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O que é um bairro boêmio?

O que é um bairro boêmio?

17/10/2024 às 11h00
Varanda do bar O Boêmio, no centro. Um dos bairros boêmios de BH.
Varanda do bar O Boêmio, no centro. Um dos bairros boêmios de BH.

Se ter bares for característica única necessária para classificar um bairro como boêmio, todos os bairros de BH seriam assim classificados. Essa semana me deparei com o anúncio de um imóvel no bairro Santo Antônio, e uma das características que a corretora atribuía à casa é que ela estava localizada em um bairro boêmio. Me fiz então a pergunta: O que é um bairro boêmio?

Para tentar definir, primeiro precisamos ter clareza quanto ao conceito de boemia. O termo tem origem entre os ciganos e no século XVII passou a ser associado a um estilo de vida. Bohéme, seria aquele que “leva uma vida desregrada”. De maneira mais suave, podemos dizer que são pessoas que não nutrem grandes preocupações quanto à bens materiais, normas e projetos de vida.

Em 1844, o autor Honoré de Balzac traz pela primeira vez o conceito de uma maneira mais romantizada, em sua novela “Um Príncipe da Boemia”. É como se ele enxergasse beleza no estilo de vida: A palavra Boémia diz tudo. Ela não tem nada e vive de tudo. A esperança é a sua religião, a fé em si mesma é o código, a caridade o seu orçamento. Todos esses jovens são maiores do que o seu infortúnio, abaixo da sorte, mas acima do destino.

Essa visão de Balzac é a base do conceito de boemia no contexto do samba e da malandragem. A ausência de preocupações, o pouco interesse no trabalho e o elevado nível de auto confiança definem o malandro. O malandro é, com orgulho, uma figura boêmia. E a boemia seria essa maneira de levar a vida de forma mais leve – Sempre acima de seu próprio destino, embora abaixo da sorte.

Naturalmente o boêmio não poderia viver em qualquer lugar. Ele não se encaixa em qualquer lugar. Localidades consideradas boêmias na história, se caracterizavam por ter vasta oferta de imóveis com aluguel barato e presença indubitável de uma vida noturna agitada. São características que vão de encontro a duas certezas do boêmio: Que será bem difícil pagar o aluguel em dia e também que precisará voltar a pé de madrugada, do bar para casa.

Bons exemplos dessas localidades boêmias na Europa, ao longo da história, seriam Dublin na Irlanda e Amsterdam na Holanda. No Brasil, sem sombra de dúvidas, a Lapa, no Rio de Janeiro. Mas e em Belo Horizonte?

Tendo aceitado que a boemia não combina com regiões opulentas, habitadas pelas altas classes sociais, cheias de regras e onde a vida noturna vai só até 22h da noite, responder a essa pergunta não é tarefa das mais fáceis. Muitos moradores de bairros boêmios estão bem determinados a tirar o boêmio e ficar só com o bairro. Mas como nossa cidade não nasceu ontem e tem uma história, vamos pontuar quais seriam teoricamente nossas zonas boêmias, mesmo que agora já não sejam tanto assim.

Santa Tereza

O primeiro pensamento de todos. Além de ser o berço do Clube da Esquina, abriga o bar mais antigo da cidade. O bairro tem muitos bares, alguns com bastante tradição. Tem também alguns movimentos essencialmente boêmios, como o Palco Aberto. Atualmente o bairro está no epicentro de discussões acerca da lei do silêncio e do código de posturas. Parte dos moradores quer que o bairro seja uma vizinhança tranquila. Outra parte, que o legado boêmio do bairro se perpetue.

Centro

Embora atualmente esteja bem mais deserto que outrora, o Centro de Belo Horizonte é bastante boêmio. Nele tem opções de moradia com preço em conta, locomoção simples a pé, uma maior oferta de bares que ficam abertos de madrugada. Isso tudo além de ser o coração do carnaval na cidade e também palco de outros movimentos culturais relevantes. A “ressignificação” dos entornos da Praça Raul Soares e da Praça da Estação, tem contribuído para trazer mais vida à região.

Lagoinha

Foi originalmente habitado por trabalhadores vindos do interior, que não tinham dinheiro para se instalar na região central da cidade. É o berço do samba em BH, de onde nasceu a primeira escola de samba da capital. Infelizmente o bairro hoje está largado pelo governo. Existem algumas iniciativas interessantes, como o Circuito Lagoinha, que visam resgatar memórias e difundir a importância da região para a história de BH.

No final das contas, não consigo concordar que o Santo Antônio seja um bairro boêmio. Não que eu não goste de lá, mas a apropriação indevida do título muito me incomoda. Ainda mais se considerarmos que, diante da definição do termo em si, provavelmente não veríamos moradores do bairro balançando bandeiras de ode à boemia. A forma mais correta de apresentar imóveis nessa região (e em tantas outras ditas boêmias por aí) seria simplesmente afirmar que “a área conta com boas opções de bares e restaurantes”.

Leia mais sobre as regiões boêmias de BH:

Os 4 irmãos que dominam a boemia no Santa Tereza

Aquilombar vai fechar no Lagoinha

Sobre “O Boêmio” e a alma de um bar

Editado por: Pedro Costa

Pedro Costa

Deixou a carreira de gerente comercial para se dedicar totalmente a sua paixão: O universo da gastronomia. À frente de bares e projetos do ramo, é belo-horizontino com o maior orgulho possível, cozinha por gosto e também por obrigação e não dispensa uma boa festa.
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Email: [email protected]

Deixou a carreira de gerente comercial para se dedicar totalmente a sua paixão: O universo da gastronomia. À frente de bares e projetos do ramo, é belo-horizontino com o maior orgulho possível, cozinha por gosto e também por obrigação e não dispensa uma boa festa.
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