O comissário do Departamento de Correção do Tennessee (TDOC), Frank Strada, vai deixar o cargo ainda em outubro, após a execução fracassada de Christa Pike, a única mulher no corredor da morte do estado. A saída foi anunciada neste sábado (3) pelo governador republicano Bill Lee.
Pike, de 50 anos, recebeu duas injeções letais na noite da última quarta-feira (30), na penitenciária de segurança máxima Riverbend, em Nashville, e não morreu. Ela foi levada a um hospital, onde permanece inconsciente e entubada, segundo seus advogados.
Quase uma hora na maca
O procedimento começou por volta das 20h (horário local). Pike recebeu duas doses de pentobarbital, o único fármaco usado no protocolo atual do Tennessee, mas continuou consciente. Segundo a jornalista Kim Chandler, testemunha credenciada, ela olhou para os funcionários do presídio e perguntou se “era para sentir daquele jeito”. Depois, passou a roncar alto por vários minutos.
As persianas da câmara foram fechadas às 20h06. Às 20h53, os jornalistas foram retirados da sala, e Pike ainda podia ser ouvida roncando. Para um dos repórteres, ela estava “claramente muito viva” quando as testemunhas saíram.
No hospital, a equipe médica tenta eliminar o pentobarbital do organismo da presa. Em documento enviado à Justiça, a defesa afirma que o acesso venoso foi mal colocado e que o fármaco entrou, “no todo ou em parte”, no tecido do corpo, e não na corrente sanguínea. O advogado Randy Spivey contou ao menos sete perfurações de agulha no braço esquerdo. Os braços, diz a defesa, ficaram “inchados, queimados e com bolhas”.
“Aparentemente, em nenhum momento algum membro da equipe de execução percebeu que os acessos não estavam corretamente colocados ou que as veias tinham estourado”, escreveram os advogados. Eles classificam o episódio como “tortura química” e pedem que a pena seja convertida em prisão perpétua.
Pike foi condenada em 1996 pelo assassinato de Colleen Slemmer, de 19 anos, morta em 1995 com extrema violência, num crime motivado por ciúme. Pike tinha 18 anos na época. Se a execução tivesse sido concluída, ela seria a primeira mulher executada no Tennessee em mais de 200 anos.
“No melhor interesse dos cidadãos do Tennessee”
Em nota, Strada defendeu a atuação da equipe, mas disse que sair era o caminho adequado enquanto o caso é investigado.
“Servir como comissário do Departamento de Correção do Tennessee foi uma grande honra, e continuo acreditando que o departamento cumpriu suas responsabilidades de acordo com o protocolo estabelecido. Ainda assim, me afastar é o melhor para os cidadãos do Tennessee enquanto a revisão independente avança”, afirmou. “Acredito que essa revisão é totalmente apropriada e necessária, e quero fazer tudo o que puder para ajudar a determinar exatamente o que aconteceu.”
Bill Lee disse ter aceitado a decisão. “O comissário Strada serviu com integridade, e agradeço sua disposição de colocar os interesses dos cidadãos do Tennessee em primeiro lugar neste momento difícil”, declarou o governador, que agradeceu o compromisso de Strada com uma “transição tranquila”.
Não foi a primeira falha
Strada assumiu o departamento em janeiro de 2023, nomeado por Lee. Antes, era vice-diretor do Departamento de Correções do Arizona, responsável por operações prisionais, programas para detentos e gestão financeira. Chegou ao cargo num momento de crise. Em 2022, o Tennessee suspendeu a execução de Oscar Smith, e uma revisão independente concluiu que o estado não seguia o próprio protocolo de injeção letal desde 2018.
As execuções foram retomadas com um novo protocolo, de fármaco único (pentobarbital), no lugar do coquetel de três drogas. A mudança foi contestada na Justiça por presos do corredor da morte, inclusive a própria Pike, que alegavam “alto risco de uma morte torturante”.
O caso de Pike não foi o único problema deste ano. Em maio, a equipe passou mais de uma hora sem conseguir puncionar uma veia de Tony Carruthers. Segundo os advogados, ele fazia caretas e gemia durante as tentativas. O médico responsável não colocava um acesso venoso em pacientes havia mais de uma década e não tinha privilégios hospitalares.
Execuções suspensas
Depois da falha, Lee cancelou todas as execuções previstas para o restante de 2026 e determinou uma “revisão abrangente, feita por terceiros”. Deputados republicanos pediram que o protocolo de fármaco único seja reavaliado.
“O estado do Tennessee mostrou de novo que não é capaz de realizar uma execução compatível com a dignidade humana básica”, disse a defesa de Pike. Os advogados também pediram à Justiça, em caráter de urgência, que os registros da execução sejam preservados.
Ainda não há definição sobre o que acontece com a pena de Pike caso ela sobreviva.

















