O que é capaz de despertar a violência em um homem pacato? Em ‘O Motociclista no Globo da Morte’, dirigido por Rodrigo Portella e estrelado e produzido por Eduardo Moscovis, o espectador acompanha a história de Antônio, um matemático racional e, à primeira vista, pacífico. Frequentador assíduo do Bar do Zeca, ele segue religiosamente a rotina do almoço até que o comportamento de dois clientes desconhecidos desencadeia nele uma reação brutal. Ao rememorar os acontecimentos, Antônio, em um movimento confessional, dissolve os limites entre algoz e vítima, civilizado e selvagem. Catártico ou não, o espetáculo evoca questões inquietantes: haveria algo mais humano do que ser desumano? A violência é justificável quando praticada em nome de um bem maior? O público mineiro poderá se debruçar sobre essas e outras indagações, já que o espetáculo chega à capital mineira neste sábado (20) e domingo (21), no Teatro Feluma, com três apresentações.
Eduardo Moscovis contou, em entrevista ao BHAZ, que, ao ler o texto, escrito por Leonardo Netto, foi arrebatado de imediato. Amigo de longa data do dramaturgo, com quem trabalhou no projeto ‘Corte Seco’, em 2010, o artista afirmou que a peça traz reflexões urgentes e temas sobre os quais tinha vontade de falar há algum tempo. “A gente se afinou muito ali, quando fizemos o primeiro trabalho juntos. Ao escrever o texto do monólogo, ele me procurou e o apresentou para mim. E, quando eu li, fiquei muito impactado pela forma como o Léo fala sobre temas que envolvem o nosso convívio social, as violências, a falta de educação. Enfim, é tudo muito ao encontro do que penso”, disse.
O monólogo estreou em setembro do ano passado no Rio de Janeiro e já passou por capitais como São Paulo, Curitiba, Recife e Porto Alegre. Aclamada pela crítica e bem recebida pelo público, a montagem rendeu a Eduardo Moscovis, pela primeira vez, o prêmio de Melhor Atuação no Prêmio Shell – um dos mais importantes do teatro brasileiro – em março deste ano. Além disso, o espetáculo recebeu indicações ao Shell em Dramaturgia e Iluminação e ao APTR nas categorias Melhor Ator em Papel Protagonista e Dramaturgia.
Inédito em BH, o público poderá conferir duas apresentações no sábado (20), às 19h e às 21h, e domingo (21), às 19h. Os ingressos custam R$ 160 e podem ser adquiridos por meio do Sympla.
Gênese obscura da violência
A ideia de criar o espetáculo surgiu após o Léo assistir, por acaso, a um vídeo de uma situação de extrema violência em uma rede social. A partir disso, o dramaturgo passou a se questionar não apenas sobre as motivações que levam alguém a cometer um ato violento, mas também sobre a espetacularização, ao filmá-lo, publicá-lo e, ainda, obter likes com esse tipo de conteúdo. Outras indagações também passaram a inquietá-lo, como o fascínio e a idolatria por assassinos, psicopatas e serial killers ao longo da história, refletidos em filmes e séries inspirados em crimes reais.
Segundo Léo, escrever sobre o tema, de certa forma, o ajudou a exorcizar a situação perturbadora que o acompanhou após assistir ao vídeo. Enquanto criava o texto, imaginou Moscovis como protagonista e Rodrigo Portella, que naquele contexto havia há pouco dirigido ‘(Um) Ensaio Sobre a Cegueira’, montada pelo Grupo Galpão, como diretor. “Chamamos ele para vir até a minha casa. O Rodrigo estava muito atarefado e veio numa só de conhecer a gente e agradecer pelo convite. Porém, ele também foi capturado pela potência do texto. E disse assim: ‘Cara, ferrou, tô super atrasado no tempo. Mas gostei muito e quero fazer’”, afirmou Eduardo.
No monólogo, Antônio, um homem racional, sensato e que diz ter repulsa à violência, se vê diante de uma situação absurda durante um almoço no Bar do Zeca, estabelecimento simples, com poucas mesas distribuídas pelo pequeno salão e meia dúzia de funcionários. Ao testemunhar um abuso contra uma mulher e outros crimes cometidos por um sujeito arrogante e convicto de que está acima de qualquer limite, o matemático acaba perdendo o controle. O relato do personagem, minuciosamente construído e marcado pela riqueza de detalhes, coloca a plateia diante de dilemas morais, oscilando entre a lógica de que “os fins justificam os meios”, associada ao pensamento maquiaveliano, e a ideia de que “o criminoso, no momento em que pratica o seu crime, é sempre um doente”, de Fiódor Dostoiévski.
Para o ator, o ponto-chave é que o monólogo coloca em evidência uma situação na qual qualquer pessoa poderia estar envolvida.
“Se dizer equilibrado é algo em que a gente acredita, né? A gente supõe que dá conta. E acho que o Léo traz essa reflexão, sabe? Até onde aguentamos, suportamos e nos adaptamos? Até onde é normal e até onde não é? Quais são os limites da convivência?”, questiona.
Além de ser o segundo monólogo da carreira de Eduardo – o primeiro foi ‘O Livro’, de Newton Moreno, em 2011 –, ‘O Motociclista no Globo da Morte’ trouxe outros desafios, que não se restringem à ausência de interação com outros atores. Em cena, sob direção de Portella, ele permanece quase imóvel, contando apenas com uma poltrona e um copo d’água. Ou seja, toda a responsabilidade narrativa recai sobre o ator, que conta com elementos que complementam os acontecimentos microscopicamente descritos, como a iluminação de Ana Luza de Simoni e a trilha sonora de André Muato.
Segundo o artista, essa escolha – de mantê-lo sentado, concentrado naquela cadeira – faz com que o público fique atento ao relato, o que é reforçado pela construção cuidadosa das cenas que envolvem as características do bar, os funcionários, os demais personagens e as ações. “Ouço muito do público que eles ‘visualizaram’ o Zeca, a atendente e o próprio estabelecimento. Então, acho que a percepção do Rodrigo foi de que tínhamos um texto que não precisava dessa movimentação. E que, pelo contrário, a não utilização de recursos pirotécnicos, ou de qualquer outro recurso nesse sentido, está associada ao fato de que o ator sentado na cadeira dava conta. Além disso, recursos como a iluminação e o som me ajudam a criar o clima da história”, explicou.
‘Quero levar o espetáculo para o maior número de cidades’
Aos 57 anos e distante dos galãs de outrora, papéis aos quais muitas vezes foi associado, Eduardo, nos últimos anos, aposta e prefere lidar com temáticas que o atravessam; isto é, nas próprias palavras do ator, existe um posicionamento político por trás das escolhas que faz no teatro. “Normalmente, todo espetáculo é algo político. E, no caso de ‘O Motociclista’, o que é falado, contado, demonstrado e dito é uma situação de convívio e esgarçamento da qualidade dessa convivência. Então, o que apresento na peça são algumas questões: até onde vai o seu direito? Até onde você está ultrapassando os limites? Até onde você está convivendo com ‘figuras equilibradas’? Até onde as pessoas são, de fato, o que dizem e verbalizam? Onde existe essa contradição?”, reflete.
É justamente por meio dessas indagações que o ator deseja que a história vá além do sucesso de público e que o tema reverbere no maior número de pessoas possível – algo que, segundo ele, já vem acontecendo. Na primeira temporada, realizada em setembro do ano passado, o monólogo atraiu mais de 6 mil espectadores no Rio de Janeiro. O reconhecimento também chegou à crítica: a montagem foi indicada em três categorias do Prêmio Shell e concorreu a duas do APTR, que elegeu os vencedores nessa terça-feira (16).
“Quando você recebe uma premiação dessas, como o Shell, é mesmo uma confirmação, né? E estamos falando de um prêmio muito criterioso, com vários jurados, os mais transparentes e honestos possíveis. Isso em meio a tantos espetáculos bons acontecendo. Então, dá um olhar diferente para a peça. De fato, somos uma equipe formada por pessoas muito legais e, com as indicações, tudo ganha uma dimensão ainda maior para a trajetória do monólogo”, disse.
Para Eduardo, as premiações também ajudam o espetáculo a entrar no radar dos festivais e a receber convites para circular por diferentes espaços e alcançar novos públicos – tarefa que ele acompanha de perto, já que também assume a função de produtor. “Minha vontade é conseguir levar essa peça para o maior número possível de cidades e espectadores diferentes. Me interessa, por exemplo, fazer como tenho feito nos últimos tempos: apresentar em Recife no fim de semana e, no início da semana, já estar em Porto Alegre. Atravessei o país e estive diante de um público de 2 mil pessoas, completamente distintas culturalmente”, contou.
Encontro com os mineiros
A chegada a BH neste fim de semana corrobora esse desejo e vem cercada de expectativas, segundo o ator. A última vez que o artista se encontrou com o público mineiro foi em setembro de 2024, quando apresentou a peça ‘Duetos’, outro sucesso da carreira, ao lado da atriz Patrycia Travassos. “Quero muito que as pessoas vão e que a minha ida desperte o interesse delas. Afinal, existe todo o movimento de comprar o ingresso, se arrumar, se preparar para sair de casa no horário, se deslocar e disponibilizar tempo e emocional para me assistir. Isso é muito legal”, afirmou.


A valorização desse encontro presencial com a plateia explica, em parte, a relação de Eduardo com o teatro. Para o ator, a experiência teatral oferece um tipo de troca com o público difícil de ser reproduzida diante das câmeras. Enquanto mergulhava na densidade psicológica de Antônio, ele também vivia o empresário Rogério na novela Três Graças, da Rede Globo, e chegou a perder 15 kg para interpretar um ex-lutador na série Fúria, da Netflix, que estreia em julho. Em meio a essa transmutação entre papéis, o artista garante que, seja no audiovisual ou nos palcos, gosta de tudo.
“A gravação de uma série e de uma novela demanda um esforço físico e emocional de concentração diferente do que é o teatro. No teatro, passo um tempo estudando a peça, ensaiando e descobrindo. E, a partir do momento em que estreia, vamos evoluindo dentro daquilo e podemos perceber o que funciona ou não, descobrir entonações e compreensões diferentes. Já no audiovisual, você fica dez meses gravando e convive com aquele personagem quase todos os dias, mas em situações distintas, né? Só que você vai se apoderando dele de forma diferente e com outros atores. Então, é um universo de trabalhos bem diverso. E é ótimo que a gente tenha a chance de migrar e ter essa versatilidade”, relatou.
Questionado pelo BHAZ sobre os planos para o fim de semana em BH, Eduardo afirma, sem pestanejar, que pretende visitar Inhotim, em Brumadinho, um de seus lugares favoritos em Minas Gerais e que, segundo ele, sempre o emociona. O ator, inclusive, afirmou ter estado no museu pelo menos duas vezes no último ano, mesmo sem compromissos profissionais na capital mineira.
“Já fui muitas vezes e adoro. Sempre tento conciliar o trabalho com uma ida ao museu para revisitar as galerias fixas e conhecer as novas. Gosto também de observar que os fuscas ficam de lá para cá, sempre mudando de lugar”, disse.
A relação afetiva com o espaço é tamanha que o ator também sonha em levar seu trabalho aos jardins e galerias do museu. “Conseguir apresentar lá é um desejo antigo. Queria ter um fim de semana em que isso fosse possível. ‘O Motociclista’ mesmo é uma peça que seria viável. E existe toda uma estrutura, né? Lá costumam ocorrer festivais e intervenções artísticas. Seria realmente lindo se isso acontecesse”, finalizou.
Então, anota aí!
‘O Motociclista No Globo Da Morte’, com Eduardo Moscovis
Datas: 20 e 21 de junho de 2026
Horários: sábado, às 19h e às 21h | domingo, às 19h
Local: Teatro Feluma | Alameda Ezequiel Dias, 275, Centro – Belo Horizonte
Ingressos: R$ 160 | Sympla












