‘Se relaxarmos agora, todo esforço será perdido’: Isolamento deve ser reforçado em BH, diz pesquisador da UFMG

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Artigo de professores da UFMG tem 9 motivos para que isolamento não seja flexibilizado (Amanda Dias/BHAZ)

Apesar do cenário de combate à pandemia do novo coronavírus no Brasil ser considerado otimista para parte da população, pesquisas apontam que as medidas de isolamento social ainda não podem ser flexibilizadas. Para o professor de estatística da UFMG Luiz Henrique Duczmal, todo o esforço de um mês de isolamento pode ser perdido caso um relaxamento ocorra.

Duczmal é um dos responsáveis pelo estudo da UFMG que aponta que o isolamento social vertical, aquele que é restrito aos grupos de risco, é quase tão ineficiente quanto nenhum isolamento. O chamado isolamento vertical tem sido defendido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Em uma atualização da pesquisa, os dados apontam que o isolamento em Belo Horizonte tem sido efetivo, mas não o suficiente para conter a epidemia. Segundo o professor, os resultados ainda não devem ser comemorados e as medidas devem ser intensificadas.

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O estudo é feito com base em dados de mobilidade social em Belo Horizonte, que estimam como o isolamento está sendo aplicado na cidade. Nas últimas semanas, os pesquisadores estimam que tenha sido registrada uma redução de cerca de duas vezes em relação ao contato social em situações normais.

Caso o isolamento vertical estivesse sendo aplicado, o estudo estima que, ao final de maio, cerca de 400 mil pessoas teriam a Covid-19 ao mesmo tempo em Belo Horizonte. Sem nenhum isolamento, a estimativa é de 500 mil infecções simultâneas. Ainda assim, o professor acredita que o cenário atual poderia ser melhor.

“O que temos hoje é melhor do que o isolamento vertical, melhor do que nada. Mas ainda não é muito eficiente e pode ser melhorado, o ideal seria um cenário com o dobro da redução que já temos. Se continuarmos do jeito que estamos, o pico pode registrar 200 mil infecções simultâneas e isso ainda não é suficiente para controlarmos a epidemia”, explica Duczmal.

Reforçar, e não relaxar

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), afirmou que o Estado planeja elaborar um protocolo para determinar regras de segurança e orientar os prefeitos a fazerem uma “reativação criteriosa e segura da economia”, já que acredita que Minas está indo “muito bem” no combate à Covid-19.

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Para o professor, o momento não é de relaxar medidas, mas de reforçá-las. “O sucesso no combate é relativo, ainda vemos muitos carros circulando nas ruas, não são só serviços essenciais que estão funcionando. Já conseguimos adiar um pouco o pico, mas não é hora de relaxar. É hora de manter e deixar ainda mais intenso”, explica.

“Se relaxarmos agora, todo o progresso desse mês de isolamento vai ser perdido. No momento, qualquer redução no isolamento vai provocar aceleração do contágio e vamos perder todo o trabalho. Se relaxarmos agora, os hospitais não vão ter condição de suportar os casos e muitas pessoas vão morrer por falta de atendimento”, completa.

Duczmal afirma que o ideal é que só trabalhadores essenciais saiam e todos se protejam o máximo possível. Ele também considera imprescindível que as pessoas mais pobres recebam assistência governamental, para que possam ficar em casa sem trabalhar.

Subnotificação e dados insuficientes

O pesquisador também ressalta que os estudos estão sendo conduzidos com base em dados que, segundo ele, não refletem a realidade. No início de março, quando a pesquisa começou a ser desenvolvida, os testes ainda eram suficientes para atender a demanda.

“No Brasil temos um problema que não vemos em outros países, que é uma subnotificação muito grande. O número de casos e de mortos por Covid-19 é muito maior do que o que é registrado e estamos praticamente no escuro em relação aos dados atuais”, explica Duczmal.

O especialista ressalta a importância de que estudos como esse sejam estendidos e incentivados, para que o monitoramento dos casos e do comportamento das pessoas seja constante e que as simulações sejam mais fiéis à realidade. O professor também está conduzindo uma pesquisa sobre a eficiência do uso de máscaras no combate à disseminação da doença.

“Esperamos que, com novos kits de testes que estão para chegar, a qualidade dos dados melhore e possamos ter uma estatística melhor, porque, por enquanto, não conhecemos a situação real. Ainda não é hora de comemorar, temos muito o que melhorar”, conclui o professor.

Covid-19 em Minas

Segundo o Informe Epidemiológico divulgado pela Secretaria de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) divulgado nessa terça-feira (21), o Estado registra 1230 casos confirmados de Covid-19 e 44 mortes.

73 óbitos estão em investigação e 313 mortes foram descartadas. Em Belo Horizonte, são 459 casos e 8 mortes causadas pelo novo coronavírus. 76% dos contaminados tem entre 20 e 59 anos, e 84% das mortes foram de pessoas com mais de 60 anos.

Minas Gerais registra em 2020, ainda segundo a SES-MG, um aumento de 329% nos número de hospitalizações por síndrome respiratória aguda grave em relação ao mesmo período de 2019.

A partir desta quarta-feira (22), entra em vigor o decreto do prefeito Alexandre Kalil (PSD), exigem que o cidadão utilize máscaras para acessar espaços, serviços públicos e comércios de Belo Horizonte. Agora, é proibido sair às ruas da capital sem o equipamento.

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Reforce a proteção contra o vírus

A SES-MG orienta que a população tome algumas medidas de higiene respiratória para evitar a propagação da doença, são elas:

  • Lavar as mãos frequentemente com água e sabonete por pelo menos 20 segundos, respeitando os 5 momentos de higienização. Se não houver água e sabonete, usar um desinfetante para as mãos à base de álcool.
  • Evitar tocar nos olhos, nariz e boca com as mãos não lavadas.
  • Evitar contato próximo com pessoas doentes.
  • Ficar em casa quando estiver doente.
  • Cobrir boca e nariz ao tossir ou espirrar com um lenço de papel e jogar no lixo.
  • Limpar e desinfetar objetos e superfícies tocados com frequência

Sofia Leão
Sofia Leãosofia.leao@bhaz.com.br

Estudante de Jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Escreve com foco na editoria de Esportes no BHAZ.