TikTok
Youtube
X (Twitter)
Instagram
Facebook
Whatsapp
Logomarca BHAZ

Colunas

Rua dos Caetés, um repositório da nossa história arquitetônica

27/11/2025 às 17h59 - Atualizado em 28/11/2025 às 10h46
Edificações históricas da Rua dos Caetés, com o antigo Hotel Solar (1912) ao centro, projetado por Antônio da Costa Christino. (Crédito: Ivan Capdeville Júnior).

Caminhar pelos 1.100 metros da charmosa Rua dos Caetés, no Centro de Belo Horizonte, nos faz viajar no tempo por meio de suas antigas e majestosas construções. Essa memorável via é ladeada por obras concebidas por notáveis arquitetos, como Antônio da Costa Christino, Luiz Olivieri, Luís Signorelli e Romeo de Paoli, constituindo uma fonte de conhecimento histórico e fruição estética que emana de diversas épocas. Não por acaso, em 1994, o Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte criou o Conjunto Urbano da Rua dos Caetés e Adjacências, que engloba inúmeras edificações tradicionais, das quais 25 são tombadas.

A Rua dos Caetés é uma das treze ruas originais da capital mineira, cujos nomes homenageiam os povos indígenas brasileiros. Essa nomenclatura está registrada desde 1895 na planta da cidade, criada pelo engenheiro Aarão Reis — sendo todas elas paralelas, exceto a Rua dos Guaranis. Os Caetés foram uma etnia indígena que habitou parte do litoral nordestino do Brasil e o nome dessa população tem origem na palavra kaeté, que, na língua tupi, significa “mata fechada”.

Nos seus primórdios, a Rua dos Caetés se consolidou como a principal via econômica da cidade, abrigando, sobretudo, estabelecimentos ligados ao comércio e à hotelaria. Um dos motivos desse perfil de ocupação foi a sua disposição estratégica na malha urbana, que ligava a Estação Ferroviária, porta de entrada para a cidade, ao antigo Mercado Municipal, localizado onde hoje é a rodoviária. Além disso, por muitas décadas, os bondes elétricos trafegaram pela via.

A antiga Casa Magalhães & Cia, em 1912, na Rua dos Caetés com a Rua São Paulo, englobava dois sobrados comerciais em estilo eclético ainda existentes: o da direita (1896), criado pelo arquiteto Joseph Piffer; e o contíguo à esquerda (1897), projetado por Luiz Olivieri. (Crédito: Arquivo Público Mineiro).

O poeta Carlos Drummond de Andrade, ilustre morador da Rua dos Caetés no antigo Hotel Internacional, outrora situado na esquina da Rua da Bahia, exaltou a distinção e a vitalidade daquela via na crônica Kodack, publicada em abril de 1930 no jornal Minas Gerais:

Gosto da rua Caetés, a rua mais interessante da cidade. Rua de bigodes e gritos joviais, de pequeninos arranha-céus e de grandes laranjas amadurecendo em caixotes. Rua de sedas e vitrolas. Elegante. Popular. Nossa. E depois, é também a rua mais camarada de todas: sempre disposta a fazer uma diferença, para você ficar freguês…

Por outro lado, essa rua foi um reflexo da pluralidade social presente na formação e no desenvolvimento da cidade, nos quais a imigração desempenhou um papel fundamental. Além dos brasileiros, muitos imigrantes sírios, árabes e libaneses instalaram ali os seus negócios e pontuaram a via com um conjunto diversificado de esmerados edifícios que abriam suas portas para as sempre movimentadas calçadas, contribuindo para que a região logo passasse a ser reconhecida pela população como o Bairro do Comércio.

O milionário libanês Azis Abras é um bom exemplo da atuação dos imigrantes no local. Ele fez fortuna no setor comercial e hoteleiro da cidade, sendo responsável pela construção de notáveis edificações na Rua dos Caetés, que hoje integram o nosso patrimônio arquitetônico: o Edifício Aziz (1930), o Hotel Majestic (1936) e o imóvel comercial de três pavimentos (1940), n. 262, na esquina com a Rua Espírito Santo.

Edíficio Aziz Abras (1930), Rua dos Caetés, n. 360, projetado pelo arquiteto Luis Signorelli em estilo eclético com influência neoclássica, por encomenda de Aziz Abras. (Crédito: Guia do Bem).
Hotel Majestic (1936), R. dos Caetés, 284, projetado pelo arquiteto Romeo de Paoli em estilo Art Déco por encomenda de Aziz Abras. (Crédito: Ivan Capdeville Júnior).
Prédio comercial com três pavimentos (1940), R. dos Caetés, 262, projetado pelo arquiteto Caetano Defranco em estilo Art Déco por encomenda de Aziz Abras. (Crédito: Ivan Capdeville Júnior).

A comunidade italiana também marcou presença e fez história na Rua dos Caetés, n. 233, onde se instalou a Casa Ranieri, tradicional loja de calçados e materiais esportivos de Belo Horizonte. Foi neste imóvel que, em 1921, desportistas italianos se reuniram para criar o clube de futebol Sociedade Esportiva Palestra Itália, que, no início da década de 1940, viria a ser o Cruzeiro Esporte Clube.

Anúncio da Casa Ranieri no Almanak Laemmert de 1929, cujo endereço era Rua dos Caetés, 233. A loja oferecia calçados e produtos para a prática do futebol. (Crédito: Almanak Laemmert).

Imóvel em estilo eclético construído na Rua dos Caetés em 1920, cuja autoria é desconhecida. Abriga as lojas de n. 223, 229 e 237, sendo o provável local de funcionamento da antiga Casa Ranieri, na qual a Sociedade Esportiva Palestra Itália foi fundada em 1921. (Crédito: Ulisses Morato).

Se, por um lado, a rua sempre foi um local de afluxo das camadas populares em busca dos mais variados produtos, por outro, os seus estabelecimentos comerciais atraíam também a elite local. Conforme o Sr. Edmar Viana Salles — proprietário de um dos mais antigos estabelecimentos comerciais de BH, a Casa Salles —, em depoimento registrado no livro Belo Horizonte e o Comércio100 anos de História (1997):

A Caetés, na década de 40, era a rua ‘chic’, onde as madames iam comprar as fazendas para fazer os vestidos.

Contudo, nem só de comércio viveu a Caetés, ali também se instalou, em 1908, um dos primeiros espaços culturais da cidade, o Cine Teatro Comércio, que até a década de 1920 agitou a esquina com a Rua São Paulo. Naquela típica construção de arquitetura eclética, muitos filmes mudos, ao som de orquestra, peças teatrais e eventos sociais tiveram lugar.

Antigo Cine Teatro Comércio, inaugurado em 1908 e instalado em edificação térrea eclética na esquina da Rua dos Caetés com a Rua São Paulo, onde depois foi construído o atual Sesc JK. (Crédito: fotograma da Cinemateca Brasileira / Restaurado).

Embora tenha sido um importante local de encontro da cidade, o cinema foi demolido para dar lugar a um banco — afinal, onde corre o dinheiro, instalam-se as instituições financeiras. Assim, reforçando a potência econômica da rua, naquela esquina foi erguida em 1928 a belíssima sede do Banco Comércio e Indústria de Minas (atual Sesc JK), um dos mais suntuosos edifícios em estilo eclético da capital.

Sede do Banco Comércio e Indústria de Minas, na esquina das ruas Caetés e São Paulo, projetada em 1925 pelo arquiteto Ricardo Wriedt em estilo eclético e inaugurada em 1928. (Crédito: Ivan Capdeville Júnior).

Conheça outros imóveis de destaque na Rua dos Caetés

Imóvel comercial construído em 1927, Rua dos Caetés, n. 200. A edificação, tombada pelo patrimônio, foi projetada em estilo eclético pelo arquiteto português Antônio da Costa Christino, autor também do icônico “Castelinho”, na Av. Afonso Pena, ao lado da Igreja São José. (Foto: Guia do Bem).

Edifício de comércio e serviços, Rua dos Caetés, n. 386. Obra em estilo Art Déco, projetada em 1940 pelos arquitetos Caetano Defranco e Gilberto Andrade. A construção, tombada pelo patrimônio municipal, foi erguida com estrutura de concreto armado, técnica que possibilitou a verticalização da região central de Belo Horizonte a partir de meados da década de 1930. (Foto: Guia do Bem).

Edifício Gontijo (1948), Rua dos Caetés, n.º 455. Imóvel de uso comercial e de serviços, em estilo protomoderno, projetado para Cisalpyno Marques Gontijo pelo arquiteto Virgílio de Castro. O arquiteto diplomou-se na primeira turma da Escola de Arquitetura de BH (1936) e projetou importantes edifícios para a cidade, como a antiga Faculdade de Ciências Econômicas e o Colégio Padre Machado. Virgílio também foi professor da Escola de Arquitetura por 24 anos, entre 1949 e 1973. (Foto: Ivan Capdeville Júnior).

Edifício Elisa Levy (1958), Rua dos Caetés, esquina com Rua Rio de Janeiro. Projeto em estilo modernista do arquiteto Tarcísio Silva, formado na terceira turma da Escola de Arquitetura de BH (1938). Entre as décadas de 1940 e 1960, foi um dos profissionais mineiros que mais projetou edifícios altos em BH, tais como o Codó, o Guanabara, o Bocaiuva e o Residencial Automóvel Clube. (Foto: Ulisses Morato).

Editado por: Ulisses Morato

Ulisses Morato

Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.
Instagram

Ulisses Morato

Email: [email protected]

Ulisses Morato é doutor em arquitetura pela Universidade de Lisboa, especialista em construção civil pela UFMG e arquiteto pelo Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Atuou na diretoria do Instituto de Arquitetos do Brasil e no Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Belo Horizonte. É professor de pós-graduação na PUC Minas, editor da página Arquitetos de Belo Horizonte e gestor da Cultura Arquitetônica, dedicada a serviços e eventos na área do patrimônio edificado.

Instagram

Mais lidas do dia

Leia mais