para outras empresas também. Com isso, toda a indústria de smartphones do país melhorou. Hoje, entre as dez empresas que mais vendem smartphones, só duas não são chinesas: uma americana e a coreana Samsung. As outras oito são da China.
A Tesla no papel do bagre
O governo decidiu repetir a receita com os carros. Em 2018, convidou Elon Musk para levar a Tesla à China. Na época, Musk ainda não tinha a proximidade que teria depois com Trump. A Tesla era a líder absoluta do setor. Era o carro que todo mundo desejava.
O objetivo era o mesmo da Apple: fazer crescer toda a cadeia de fornecedores. “Deu muito certo”, afirma Geromel. Ele conta essa história em detalhes no livro.
A BYD mostra o resultado. A empresa fabricava carros a combustão e virou a que mais vende carros elétricos no mundo. E não foi a única a crescer.
Assim como no balde dos pescadores, muitas empresas não sobreviveram. As que ficaram saíram mais fortes, porque a Tesla fortaleceu todo o setor. O país ganhou até mão de obra qualificada.

















