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‘A sala me fez sentir humanizada’: Jogadores Anônimos oferece acolhimento contra vício em apostas em BH

13/08/2026 às 18h19
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(Vinícius Sampaio/BHAZ)

“Deus, concedei-me a serenidade para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso e sabedoria para perceber a diferença”. É com essa oração que cerca de 50 pessoas, na maioria homens, de jovens a senhores, iniciam mais uma reunião dos Jogadores Anônimos na sede da Rede Abraço, no bairro Funcionários, na região Centro-Sul de BH. Nas paredes da sala, estão cartazes com mensagens de encorajamento: “Só por hoje evitarei a primeira aposta”.

Ali, as portas estão abertas para receber quem já perdeu tudo, desde patrimônio e casamento até caráter e dignidade. No entanto, antes de atravessar a porta do auditório pela primeira vez, quase todos enfrentaram a barreira da vergonha de admitir que “perdeu para o jogo”.

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Omissão do vício

De acordo com pesquisa feita pelo Núcleo de Estudos Econômicos e de Inteligência da Fecomércio MG, 81,8% dos belo-horizontinos entrevistados afirmam que nunca realizaram apostas em plataformas virtuais, com apenas 9,7% admitindo abertamente que apostam online. Em contrapartida, 58,9% dos moradores da capital disseram conhecer pessoas próximas que têm o hábito constante, o que indica que muitos escondem a prática.

Segundo Gabriela Martins, economista da Fecomércio MG, os dados são preocupantes. “Como que quase nove de cada dez pessoas afirmaram que não apostam, mas seis em cada dez conhece alguém que aposta? Então, já começamos a ver ali que tem uma movimentação diferente”, refletiu. Conforme a especialista, a negação do vício leva o apostador a acreditar que a aposta é uma forma “de ganhar dinheiro, como se fosse um investimento”. Em consequência, ela explicou que a pessoa acaba recorrendo a empréstimos formais e informais, como agiotas, afetando todo o ciclo familiar com endividamento.

A psicóloga Laura Lobo, conselheira do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG), advertiu que o autoestigma e a vergonha de pessoas próximas são os maiores obstáculos para a melhora. “Os pacientes, quando chegam ao consultório, já perderam uma quantidade alarmante, porque, infelizmente, ficaram com vergonha, ficaram com medo de serem expostos ou viram por esse lado de que era só uma brincadeira”, disse em entrevista ao BHAZ.

“A sala me fez sentir humanizada”

Durante a “palavra franca”, momento em que os participantes contam suas experiências, Carla Paixão* relatou que passou a “andar nas ruas com cabeça baixa” por vergonha dos possíveis julgamentos na vizinhança onde mora.

Dona de um empreendimento na Grande BH, ela conheceu os aplicativos de aposta há cerca de um ano e meio. Em apenas sete meses, Carla perdeu o negócio e quase todo o patrimônio, chegando a dever sete agiotas de uma vez. “Eu já tinha consumido tudo que eu tinha e pedi dinheiro emprestado para muita gente que eu nem imaginava”, contou.

Com dívidas na região onde morava, ela contou que a vergonha dos vizinhos se tornou um sentimento recorrente. Além disso, Carla disse que pessoas próximas teriam inventado que ela perderia a casa devido às apostas. “Eu estou com vergonha do que essa pessoa está falando de mim na rua”, relembrou.

De acordo com ela, os pensamentos sobre ser “defeituosa”, “inferior” e “deslocada” só começaram desaparecer depois que encontrou o grupo de apoio em BH. Carla relatou que a experiência na sala dos Jogadores Anônimos foi fundamental para a saúde mental dela. “O sentimento que eu não tenho aqui dentro da sala é o de vergonha, mas lá fora eu tenho. A sala me fez sentir humanizada”, destacou.

O trabalho dos Jogadores Anônimos em BH

O resgate de pessoas como Carla é fruto de um trabalho de acolhimento que já dura quase três décadas em BH. Fundado em 1996, o grupo Jogadores Anônimos (JA) funciona sob os pilares do anonimato absoluto e da autossustentabilidade. De acordo com o site oficial da irmandade, não há cobrança de taxas ou mensalidades para participar, o único requisito exigido é o desejo sincero de parar de jogar. O trabalho é mantido exclusivamente com doações voluntárias dos próprios membros.

O representante de Minas Gerais na irmandade é o vendedor Antônio Silva*, de 54 anos, que também é um jogador em recuperação, mas está livre das apostas há mais de 23 anos. Em entrevista ao BHAZ, ele contou que o vício começou com os bingos presenciais na capital. “Eu saía da minha loja no horário de almoço, a cartela custava R$ 1 e eu voltava com R$ 600, R$ 900. Quando comecei a gostar, eu já estava doente. Ia e não tinha hora para voltar”, relembrou.

Acolhimento inclui a família

O vendedor explicou que a sala dos Jogadores Anônimos funciona de forma autônoma e conta com seis servidores de confiança, entre eles secretário, tesoureiro e relações públicas. Além disso, Antônio destacou que o espaço em BH é único no país, uma vez que também engloba os familiares na dinâmica.

“Belo Horizonte tem a única sala presencial do Brasil com um auditório de dois andares. Nas terças-feiras, os familiares ficam no segundo andar recebendo acolhimento e orientações de como lidar com o adicto, e nós ficamos no auditório principal no andar de baixo”, explicou. Já nas quintas-feiras, as reuniões são exclusivas para quem precisa lidar com o vício.

Esse modelo de acolhimento junto às famílias é apontado por Laura Lobo como um fator importante para a recuperação. Conforme a psicóloga, o apoio de parentes, como a transferência da administração das finanças para uma pessoa de confiança, ajuda no controle da compulsão. “A rede de apoio é o que faz mais diferença na melhora do paciente… quando a pessoa é abraçada e entende que ela não é um fracasso, que aquilo é um transtorno, ela se sente mais confiante”, afirmou.

“Quando você não tem julgamento, você conta a verdade”

De acordo com Antônio, a chave para o sucesso das reuniões presenciais está ligado a um princípio simples, muito presente na literatura de apoio desenvolvida nos encontros: a ausência de julgamento. O vendedor explicou que, nas clássicas clínicas, os profissionais possuem o estudo técnico, mas não têm a vivência real.

“Aqui a vivência é quando a pessoa vive aquele drama… é muito diferente você conversar com uma pessoa que viveu o que você está passando do que com alguém que só conhece aquilo na teoria. Se o sujeito chegar e disser que roubou o pai ou a mãe, que traiu, que mentiu, ele desce aqueles degrauzinhos do palco e o povo ainda o aplaude. Porque quando você não tem julgamento, você conta a verdade”, disse.

Além disso, para desviar da solidão deixada pelo afastamento de pessoas próximas e evitar recaídas, os membros acabam socializando entre si, criam vínculos e desenvolvem amizades verdadeiras. Esse é o caso da ‘Turma do Fundão’, um grupo de amigos que apoiou o policial penal Carlos Silva* a superar o vício em bets após perder cerca de R$ 1 milhão do patrimônio. Em conversa com o BHAZ, ele contou que o grupo é um dos motivos que o impede de fazer a primeira aposta. “Se um de nós está sem dinheiro, o outro vai lá e paga um cachorro-quente na calçada, ou um pastel de feira. O que importa é estarmos juntos, distraindo a cabeça e mantendo a mente longe das telas”, comentou.

Reuniões

As reuniões dos Jogadores Anônimos ocorrem todas às terças e quintas-feiras, das 19h às 21h15, na sede da Rede Abraço. O espaço está localizado na avenida do Contorno, 4777, no bairro Funcionários, região Centro-Sul de BH. Mais informações estão disponíveis no site jogadoresanonimos.com.br.

Autoexlcusão

O Ministério da Fazenda disponibiliza a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, que permite ao cidadão bloquear o próprio acesso a todas as casas de apostas autorizadas a operar no Brasil. O acesso é feito por meio da conta Gov.br, nos níveis prata ou ouro. Ao entrar no sistema, o usuário deve aceitar os termos e escolher um dos motivos para a exclusão, que incluem desde decisão voluntária e dificuldades financeiras até perda de controle sobre o jogo (saúde mental) ou recomendação profissional.

Assim que a solicitação é registrada, o sistema comunica automaticamente todas as operadoras autorizadas pela SPA/MF. Segundo a pasta, a casa de apostas tem o dever de encerrar a conta do apostador em até três dias e deve permitir que ele retire seus recursos financeiros da plataforma em até dois dias. Além disso, o usuário fica protegido da publicidade direcionada, não podendo receber marketing ou ofertas das plataformas durante o período de exclusão.

* Nomes fictícios

Vinícius Sampaio

Jornalista pela Universidade Federal de Viçosa. Foi repórter da Fundação Rádio e Televisão Educativa e Cultural de Viçosa (Fratevi). Repórter no BHAZ desde novembro de 2024.
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