Carina Pereira fala de demissão da Globo e revela assédio e preconceito

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Carina Pereira, ex-apresentadora da Globo, finalmente se pronunciou sobre demissão (Reprodução/Instagram)

Carina Pereira, 41, ex-apresentadora do Globo Esporte e do Bom Dia Minas, pronunciou-se em rede social sobre sua demissão da Globo e contou episódios de assédio e discriminação que sofria dentro da redação. Ela foi mandada embora pela emissora, mas relatou que já planejava sair do emprego há um tempo, e que preferia ‘vender cachaça e linguiça’ ou até mesmo ser assaltada e ir à delegacia em um dia de trabalho do que ir ao estúdio.

A jornalista ficou durante sete anos na Globo, construiu uma legião de fãs, e agradeceu a eles pelo carinho: “Sim, eu fui demitida, e não, eu não estou triste. Tá tudo bem. Eu gostaria de agradecer a todas as pessoas que me mandaram mensagens de apoio, que falaram que vão sentir a minha falta. Todo esse carinho foi muito importante na minha vida, principalmente neste último ano”.

Ela conta que já não estava feliz. “Tem uns dois anos que eu já não estava feliz, que aconteceram algumas coisas e que foram somando. Eu enfrentei muito preconceito por ser mulher [na redação de esporte] e principalmente por não ser desse meio. No começo eram piadinhas dos colegas, algum tratamento diferenciado porque eu não era dali. Só que depois começou com o meu chefe”.

“O meu chefe fazia piada, o meu chefe fala ‘ah, a Carina consegue essa exclusiva porque ela é mulher, Carina tem o que você não tem, oferece o que você não oferece’. Quando era o colega eu retrucava, mas quando era o chefe, não, porque era alguém que eu respeita, era alguém que eu admirava, e eu ficava calada. Não sei porque, mas eu ficava calada”.

O chefe mencionado por ela foi citado diversas vezes nos relatos de assédio. Carina contou de uma viagem em que ele falou, repetidamente, que uma reunião com pessoas de fora do departamento só tinha durado mais tempo pelo fato de ela ser mulher.

“‘Se fosse eu, essa reunião não teria durado cinco minutos. Mas, mulher, né. Ser mulher é bom demais, ser mulher é fácil demais. Com você, a reunião durou meia-hora’, ele falou. Aí eu fui no banheiro esse dia e eu fiquei trancada durante três horas. Eu não conseguia sair de lá. Eu não consegui, eu tinha vergonha, eu achava que estava no lugar errado, que eu não era a pessoa certa, que eu não devia estar lá. E assim foi um bom tempo”.

Denúncia

Carina relatou que ela não era a única que sofria assédio desse chefe. Um grupo de colegas se reuniu e foi até o RH (Recursos Humanos) da empresa para fazer a denúncia.

“Primeiro a gente foi no RH, mas não adiantou muito. E aí a gente fez uma denúncia no Compliance, que é a ouvidoria da empresa. E assim, na época, nada aconteceu. Eu fui mudada de horário, eu fui mudada de função e para mim eu acho que as coisas pioraram. Eu era a única mulher dessa galera que denunciou e eu sinto que eu fui a única prejudicada em tudo”.

Essa não é a primeira vez que a mineira denunciou publicamente episódios de assédio na empresa. Em 2019, ela postou um vídeo chorando em sua rede social, após ter suspostamente escutado uma piada machista direcionada à ela no trabalho: “Eu já escutei tantas piadinhas maldosas, mas tem dia que dói mais”, disse ela, na época.

‘Eu não queria voltar’

Carina ficou um tempo afastado do estúdio devido à pandemia e por conta de férias. Ela contou que durante esse tempo chegou até mesmo a olhar fábricas de roupa com a cunhada, porque, quando era mais nova, tinha o sonho de ter uma loja de roupa.

A jornalista prossegue o relato e conta que não queria mais voltar ao trabalho. “Eu pedi o meu pai emprego. Só que eu tinha financiado um apartamento no ano passado e eu tinha muitas dúvidas. Porque eu gastei muita coisa no cartão de crédito, reformei, comprei porta… então eu não podia pedir demissão. Mas eu não queria aquilo mais para mim. E eu voltei com aquela certeza que tinha passado meu limite”.

“Quando eu voltei, inacreditavelmente, as coisas pioraram. Eu tive piores condições de trabalho. Foi difícil”. Na época, ela tinha uma nova chefe e dois meses após a volta, conversou com ela, questionando a falta de recursos para o programa em que ela foi contratada, mas a chefe disse que não poderia oferecer para ela nada além do que já tinha.

“Ela me perguntou ‘O que que você está fazendo de diferente pra eu te dar uma oportunidade?’. Eu disse ‘Eu não quero uma oportunidade, eu queria que você tivesse empatia com minha historia, com tudo que eu passei, com tudo que eu fiz aqui. Se você não tem, eu prefiro vender cachaça e linguiça na roça do que ficar do jeito que tá”.

Preferia ser assaltada

No final do vídeo, a mineira se emocionou ao lembrar que, um dia, percebeu que preferia ser assaltada a ir nos estúdios Globo trabalhar.

“Teve um dia assim, muito ruim, muito ruim mesmo, que eu estava muito mal, eu acordei de madrugada e falei: ‘Hoje eu não vou trabalhar, hoje eu não vou trabalhar, não quero, não quero’. Aí na hora que eu cheguei dentro do carro, eu falei ‘podia ter um bandido ali pra me assaltar porque eu preferia ir pra delegacia do que ir trabalhar”.

“E esse dia foi ruim, esse dia eu fiquei mal. Eu falei: ‘Acho que eu tô doente, eu tô com depressão. Esse dia eu fiquei bem chateada de verdade”. Ela contou que fazia terapia com frequência e que nesse dia não foi diferente. Depois que chegou em casa da sessão, abriu a Bíblia e leu Eclesiastes 4:6: “Mais vale uma mão cheia de tranquilidade, que as duas mãos cheias de trabalho e de vento que passa.”

Assédio

Esse não é o primeiro episódio de assédio denunciado por artistas e jornalistas da Globo. No mês passado, Dani Calabresa ficou na manchete de vários jornais depois das acusações públicas contra o renomado humorista da emissora, Marcius Melhem. Ela também tinha recorrido ao RH da empresa na época dos assédios e nada tinha sido feito contra o artista.

Entramos em contato com a Globo via telefone e por e-mail, nesta manhã (13), mas ainda não obtivemos resposta. Caso a Globo queira se manifestar, tão logo atualizaremos a matéria. Veja vídeo publicado por Carina em rede social:

Climão

Durante sua última participação no “Bom Dia Minas”, no dia 5 de janeiro deste ano, Carina entrou no ar sabendo da própria demissão e acabou soltando algumas indiretas. Ela não conseguiu esconder o seu desconforto.

Em um momento, o colega de bancada, Cadu Alvim, desejou que a jornalista tivesse um 2021 “com boas notícias”. Já Carina, respondeu: “Muito obrigada, Cadu. Eu ainda estou esperando aí uma boa notícia esse ano”

O apresentador ainda continuou, afirmando que conversaria com ela durante toda a semana no jornal. Carina desconversou deixando claro que ela não estaria mais no programa: “Que bom que você vai estar aqui essa semana inteira”, respondeu, com um riso desconfortável no fim da frase. Veja vídeo:

Edição: Vitor Fernandes

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