A parceria que deu a Cristiano Ronaldo o título saudita pelo Al-Nassr há quatro meses virou crise na seleção portuguesa. Nesta quarta-feira (30), o atacante de 41 anos anunciou nas redes sociais que deixou o estágio de Portugal, às vésperas do jogo contra a Dinamarca, em Copenhague.
“Após a conferência de imprensa do Selecionador Nacional, e no seguimento de uma conversa com o Presidente da Federação Portuguesa de Futebol, tomei a decisão de deixar o estágio da Seleção Nacional”, escreveu Cristiano. “A seu tempo, direi a verdade a todos os Portugueses sobre as razões. Agora é tempo de desejar boa sorte a Portugal.”
O estopim foi o banco. No domingo (27), Jorge Jesus deixou o capitão sem jogar os 90 minutos da vitória por 2 a 1 sobre a Noruega, em Oslo.
Do aquecimento ao túnel
Cristiano aqueceu no segundo tempo em Oslo, à espera de cerca de meia hora em campo. A entrada não veio. Ao apito final, seguiu direto para o vestiário, sem atender os torcedores que pediam fotos e autógrafos.
Na saída, Jorge Jesus disse que conversaria com o jogador. “Eu pretendia colocá-lo na meia hora final, mas o desenho do jogo pediu outras trocas. Ele tem 41 anos e precisamos gerir essas situações”, afirmou. O jornal francês L’Équipe resumiu que, com Jesus, o status de “intocável” de Cristiano chegou ao fim.
Nos dias seguintes, o capitão fez apenas trabalho individual na academia enquanto o grupo treinava. Nessa terça-feira (29), os dois se reuniram no hotel da seleção em Malmö, na Suécia. A imprensa portuguesa descreveu o encontro como positivo, e o presidente da Federação, Pedro Proença, mudou a agenda para acompanhar a situação de perto.
“Quem manda sou eu”
A trégua durou pouco. Na coletiva desta quarta, Jesus revelou que já havia combinado com Cristiano que ele não jogaria contra Noruega nem Dinamarca. “É verdade que falei com ele, criamos um plano como fizemos com o Bruno Fernandes, e disse ao Cris que não jogaria contra a Noruega nem contra a Dinamarca”, afirmou.
O técnico justificou a decisão com a experiência no Al-Nassr: segundo ele, Cristiano raramente jogava partidas com três dias de intervalo e não treina no primeiro nem no segundo dia após os jogos. E subiu o tom: “Num clube, quem manda é o presidente. Na equipe, quem manda sou eu. Nunca nenhum jogador vai mudar as minhas ideias.”
Jesus negou qualquer crise. “Não houve incidente nenhum. Não tentem criar um escândalo”, disse, rebatendo também a versão de que o atacante teria se recusado a treinar. Horas depois, Cristiano deixou o treino em Copenhague e anunciou a saída do estágio.
O zagueiro Rúben Dias saiu em defesa do capitão: “É um momento de frustração que dura 10, 15 ou 20 segundos. Não diminui em nada o compromisso que ele mostra com a nossa seleção há mais de 20 anos.”
De campeões em Riad a rivais em Portugal
A crise contrasta com o que os dois viveram na Arábia Saudita. Em maio, Jesus e Cristiano conquistaram juntos a Saudi Pro League pelo Al-Nassr, dois pontos à frente do Al-Hilal. O português marcou 28 gols em 30 jogos e encerrou o jejum de títulos desde que chegou ao clube.
Jesus assumiu a seleção após a eliminação de Portugal para a Espanha nas oitavas de final da Copa de 2026, que encerrou o ciclo de Roberto Martínez. Assinou por quatro anos e chamou o cargo de “o auge da minha carreira”. Na chegada, reconheceu o peso do ex-comandado e disse: “Sem o Cristiano, certamente não estaria aqui”, mas avisou: “O que importa é o desempenho. O passado não conta.”
Cristiano, por sua vez, deixou claras as ambições: chegar ao gol de número mil na carreira e ganhar mais uma Liga das Nações. Ele soma 979 gols, 146 deles em 233 jogos por Portugal. E já havia avisado: “Se não contarem comigo, serei o primeiro a fazer as malas.”
O estilo linha-dura de Jesus com estrelas não é novidade. No Al-Hilal, ele protagonizou atritos públicos com Neymar.
O que vem agora
Portugal enfrenta a Dinamarca nesta quinta-feira (1º), no Parken, em Copenhague, pela terceira rodada da Liga das Nações, sem o capitão. Cristiano prometeu explicar os motivos da saída “a seu tempo”. Ainda não está claro se a decisão vale só para esta janela ou se ameaça o futuro dele na seleção.

















