No alto da Avenida Bias Fortes, há um quarteirão quase inteiramente ocupado por antigos casarões, que constituem importantes testemunhos da nossa história arquitetônica. Trata-se do trecho compreendido entre as ruas Espírito Santo e Alvarenga Peixoto, no qual quatro dos seis imóveis existentes são tombados como patrimônio cultural do município, revelando aos transeuntes a riqueza do ecletismo e do modernismo na cidade. Então, façamos um passeio por esse charmoso trecho da Bias Fortes.
O percurso começa pelo casarão que pertenceu a Gudesteu Sá Pires, construído na esquina com a Rua Alvarenga Peixoto, onde hoje funciona o Bar Seu Bias. O imóvel foi projetado em 1925 pelo arquiteto João de Almeida Ferber e segue o estilo eclético tardio, com influência normanda.

O chamado estilo normando inspira-se na arquitetura medieval da região da Normandia, na França. Entre suas principais características estão o enxaimel — estrutura de madeira aparente típica de construções medievais — e os telhados bastante inclinados, cobertos com as tradicionais telhas francesas. Neste casarão, o enxaimel é representado por relevos na fachada que imitam os engradamentos de madeira.
Gudesteu de Sá Pires foi um proeminente jurista, professor e político, tendo atuado como secretário de Estado das Finanças de Minas Gerais entre 1926 e 1930. Já o arquiteto João de Almeida Ferber nasceu em 1898, em São João del-Rei, e trabalhou na capital mineira durante as décadas de 1920 e 1930, período em que desenvolveu mais de 60 projetos arquitetônicos, sobretudo residenciais. Entre suas obras, destaca-se a Igreja de Santa Tereza, de linguagem neocolonial. Ferber também atuou como fotógrafo, pintor e professor da Escola de Belas Artes de Belo Horizonte.

Descendo a avenida até o número 197, encontramos uma das residências mais exuberantes das primeiras décadas de Belo Horizonte: o Palacete Falci, projetado em 1929 pelo arquiteto Luiz Signorelli para abrigar a família do empresário italiano Antônio Falci. O imóvel foi concebido em estilo eclético de influência neoclássica, com requintada ornamentação, mas de composição sóbria.
Antônio Falci foi um dos primeiros presidentes do então Palestra Itália, atual Cruzeiro Esporte Clube, e sua família ainda reside no local. Já o arquiteto Luiz Signorelli, ítalo-descendente, foi um dos mais renomados profissionais a atuar em Belo Horizonte na primeira metade do século XX.

Exatamente ao lado do Palacete Falci, no número 225 da avenida, encontra-se a casa em estilo modernista projetada em 1950 pelos arquitetos Walter Machado, Jeferson Lodi e Suzy de Mello para a enfermeira Gilda Falci, filha de Antônio Falci, e seu marido, o médico Milton Mourão. O imóvel foi restaurado com projeto da Mobio Arquitetura, dirigida pelo arquiteto Gabriel Castro, e hoje abriga seu escritório e o Ateliê de Cerâmica.
Um dos destaques da construção é a grande cobertura ondulada do alpendre, que confere movimento e leveza à fachada. Essa plasticidade é reforçada pelo coroamento, que também apresenta formas curvilíneas. Já o revestimento da fachada com pastilhas cerâmicas brancas e azuis constitui outro testemunho da época, sendo um dos elementos característicos das casas modernistas da década de 1950.
Entre os arquitetos responsáveis pelo projeto da casa, destaca-se a professora Suzy de Mello, que, além de atuar na área de projeto, foi pesquisadora e uma das grandes defensoras do patrimônio edificado de Belo Horizonte e de Minas Gerais. Nascida em Ibiá (MG), Suzy formou-se na Escola de Arquitetura da UFMG em 1956, instituição na qual também foi professora e diretora.

Por fim, na esquina da avenida com a Rua Espírito Santo, no número 247, encontra-se o imponente casarão que pertenceu a Cezar Gonçalves de Souza e que hoje abriga a Clínica Odontológica Bias Fortes. O imóvel foi projetado em 1944 pelo arquiteto Luiz Pinto Coelho, em estilo eclético tardio, com influências neocoloniais e californianas.
A influência neocolonial manifesta-se no telhado de capa e bica, nos grandes beirais com cachorrada (extremidades aparentes dos caibros) e no óculo (pequena abertura circular). Já a influência do estilo californiano, presente em mansões norte-americanas de inspiração hispânica, aparece nos alpendres com arcadas e na torre cilíndrica, que marca a volumetria do edifício.
Cezar Gonçalves de Souza teve importante atuação no setor têxtil mineiro, estando ligado à Companhia de Tecidos Santanense, à Companhia de Tecidos Pitanguiense e à Fiação Dom Bosco. Também figurou entre os fundadores do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais de Minas Gerais (IPES-MG), em 1962.
O arquiteto Luiz Pinto Coelho, formado em 1936 pela primeira turma da Escola de Arquitetura de Belo Horizonte, foi o autor de vários projetos icônicos na capital mineira, tais como o Edifício Acaiaca, o Brasil Palace Hotel e o Edifício Randrade.
















