Após o incêndio que atingiu a fábrica da Suggar, no bairro Pilar, na região do Barreiro, em Belo Horizonte, no último dia 06 de agosto, Elisangela Silva Braz, de 47 anos, já passou por quatro casas provisórias desde que precisou deixar o imóvel onde vivia. Atualmente, ela está afastada da família em um apartamento no bairro Santo Antônio, alugado pela empresa.
A sequência de mudanças tem sido acompanhada por dificuldades para encontrar uma moradia que atenda às necessidades da família. As duas irmãs estão em outra casa também disponibilizada pela Suggar, enquanto a mãe, que tem Alzheimer e precisa de uma dieta específica, está na casa do irmão, que mora próximo ao local do incêndio. Elisangela passou pela casa do irmão, pela residência de uma das irmãs e por um imóvel no Marajó, onde ficaram temporariamente várias famílias atingidas pelo incêndio.
Na última mudança, ela permaneceu no local por mais tempo porque não tinha para onde levar as duas cachorras. Hoje, no apartamento do Santo Antônio, também enfrenta falta de espaço para os animais. “Estou com muitas dificuldades, não é o lugar ideal para manter elas”, conta.
Quando chegou ao apartamento atual, Elisangela esperava ficar ali por apenas dois dias. O imóvel, segundo ela, estava mobiliado, mas não tinha itens básicos, como comida ou itens de limpeza, apesar de relatar ter perguntado antes se teria que levar algo. “Não tinha nada, não tinha nem um pano para passar no chão.”
A família chegou a escolher outra casa e começou a planejar as adaptações necessárias para receber a mãe, mas, ao procurar a imobiliária, foi informada de que havia um problema que precisaria ser resolvido pela Suggar. Desde então, ela afirma que não recebeu outra opção nem o corretor que teria sido prometido pela empresa.
“Estou na quarta casa provisória e ainda não foi definido onde vou morar. Disseram que iriam disponibilizar um corretor e ainda não disponibilizaram”, afirma. Para ela, a falta de uma definição prolonga um desgaste que começou ainda no dia do incêndio e impede que a família retome minimamente a rotina.
Incerteza aumenta desgaste da família
A comunicação com a empresa também se tornou uma fonte de preocupação. Elisangela conta que, inicialmente, as tratativas eram feitas com o setor de Recursos Humanos e fluíam melhor. Depois, passaram a ser conduzidas por um advogado, que teria sido hospitalizado. Ela diz que outras pessoas assumiriam o contato com as famílias, mas que está sem retorno desde terça-feira (18). Em uma tentativa de conseguir informações, chegou a ir pessoalmente à Suggar e esperou cerca de 20 minutos para ser atendida.
Enquanto tenta resolver a questão da moradia, Elisangela também convive com os danos provocados pelo incêndio na antiga casa. Roupas, tênis, plantas, ferramentas e vidros foram perdidos ou danificados, além de problemas no telhado e em outras partes do imóvel. Ela afirma que foi informada de que a casa será reformada, mas ainda não sabe quando o trabalho começará ou quando poderá voltar.
A situação, segundo ela, também tem deixado marcas emocionais. “Além de todas as lembranças do incêndio, a gente escuta os estralos, sirene de bombeiro, ainda estou afastada da minha família”, relata. Em outro momento, resume o sentimento diante da falta de definição: “Além do trauma do incêndio, carregando minha mãe no colo, ainda lidamos com um futuro incerto. Nem uma casa de aluguel para poder falar que é meu endereço eu tenho”.
Elisangela também reclama da falta de acompanhamento do poder público. Segundo ela, apenas a Defesa Civil esteve no local e a família não recebeu atendimento de assistentes sociais. “A gente está se sentindo muito sozinhos. Nenhum órgão, nem associação de bairro tentou conversar com a gente. Estamos correndo atrás por nós mesmos, mesmo com o psicológico abafado”, afirma.
Além da moradia, ela diz que os moradores convivem com dúvidas sobre a segurança da região e os próximos passos em relação à estrutura da fábrica. A possibilidade de demolição também gera apreensão entre as famílias que permanecem no entorno. “A gente não tem prazos, quando e como vai ser a demolição, quando vão ceder as casas de aluguel. São dias que a gente não dorme, não descansa”, conta.
Em nota, a Defesa Civil informou que mantém o isolamento preventivo de quatro imóveis no entorno da fábrica. Três deles, na rua Professor Otílio Macedo, permanecem interditados devido ao risco de queda ou colapso de estruturas dos galpões atingidos. Já o imóvel da rua Jerônimo Marcucci tem apenas a área externa isolada, por causa do risco de queda ou projeção de materiais.
Em vistoria complementar, o órgão identificou diferentes níveis de comprometimento estrutural nos três galpões atingidos pelo incêndio, incluindo risco de desabamento de telhados e paredes. Por isso, ainda não há prazo para a liberação dos imóveis. A Defesa Civil informou que os moradores deixaram as casas preventivamente e, inicialmente, foram acolhidos por familiares. O retorno só será autorizado após a eliminação ou redução dos riscos e uma nova avaliação técnica.
O BHAZ também procurou a Suggar e a para saber sobre o andamento das tratativas com as famílias, os prazos para definição das moradias e as condições de segurança e reforma dos imóveis atingidos, e ainda aguarda a resposta.
Incêndio
O incêndio destruiu um galpão da fábrica da Suggar na madrugada de 7 de agosto. Segundo o Corpo de Bombeiros, o fogo provocou o colapso total do telhado e de outras estruturas da edificação. A Defesa Civil isolou quatro imóveis no entorno devido ao risco de serem atingidos em caso de colapso da estrutura.
Inicialmente, os moradores foram para casas de familiares. Depois, conforme informado pela Defesa Civil, a responsabilidade pela realocação passou para a Suggar. A empresa afirmou que está prestando suporte aos moradores afetados e acompanha a situação. A vistoria completa do galpão ainda depende de condições que permitam o acesso seguro ao local.








