Uma vacina experimental contra o câncer reduziu em 42% o risco de morte ou de retorno do melanoma, o tipo mais agressivo de câncer de pele, em pacientes que já tinham passado por cirurgia para retirar o tumor. O resultado é de um estudo de fase 3, a última etapa de testes antes do pedido de aprovação, divulgado nesta quinta-feira (22) pelas farmacêuticas Moderna e MSD (Merck, nos Estados Unidos).
O imunizante, chamado intismeran autogene, foi aplicado em conjunto com o pembrolizumabe (nome comercial Keytruda), medicamento de imunoterapia já usado no tratamento do melanoma. A comparação foi feita com pacientes que receberam apenas o pembrolizumabe. Os dados completos serão apresentados neste sábado (24) no congresso da Sociedade Europeia de Oncologia Médica (ESMO).
É a primeira vez que uma vacina personalizada contra o câncer, feita a partir das mutações do tumor de cada paciente, mostra benefício em um estudo de fase 3. É também o primeiro medicamento de mRNA contra o câncer a passar por essa etapa.
O que o estudo mostrou
O ensaio clínico, batizado de INTerpath-001, acompanhou 1.137 pacientes em 157 centros de pesquisa no mundo. Todos tinham melanoma em estágio 2B a 4, já haviam retirado o tumor por cirurgia, mas continuavam com alto risco de a doença voltar.
Os principais resultados, após dois anos de acompanhamento:
- 82,2% dos pacientes que receberam a vacina com o pembrolizumabe continuavam sem sinais do câncer, contra 70% dos que receberam só a imunoterapia;
- o risco de morte ou recorrência caiu 42% no grupo da vacina;
- o risco de metástase (quando o câncer se espalha para outros órgãos) ou morte caiu 38%;
- considerando apenas o período depois que os pacientes completaram o esquema de vacinação, de seis meses, a redução do risco de recorrência ou morte chegou a 58%.
Durante os primeiros seis meses, enquanto as doses ainda estavam sendo aplicadas, os resultados dos dois grupos foram parecidos. A diferença apareceu depois.
Um dos pesquisadores do estudo, o oncologista Hussein Tawbi, do MD Anderson Cancer Center, da Universidade do Texas, afirmou que o resultado é altamente significativo do ponto de vista estatístico e que não se deve ao acaso.
O que significa “reduzir em 42%”
O número precisa ser lido com cuidado. A redução de 42% é relativa. Ela compara o risco entre os dois grupos do estudo. Não significa que 42% dos pacientes foram curados, nem que a vacina evita 42% das mortes por melanoma.
Também é importante notar que o indicador principal do estudo soma dois eventos: a volta do câncer ou a morte do paciente. O estudo não mediu isoladamente o impacto da vacina sobre a mortalidade.
Como funciona a vacina
Ao contrário das vacinas tradicionais, que previnem infecções, o intismeran é uma vacina terapêutica: ela é usada para tratar quem já teve câncer, e não para impedir que a doença surja.
O processo começa com a cirurgia. Uma amostra do tumor retirado é sequenciada para identificar mutações exclusivas daquele câncer. Essas informações são codificadas em RNA mensageiro (a mesma tecnologia usada pela Moderna na vacina contra a Covid-19) e transformadas em um imunizante único para cada paciente. A produção leva cerca de seis semanas a partir da biópsia.
A vacina “ensina” o sistema imunológico a reconhecer as células com aquelas mutações. O pembrolizumabe atua de forma complementar, retirando os freios que impedem as células de defesa de atacar o tumor.
No estudo, os pacientes receberam nove doses da vacina, começando 13 semanas após a cirurgia.
Efeitos colaterais
Eventos adversos relacionados ao tratamento foram registrados em 95,8% dos pacientes do grupo da vacina e em 90% do grupo que recebeu apenas a imunoterapia. Segundo as empresas, não surgiram novos sinais de alerta de segurança, e a maior parte dos efeitos adicionais foi leve, como dor no local da injeção.
Resultado abaixo do esperado pelo mercado
Apesar de positivo, o dado ficou abaixo do observado na fase anterior da pesquisa. No estudo de fase 2, com 157 pacientes, a combinação havia reduzido em 49% o risco de recorrência ou morte.
A diferença, somada ao vazamento antecipado de parte dos dados, fez as ações da Moderna caírem quase 18% na quinta-feira. Analistas do mercado também esperavam um resultado melhor na redução de metástases, indicador que a própria empresa vinha destacando como um dos mais importantes.
Quando pode chegar aos pacientes
Segundo o presidente-executivo da Moderna, Stéphane Bancel, as empresas vão pedir aprovação à FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, e esperam lançar a vacina no país em 2027. Não houve anúncio sobre pedido de registro na Anvisa.
Hoje, a única vacina terapêutica contra o câncer aprovada pela FDA é a Provenge, usada contra o câncer de próstata. Ainda não há informações sobre o preço do intismeran — vacinas personalizadas são caras de produzir, e o custo e o acesso devem estar no centro do debate caso o tratamento seja aprovado.
A combinação da vacina com o pembrolizumabe também está sendo testada em outros tipos de câncer, como os de pulmão, rim e bexiga.
O melanoma no Brasil
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima 9.360 novos casos de melanoma por ano no Brasil entre 2026 e 2028.
O melanoma representa uma pequena parcela dos cânceres de pele, mas é o mais letal: responde por cerca de 40% das mortes por câncer de pele no país. A exposição à radiação ultravioleta é o principal fator de risco, e o diagnóstico precoce é decisivo para o tratamento.
Por isso, especialistas reforçam a atenção a pintas que mudam de cor, formato ou tamanho, que crescem rapidamente ou que surgem de repente, sinais que devem ser avaliados por um dermatologista. O uso de protetor solar e a proteção contra o sol desde a infância seguem como as principais formas de prevenção.

















