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‘Ninguém me vê, mas enxergam minhas pinturas’: Morador de rua artista troca quadros por comida em BH

24/04/2019 às 13h19 - Atualizado em 24/04/2019 às 23h07
Vitor Fernandes/BHAZ

Quem passa pela avenida do Contorno, próximo ao número 1480, no bairro Floresta, região Leste de BH, provavelmente já se deparou com os quadros de Gerson Flores, de 47 anos. O artista mora nas ruas da capital há 20 anos e troca seus quadros por alimentos.

Pintar foi o que decidi fazer para sobreviver. Ou era isso, ou roubar, mas meu pai não me ensinou assim. Troco [os quadros] por comida.

Gerson morava no bairro Cachoeirinha, região Noroeste de BH. Contudo, após a morte da mãe, em 1999, a situação se complicou. “Meus irmãos começaram a brigar pela casa, quebraram tudo, logo depois do enterro. Quando eu cheguei lá, só abaixei minha cabeça e vim para a rua. Nunca mais voltei”, desabafa.

Gerson e Pitoco vivem juntos em uma calçada da avenida do Contorno
(Vitor Fernandes/BHAZ)

Expulso da calçada com água suja

Há algum tempo, Gerson ficava do outro lado da avenida, em frente a um motel, mas foi expulso de lá. “A gerente do motel começou a me perseguir de uns anos para cá. Um dia ela estava lavando a calçada, era tipo 7 da manhã. Ao invés de me pedir licença, ela jogou um balde de água suja em mim”, lembra ele, chateado. Gerson mostra os pés, com ferimentos, de acordo com ele, por conta da água suja.

“Eu não desrespeito ninguém. Nunca xinguei ou agredi qualquer pessoa. As pessoas chamam a polícia para me tirar, mas eu nunca fiz nada. Tanto que os policiais perguntam aos porteiros, manobristas e eles falam a verdade, que eu sou uma pessoa da paz”, relata.

Pitoco é o nome do cachorro de Gerson. Muito educado, o animal obedece a todos os comandos do dono. “Achei ele na rua, tem seis meses. Dei mamadeira, comida, tudo o que ele precisa”, conta Gerson.

Os quadros de Gerson estão espalhados pela calçada (Vitor Fernandes/BHAZ)

Sonho e muito fé

O sonho dele é ter uma casa. “Quero ajudar todos os cachorros que puder, todos. Para evitar que as pessoas fiquem maltratando os animais, porque Deus não colocou isso na palavra”.

“Tenho fé demais da conta. Deus me deu uma missão, que foi de cuidar deles [cachorros]. Tudo que eu estou vivendo tem um motivo”, conta Gerson enquanto abraça o cachorrinho.

“Algumas pessoas param, porque dá para ver os quadros lá do começo [da esquina da avenida do Contorno]. Às vezes acho que ninguém me vê, mas as pessoas enxergam minhas pinturas”.

Loja de tinta ajuda o artista

Desde o começo do ano passado, as tintas para a confecção dos quadros são doadas pela loja RC Tintas, também na avenida do Contorno. “Ele [Gerson] veio aqui e nos pediu tintas para os quadros. Explicamos que poderíamos dar as latas com os resíduos de tinta. Como o material é muito concentrado, serve perfeitamente para o propósito dele”, explica Carla Amaral, vendedora da loja, que completou: “É um homem muito talentoso”.

Gerson passa o dia pintando quadros (Vitor Fernandes/BHAZ)

Vitor Fernandes

Sub-editor, no BHAZ desde fevereiro de 2017. Jornalista graduado pela PUC Minas, com experiência em redações de veículos de comunicação. Trabalhou na gestão de redes do interior da Rede Minas e na parte esportiva do Portal UOL. Com reportagens vencedoras nos prêmios CDL (2018, 2019, 2020 e 2022), Sindibel (2019), Sebrae (2021) e Claudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados (2021).
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Email: [email protected]

Sub-editor, no BHAZ desde fevereiro de 2017. Jornalista graduado pela PUC Minas, com experiência em redações de veículos de comunicação. Trabalhou na gestão de redes do interior da Rede Minas e na parte esportiva do Portal UOL. Com reportagens vencedoras nos prêmios CDL (2018, 2019, 2020 e 2022), Sindibel (2019), Sebrae (2021) e Claudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados (2021).
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