Se ter bares for característica única necessária para classificar um bairro como boêmio, todos os bairros de BH seriam assim classificados. Essa semana me deparei com o anúncio de um imóvel no bairro Santo Antônio, e uma das características que a corretora atribuía à casa é que ela estava localizada em um bairro boêmio. Me fiz então a pergunta: O que é um bairro boêmio?
Para tentar definir, primeiro precisamos ter clareza quanto ao conceito de boemia. O termo tem origem entre os ciganos e no século XVII passou a ser associado a um estilo de vida. Bohéme, seria aquele que “leva uma vida desregrada”. De maneira mais suave, podemos dizer que são pessoas que não nutrem grandes preocupações quanto à bens materiais, normas e projetos de vida.
Em 1844, o autor Honoré de Balzac traz pela primeira vez o conceito de uma maneira mais romantizada, em sua novela “Um Príncipe da Boemia”. É como se ele enxergasse beleza no estilo de vida: A palavra Boémia diz tudo. Ela não tem nada e vive de tudo. A esperança é a sua religião, a fé em si mesma é o código, a caridade o seu orçamento. Todos esses jovens são maiores do que o seu infortúnio, abaixo da sorte, mas acima do destino.
Essa visão de Balzac é a base do conceito de boemia no contexto do samba e da malandragem. A ausência de preocupações, o pouco interesse no trabalho e o elevado nível de auto confiança definem o malandro. O malandro é, com orgulho, uma figura boêmia. E a boemia seria essa maneira de levar a vida de forma mais leve – Sempre acima de seu próprio destino, embora abaixo da sorte.
Naturalmente o boêmio não poderia viver em qualquer lugar. Ele não se encaixa em qualquer lugar. Localidades consideradas boêmias na história, se caracterizavam por ter vasta oferta de imóveis com aluguel barato e presença indubitável de uma vida noturna agitada. São características que vão de encontro a duas certezas do boêmio: Que será bem difícil pagar o aluguel em dia e também que precisará voltar a pé de madrugada, do bar para casa.
Bons exemplos dessas localidades boêmias na Europa, ao longo da história, seriam Dublin na Irlanda e Amsterdam na Holanda. No Brasil, sem sombra de dúvidas, a Lapa, no Rio de Janeiro. Mas e em Belo Horizonte?
Tendo aceitado que a boemia não combina com regiões opulentas, habitadas pelas altas classes sociais, cheias de regras e onde a vida noturna vai só até 22h da noite, responder a essa pergunta não é tarefa das mais fáceis. Muitos moradores de bairros boêmios estão bem determinados a tirar o boêmio e ficar só com o bairro. Mas como nossa cidade não nasceu ontem e tem uma história, vamos pontuar quais seriam teoricamente nossas zonas boêmias, mesmo que agora já não sejam tanto assim.
Santa Tereza
O primeiro pensamento de todos. Além de ser o berço do Clube da Esquina, abriga o bar mais antigo da cidade. O bairro tem muitos bares, alguns com bastante tradição. Tem também alguns movimentos essencialmente boêmios, como o Palco Aberto. Atualmente o bairro está no epicentro de discussões acerca da lei do silêncio e do código de posturas. Parte dos moradores quer que o bairro seja uma vizinhança tranquila. Outra parte, que o legado boêmio do bairro se perpetue.
Centro
Embora atualmente esteja bem mais deserto que outrora, o Centro de Belo Horizonte é bastante boêmio. Nele tem opções de moradia com preço em conta, locomoção simples a pé, uma maior oferta de bares que ficam abertos de madrugada. Isso tudo além de ser o coração do carnaval na cidade e também palco de outros movimentos culturais relevantes. A “ressignificação” dos entornos da Praça Raul Soares e da Praça da Estação, tem contribuído para trazer mais vida à região.
Lagoinha
Foi originalmente habitado por trabalhadores vindos do interior, que não tinham dinheiro para se instalar na região central da cidade. É o berço do samba em BH, de onde nasceu a primeira escola de samba da capital. Infelizmente o bairro hoje está largado pelo governo. Existem algumas iniciativas interessantes, como o Circuito Lagoinha, que visam resgatar memórias e difundir a importância da região para a história de BH.
No final das contas, não consigo concordar que o Santo Antônio seja um bairro boêmio. Não que eu não goste de lá, mas a apropriação indevida do título muito me incomoda. Ainda mais se considerarmos que, diante da definição do termo em si, provavelmente não veríamos moradores do bairro balançando bandeiras de ode à boemia. A forma mais correta de apresentar imóveis nessa região (e em tantas outras ditas boêmias por aí) seria simplesmente afirmar que “a área conta com boas opções de bares e restaurantes”.
Leia mais sobre as regiões boêmias de BH:
Os 4 irmãos que dominam a boemia no Santa Tereza











