O estado do Tennessee, nos Estados Unidos, tentou executar Christa Gail Pike, de 50 anos, na noite dessa quarta-feira (30), e não conseguiu. Os agentes aplicaram duas doses de pentobarbital, o sedativo usado no protocolo de injeção letal do estado. Mesmo assim, Pike seguiu viva por mais de uma hora e foi levada de ambulância a um hospital fora da prisão. Até a última atualização, o estado de saúde dela não tinha sido divulgado. Os advogados dizem que também não foram informados.
Depois do episódio, o governador Bill Lee suspendeu todas as execuções que o Tennessee faria até o fim de 2026. Ele também mandou fazer uma revisão “abrangente, conduzida por terceiros” sobre o que aconteceu. “Executar uma sentença imposta conforme a lei está entre as responsabilidades mais sérias do Estado, e o povo do Tennessee espera que isso seja feito de maneira não apenas legal e constitucional, mas eficaz”, afirmou Lee.
“É para sentir isso?”
A execução estava marcada para as 10h (horário local) na Riverbend Maximum Security Institution, presídio de segurança máxima em Nashville. Um tribunal de apelação suspendeu o procedimento cerca de uma hora antes. Horas depois, a Suprema Corte dos EUA derrubou a suspensão. As juízas Sonia Sotomayor, Elena Kagan e Ketanji Brown Jackson votaram contra a decisão.
No começo da noite, as cortinas da sala de execução foram abertas. Pike estava presa à maca. Na declaração final, disse: “Vou deixar este mundo do jeito que passei a maior parte da minha vida: amando.”
Segundo Kim Chandler, jornalista da Associated Press que acompanhou o procedimento como testemunha, Pike parecia “visivelmente acordada” quando a injeção começou. Em certo momento, ela levantou a cabeça e perguntou aos funcionários se era normal sentir aquilo no braço. Depois, a boca abriu algumas vezes e ela começou a roncar alto. A cortina foi fechada e reaberta durante o procedimento. Por volta das 20h53, o microfone foi desligado e os jornalistas foram retirados do local.
Os advogados entraram com um pedido de emergência na Justiça. No documento, disseram que Pike “não perdeu a consciência, ainda tem batimentos cardíacos e está roncando de forma audível”, embora os executores já tivessem injetado as duas seringas.
Defesa e Estado se contradizem
Em nota, a defesa disse que “o Estado do Tennessee mais uma vez falhou em realizar uma execução legal”. Os advogados apontaram “acesso venoso difícil, veias rompidas, pentobarbital degradado e nenhum atendimento médico de emergência disponível quando as coisas inevitavelmente dão errado”. Eles também criticaram o sigilo do protocolo.
O Departamento de Correção do Tennessee diz que “seguiu cada etapa” do protocolo. Segundo o órgão, “o produto químico usado tem sido consistentemente eficaz” e as regras “não permitem procedimentos adicionais além do que foi feito nesta noite”.
O crime
Em janeiro de 1995, Pike, então com 18 anos, atraiu Colleen Slemmer, de 19, para uma área de mata perto de um centro de formação profissional do programa federal Job Corps, em Knoxville. As duas estudavam no centro. Ela estava acompanhada do namorado, Tadaryl Shipp, de 17 anos, e de outra jovem, Shadolla Peterson. Slemmer foi torturada e morta, e os agressores entalharam um pentagrama no peito dela. Segundo os investigadores, Pike guardou um pedaço do crânio da vítima e o mostrou a colegas. A motivação, de acordo com a acusação, seria o ciúme. Pike acreditava que Slemmer queria roubar seu namorado.
Pike foi condenada à morte em 1996 e passou três décadas no corredor da morte. Shipp, menor de idade na época, recebeu prisão perpétua. Peterson testemunhou contra Pike e foi condenada a liberdade condicional.
“Toda vez que penso nisso, imagino a Colleen sentindo aquela dor e tentando se levantar e correr”, disse May Martinez, mãe da vítima.
A defesa cita um histórico de abuso sexual e violência na infância de Pike. Por isso, ela pediu uma equipe de execução formada só por mulheres e chegou a pedir que fosse executada por um pelotão de fuzilamento feminino. O argumento era que a colocação do acesso venoso, com ela contida por homens, poderia provocar crises traumáticas. O Tennessee não prevê fuzilamento. “Christa era apenas uma adolescente e havia sofrido abusos horríveis na infância. Hoje ela tem 50 anos e é uma pessoa completamente diferente”, disse o advogado Clive Stafford Smith.
Segunda falha no ano
Esta é a segunda execução fracassada no Tennessee em 2026. Em maio, Tony Carruthers ganhou um adiamento de um ano depois que a equipe passou mais de uma hora tentando, sem sucesso, encontrar uma veia, com mais de 12 perfurações.

















