“Do Lamas ao Capela, e da Mem de Sá; Passo no Bar Luís; E no Amarelinho é que eu vou terminar”
“Quero um som de fossa da Dolores, uma valsa do Orestes, zum-zum-zum dos Cafajestes, um bife lá no Lamas, cidade sem Aterro, como Deus criou”
Imortalizado nos sambas de João Nogueira e Alcione, o Café Lamas, no Rio de Janeiro, ostenta o título de bar mais antigo do Brasil. Fundado em 1874, 23 anos antes da fundação de Belo Horizonte, o Café Lamas começava a cravar seu nome na história do nosso país. Funcionando 24h por dia no bairro do Flamengo, o bar servia de chá com torradas para Getúlio Vargas até intermináveis copos de cerveja para os boêmios da antiga capital.
É compreensível que Belo Horizonte não tenha negócios tão antigos quanto os do Rio de Janeiro, afinal são 126 anos de vida contra 459. Mas temos grandes negócios para nos orgulhar por aqui. Hoje vamos nos ater aos 5 mais antigos de que temos notícia. Bares longevos e que tem conquistado o público jovem, dando sinais de que ainda tem muito mais décadas de lenha para queimar.
As clássicas mercearias
Dois dos bares mais antigos são baluartes da simplicidade belo-horizontina. O inconformismo do mineiro em aceitar que em uma mercearia nós compramos e vamos embora. Não há discussão: Se vende comida e bebida, tem que poder consumir no local. São eles: Bar do Orlando, 105 anos, e Mercearia Lili, 75.
O celebrado e democrático Bar do Orlando é considerado o bar mais antigo de Belo Horizonte. Porém existe uma ressalva: O ponto, de fato, abriga um bar desde 1919. No entanto, o bar era outro: Inaugurado como “Bar dos Pescadores”, o estabelecimento vendia anzol e fritava os pescados advindos do rio Arrudas. Foi virando a cervejinha de lei do intenso movimento causado principalmente pela linha férrea. Em 1980 foi vendido para Orlando Siqueira, e desde então passou a se chamar Bar do Orlando. Hoje atende de forasteiros a moradores. De cachaceiros a torcedores. De jovens a senhores.
Confira um pouco mais sobre a história do Bar do Orlando aqui.
A Mercearia Lili, primeiro CNPJ do bairro Santo Antônio, ainda funciona como mercearia. Entre pães e sabonetes, abre todos os dias às 6h da manhã, de segunda a sábado: Não sei o quanto a lida da mercearia incrementa o faturamento, mas que contribui para a história, não há dúvidas. O motivo da longevidade mesmo é sua vocação para a boemia. Bicampeões do Comida di Buteco, a Mercearia tem clientela fiel e é o bar mais tradicional de uma região que cresceu bastante em relevância na cidade, mas que quando eles chegaram por ali, literalmente era tudo mato.
Os criadores do PF mais famoso da cidade
Sem identidade de mercearia, mas totalmente identificados com a cultura belo-horizontina, o Café Palhares já tem 86 anos e está na sua terceira geração. Um excelente exemplo de comércio que consegue manter suas raízes e também inovar: Lá você come o inconfundível e tradicionalíssimo KAOL, PF mais famoso da cidade, e as novas criações, responsáveis pelos primeiros lugares no Comida di Buteco nos anos 2021 e 2022. O festival inclusive ajudou o bar a se popularizar entre uma geração que já não viveu o Centro de BH em seus tempos áureos. Embora movimentos consistentes de ocupação estejam começando a reverter isso, é sabido que o Centro não tem lá o mesmo glamour que tinha em 1938. Para muitos jovens hoje, o Café Palhares é porta de entrada à boemia centrista. Disputam o balcão com antigos clientes, tentando absorver, como que por osmose, a magia do local.

Influências internacionais
Já o segundo bar mais antigo de Belo Horizonte, que pode ser considerado o mais antigo a não mudar de nome, trouxe propostas mais modernistas desde a fundação. Dizem as boas línguas que as primeiras porções de embutidos vendidas em bares por aqui, começaram lá. O Tip Top nasceu em 1929 pelas mãos de uma imigrante da Tchecoslováquia. Nesses 95 anos, só teve mulheres à frente da gestão. A proposta sempre foi trabalhar a culinária alemã com influências mineiras, identidade que o bar mantém até hoje. Os petiscos clássicos são mantidos e a mostarda é de bater palmas. Em 2024 se mudaram para a Savassi, terceiro endereço da vida do “Tudo bem” (tradução da gíria alemã Tip Top, razão do nome do bar).

Lar mais icônico de um esporte centenário
Por fim, o quinto bar dessa lista traz consigo a curiosa história de um esporte conhecido. Isso porque a sinuca foi mudando de percepção pela sociedade ao longo das décadas. Com 85 anos de vida, o antigo Bilhares Avenida já esteve no Edifício Acaiaca antes de mudar para o endereço definitivo, na Avenida Afonso Pena. Hoje a gestão fica por conta da neta do fundador. Quando o Brunswick ganhou vida, em 1939, salões de bilhar ainda eram tidos por muitos como ambientes perigosos, frequentado por malandros e apostadores. Eu mesmo cresci ouvindo dos meus avós que não deveria frequentar “tais lugares”. Na verdade ainda existe certar associação do esporte com coisa ruim. Só sei que o Brunswick é ambiente seguro e democrático. E me impressiona ver como um dos bares mais antigos de Belo Horizonte envelhece tão bem.
BH não preserva sua história
Entendo que como cidade criativa da gastronomia e “capital dos bares”, BH ainda tem um longo percurso na preservação da história de seu comércio. Considerando que no segmento, 30% das empresas fecham com menos de 5 anos de existência, bares centenários sempre serão raridade. Mas há que se incentivar, pois são peça fundamental para nossa história ser contada.
Do lado dos proprietários, fica a difícil função de evoluir sem perder a essência, cativar os membros mais novos da família na continuidade ao legado, se adaptar a mudanças demográficas e se adequar às normas governamentais, que não costumam visar a longevidade dos bares e preservação da nossa história.
Ficou curioso para saber quais os bares mais antigos do Brasil? Confira essa lista aqui.
















