A Polícia Federal indiciou nesta quarta-feira (28) o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa e outras 13 pessoas no chamado “inquérito mãe” do caso Master, o primeiro a ser concluído dentro da Operação Compliance Zero. O relatório, com mais de 700 páginas, foi enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo a PF, Vorcaro e Costa formavam o núcleo estratégico da organização criminosa que atuou para viabilizar a compra do Master pelo BRB entre 2024 e 2025. Vorcaro é apontado como líder do grupo.
O mineiro foi indiciado por cinco crimes: gestão fraudulenta, indução de investidor a erro em operação financeira, fraude à fiscalização, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Somadas, as penas previstas vão de 12 a 41 anos de prisão. Costa responde por gestão fraudulenta e organização criminosa.
R$ 12 bilhões em créditos sem lastro
O centro da investigação é a venda de carteiras de crédito do Master ao BRB. Entre julho de 2024 e outubro de 2025, o banco de Vorcaro repassou cerca de R$ 17,5 bilhões ao banco estatal do Distrito Federal em consignados, empréstimos pessoais, crédito rotativo e parcelamentos de fatura.
Desse total, a PF afirma ter identificado fraude em pelo menos R$ 12 bilhões, sobretudo em carteiras de consignado que teriam sido montadas sem contratos reais por trás. Parte dos dados, segundo os investigadores, estava em planilhas com suspeita de falsificação, e o BRB não conferiu contratos nem averbações antes de comprar os créditos.
A PF estima, por ora, um prejuízo mínimo de R$ 2,7 bilhões ao BRB. Somando as compras de carteiras do Master e do Will Bank no mesmo período, o banco público adquiriu cerca de R$ 26,6 bilhões em ativos; cerca de R$ 10 bilhões dos créditos problemáticos foram depois trocados por outros ativos, cuja recuperação ainda está em análise.
Os investigadores também apontam que as cessões continuaram até outubro de 2025, mesmo depois de o Banco Central ter barrado, em setembro daquele ano, a venda do Master ao BRB.
“Centro decisório”
No relatório, a PF sustenta que a responsabilização de Vorcaro não se explica apenas por ele comandar o Master. Segundo a corporação, o banqueiro teve participação “pessoal, reiterada e diretiva” nas operações: atuou na obtenção de bases de dados, na montagem e venda das carteiras, na captação de recursos junto ao BRB e na produção de documentos usados depois para justificar as transações.
Mensagens apreendidas reforçam, para a PF, que o Master dependia do dinheiro do banco público para manter a liquidez. Numa conversa de setembro de 2024, Vorcaro demonstra preocupação com a entrada de recursos do BRB e menciona a possibilidade de usar o depósito compulsório para honrar obrigações do banco.
Quem são os indiciados
- Daniel Vorcaro, fundador e ex-controlador do Banco Master
- Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB
- Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro no Master
- Ângelo Antônio Ribeiro da Silva, ex-diretor financeiro do Master
- Luiz Antônio Bull, ex-diretor de compliance do Master
- Alberto Félix de Oliveira Neto, ex-superintendente financeiro do Master
- Daniel Lopes Monteiro, advogado que trabalhava para Vorcaro
- Henrique Souza e Silva Peretto, sócio da Tirreno
- Dario Oswaldo Garcia Junior, ex-diretor de Finanças e Controladoria do BRB
- Luana de Andrade Ribeiro, ex-diretora executiva de Controle e Riscos do BRB
- Cristiane Maria Lima Bukowitz, ex-diretora executiva de Gestão de Pessoas do BRB
- Diogo Ilário de Araújo Oliveira, ex-diretor executivo de Atacado e Governo do BRB
- José Maria Correa Dias Junior, ex-diretor executivo de Tecnologia do BRB
- Allan da Silva Machado
- André Felipe de Oliveira Seixas Maia
O que dizem as defesas
Até a publicação desta reportagem, as defesas não haviam se manifestado sobre o relatório. Em depoimentos, Vorcaro e Costa afirmaram que as operações entre os bancos não causaram prejuízo e eram vantajosas para as duas instituições.
Em nota divulgada após depoimento em 16 de outubro, a defesa de Vorcaro chamou de fantasiosa a tese de fraude, disse que o negócio envolvendo as carteiras da Tirreno não chegou a ser concluído e anunciou pedido de perícia na esfera cível. Os advogados também pediram o arquivamento do inquérito e a revogação da prisão preventiva.
O BRB afirma ser vítima das irregularidades.
E agora?
Indiciamento não é acusação formal. Com o relatório da PF, cabe à Procuradoria-Geral da República (PGR) decidir se apresenta denúncia ao STF, onde o caso está sob relatoria do ministro André Mendonça. Só se a denúncia for aceita os indiciados viram réus.
A PF informou que ainda há diligências pendentes e pediu prorrogação do inquérito para seguir com as demais frentes da Compliance Zero, que já teve dez fases e apura também suspeitas de corrupção de agentes públicos e obstrução de Justiça.

















