Uma mulher, de 37 anos, presa por se passar por uma adolescente de 12 anos, já foi acolhida por uma rede de assistência social em Belo Horizonte. Em conversa com o BHAZ, Delma Soares, diretora do Projeto Compaixão, contou que Amanda Maria Souza de Oliveira procurou a instituição em 2017, alegando ter 12 anos e ser vítima de uma rede de prostituição. O caso repercutiu após a prisão da suspeita, no distrito de Pirabeiraba, em Joinville (SC), nessa terça-feira (2). Ela é investigada por estelionato e falsa identidade.
Conforme a assistente social, de 38 anos, Amanda entrou em contato após assistir a uma palestra sobre o Projeto Compaixão, realizada em Contagem, na Grande BH. A instituição, que mantém uma casa de acolhimento no bairro Padre Eustáquio, na região Noroeste da capital mineira, atende mulheres em situação de vulnerabilidade, incluindo vítimas de violência doméstica, em situação de prostituição, com deficiência visual e egressas do sistema prisional.
“A palestra explicava o trabalho do projeto, o que fazemos e onde atuamos. Ao final, distribuímos cartões de visita com o meu contato para pessoas interessadas em atuar como voluntárias. Foi assim que ela pegou o meu telefone. Pelo que soubemos, ela já estava dormindo nessa igreja havia alguns dias”, disse.
Dalma contou que a mulher mandou uma mensagem via WhatsApp, usando uma foto da personagem Minnie e uma voz infantilizada. Como desconfiou que se tratava de uma menor de idade, a assistente social marcou uim encontro presencial, com apoio de uma delegada da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam).
“Chegou uma moça com uma aparência, de fato, de uma adolescente. Ela usava uma mochila, uma blusa da Minnie e um arquinho no cabelo. Durante o atendimento, apresentou-se como Ane Caroline e compartilhou que viveu em uma casa de prostituição. Ao atingir certa idade, seu corpo foi considerado inadequado para os abusos, e, por isso, passou a cuidar de crianças mais novas que também estavam envolvidas nesse contexto. Cansada dessa vida, decidiu fugir para BH”, relatou.
A diretora do Projeto Compaixão explicou que, como não pode manter menores de idade sem o acompanhante legal, Amanda foi encaminhada para abrigos da Prefeitura de BH (BH). Porém, ela sempre fugia e retornava à instituição de acolhimento.
“Foram três anos de acompanhamento, entre idas e vindas. Quando Amanda chegou, ela alegou ter 12 anos. Mas, pela aparência e pelo comportamento dela, acreditávamos que tivesse cerca de 14. Ela apresentava atitudes típicas de uma adolescente, sentia muita falta de amor e carinho. Ficava deitada o tempo todo com os ursinhos de pelúcia e tinha muito ciúme das assistentes em relação as outras crianças. Havia um receio constante de que fôssemos abandoná-la”, afirmou.
‘História chocante’
No período em que esteve na instituição, a suposta adolescente contou “histórias chocantes” que surpreendiam a equipe. Em determinado momento, Amanda precisou de atendimento médico devido à inflamação em ferimentos que apresentava pelo corpo. “Ela não queria ir até a rede de saúde ou para a escola, pois argumentava que tinha medo do Conselho Tutelar devolvê-la e voltar para o esquema de prostituição. Quando as feridas inflamaram, tivemos que levá-la ao hospital. Lá, os médicos e estudantes ficaram impressionados, porque encontraram mais de 200 agulhas no corpo dela. Eram agulhas inteiras”, relatou.
Embora algumas versões da história apresentassem inconsistências, Delma explica que o papel da instituição era acolhê-la. “Nós recebemos mulheres em todos os contextos, independentemente de serem vítimas de violência doméstica, egressas do sistema prisional ou estarem em situação de prostituição. O caso dela [Amanda] foi um dos mais alarmantes e, por isso, não iríamos deixar de atendê-la. Além disso, ela nunca nos deu trabalho nem roubou nada da instituição. Chegamos a organizar uma festa de 15 anos para ela, porque esse era um sonho que dizia ter. Nosso propósito é promover acolhimento e contribuir para a ressocialização das pessoas que atendemos”, disse.
Segundo a assistente social, a descoberta de que Amanda não era uma adolescente ocorreu após uma festa de Natal. Como a mulher seria a única a permanecer na instituição durante as festividades de fim de ano, Delma decidiu recebê-la na própria casa.
“Porém, minha cunhada me ligou informando que meu irmão, que mora em Vitória (ES), havia adoecido e estava em estado grave. Como ela era supostamente menor de idade, eu não poderia levá-la comigo e teria que devolvê-la ao abrigo. Quando comuniquei isso à Amanda, ela tirou a máscara de adolescente e se comportou como uma mulher adulta. Chegou a quebrar objetos da minha casa e tentou me agredir. Foi aí que comecei a desconfiar”, completou.
Para esclarecer a situação, a diretora do Projeto Compaixão contou com a ajuda de um oficial de Justiça de Governador Valadares, no Vale do Rio Doce.”Ele conseguiu descobrir tudo, porque chegou um momento em que a rede passou a desconfiar de que eu estava ‘bitolada’ com essa história de ela ser adulta. Mas o oficial conseguiu localizar a documentação dela e descobrimos de onde ela era. Pouco tempo depois, ela desapareceu e não tivemos mais contato”, relatou.
Delma também ponderou sobre a repercussão do caso na internet, especialmente em relação às instituições que vêm sendo ridicularizadas por terem acreditado que Amanda era uma adolescente.
“É importante salientar que estamos falando de uma mulher que sofreu diversos abusos e, posteriormente, desenvolveu transtornos mentais gravíssimos, sem nunca ter recebido tratamento adequado. Imagine quantas pessoas passam por isso no Brasil e acabam em situação de rua porque a família não consegue lidar com um paciente de saúde mental. Ela deve responder pelos crimes que cometeu e já está, legitimamente, sob responsabilidade das forças de segurança para isso. Porém, trata-se de uma mulher que nunca foi cuidada”, finalizou.
Prisão
A Polícia Civil de Santa Catarina (PCSC) prendeu a suspeita em flagrante nessa terça-feira (2) pelos crimes de estelionato e falsa identidade. Ela usava o nome falso de ‘Gabriele’ e se passava por uma adolescente de 12 anos. A prisão foi efetuada na casa das vítimas, onde a investigada já morava há 14 meses.
Segundo a corporação, para sustentar o disfarce ao longo desse período e ganhar confiança da família, a mulher alegava falsamente ser portadora de autismo e de outras condições clínicas. Além disso, justificava a aparência física adulta, argumentando que foi forçada a usar hormônios durante a infância.
Para reforçar o papel de criança, a suspeita mantinha comportamentos infantilizados, usando rotineiramente chupetas, mamadeira e objetos lúdicos.
Também foram identificados que a mulher tinha ocorrências semelhantes em estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Góias.
Durante o interrogatório, ela confessou integralmente o crime. Após a prisão em flagrante e os procedimentos da polícia judiciária, Amanda foi encaminhada ao Presídio Regional de Joinville, onde permanece à disposição do Poder Judiciário.
Em nota, A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) informou que não há, no estado, investigação envolvendo a mulher.










