Entre brincadeiras de crianças, alunos fardados do Colégio Tiradentes e fiéis da Igreja Santa Tereza e Santa Teresinha, a Praça Duque de Caxias, na região Leste de Belo Horizonte, é mais do que um espaço de convivência dos moradores do bairro boêmio da capital. Com o passar dos anos, o local se consolidou como reduto da música mineira, tendo como epicentro o tradicional Bar do Bolão, situado numa das esquinas da praça. Além dos “inimigos do fim”, daqueles que buscam “remédio na vida noturna”, taxistas, médicos e advogados, o bar recebeu nomes icônicos da cena musical, como integrantes do Clube da Esquina, da banda Sepultura e do Skank.
Às vésperas da despedida do bar do famoso endereço que o abrigou por 55 dos seus 64 anos de história, Henrique Portugal, tecladista do Skank e frequentador assíduo do estabelecimento, relembra que muitas das principais decisões e comemorações do grupo aconteceram ali, entre as mesas de madeira, cerveja gelada e o famoso “Rochedão”, um prato feito com arroz, feijão, batata frita, ovo, bife e o famoso macarrão à bolonhesa, todos em grandes quantidades.
A notícia do fechamento pela sócia-proprietária Karla Rocha – que representa a terceira geração da família à frente do Bolão –, gerou surpresa e comoção entre os belo-horizontinos. Muitos correndo ao estabelecimento para uma última cerveja já saudosa. Segundo ela, o imóvel, tombado pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), passará por reformas a pedido do proprietário, e o novo endereço de funcionamento ainda não foi definido. Em comunicado publicado nas redes sociais, a administração afirmou que, apesar da mudança, o bar continuará preservando o “mesmo sabor, essência, alma, autenticidade e tradição que sempre fizeram do Bolão um símbolo da cidade”.
Henrique Portugal se disse também surpreso com o encerramento das atividades no endereço. Ao BHAZ, ele contou que, ao receber a notícia por meio de amigos, ligou para a família para descobrir se o “rumor” era verdade. “Foi aí que eles me disseram: ‘É isso mesmo, estamos saindo de lá e também fomos pegos de surpresa. Agora estamos vendo se conseguimos outro local para retomar o funcionamento’”, disse.
‘Saidera’
A relação entre o tecladista e o Bolão começou no fim da década de 1970, quando o local ainda se chamava “Rocha & Filhos”, e já dura mais de 45 anos. Henrique cresceu em uma casa na rua Tenente Vitorino, a poucos passos do Bolão, do outro lado da praça. O músico passou a frequentar o bar assim que começou a trabalhar, aos 14 anos, e, nos anos seguintes, a noite e os fins de semana terminavam sempre ali – especialmente depois dos jogos do Cruzeiro na Arena Independência, no bairro Horto. “A minha adolescência, o começo das minhas saídas à noite, foi no Bolão. Naquela época, não tinha telefone, rede social, nada disso. Então, quando a noite acabava, eu ia pra lá, porque sabia que iria encontrar algum conhecido, né?”, recorda.
Era no ‘Rei do Espaguete’, como o bar ficou conhecido, que Henrique também se encontrava com Samuel Rosa, Lelo Zaneti e Haroldo Ferretti, seus companheiros do Skank. Formada em 1991, a banda fez seus primeiros ensaios na casa do tecladista e, por isso, os músicos sempre se reuniam no Bolão – seja para tomar uma cerveja após um show, petiscar ou discutir os rumos do grupo. “Todas as decisões, comemorações, momentos importantes foram ali. Então, é um local que temos um carinho muito especial”, disse.
Não é à toa que nas paredes do restaurante estão pendurados os discos da banda: ouro por ‘Skank’ (1993) e platina por ‘Calango’ (1994), ‘Samba Poconé’ (1996) e ‘Siderado’ (1998). Henrique contou que a contribuição do grupo para a decoração deixou Zé Maria, o Bolão, mal-acostumado. “Quando a gente chegava, ele perguntava: ‘Já saiu? Já tem de novo? Cadê?’ Era muito legal”, afirmou. Com a mudança, os álbuns e homenagens estão sendo retirados do casarão. “Mas, eles (proprietários) já prometeram que, encontrando um novo endereço, farão um cantinho do Skank”, completou.


Além da homenagem, o Bolão batizou um dos pratos do cardápio com o nome da banda belo-horizontina. O prato Skank leva arroz, bife de filé acebolado, salada de alface, tomate e palmito. Segundo Henrique, a ideia partiu dele, já que o Rochedão – famoso por matar a fome dos boêmios na madrugada – é muito grande. “Eu já não estava aguentando mais comer o Rochedão e vivia dizendo: ‘Bicho, vamos fazer um prato diferente aqui’. Aí, criaram e batizaram de Skank”, explicou.
Reduto artístico
E não eram somente os companheiros do Skank que Henrique encontrava no balcão do Bolão. Ali perto, na rua Dores do Indaiá, número 267, moravam os irmãos Max e Iggor Cavalera, que formariam, na década de 1980, a banda de heavy metal Sepultura. Andreas Kisser, que substituiu Jairo Guedes, morava em São Paulo e se mudou para a casa dos irmãos, em BH, para facilitar os ensaios do grupo, que se consolidou como o precursor de uma vertente ainda mais pesada do metal, o black metal.
Outro vizinho era Paulo Xisto, também integrante da formação original do Sepultura, que vivia na rua Pouso Alegre. A aproximação com os meninos era inevitável – fosse pelos rolês de skate pelas ruas de Santa Tereza ou pelas rodadas de cerveja no Bolão –, o que acabou rendendo a participação do tecladista em discos do grupo. “Sempre via o Paulo lá. Ele mesmo virava muitas noites e ficava com o Bolão até tarde. O Zé Maria tomava conta de tudo no período noturno, fazia a gestão e chamava todo mundo pelo nome. Isso sempre foi muito carinhoso”, disse.
O carinho do Sepultura pelo Bolão ia muito além dos encontros regados a cerveja e comida de boteco após os ensaios e shows. A banda, além de pendurar um disco de platina nas paredes do bar, deixou também o astronauta do MTV Video Music Awards (VMA). A estatueta viralizou nas redes sociais em 2022, depois que um frequentador mais atento percebeu o troféu, um dos mais importantes da indústria fonográfica estadunidense, reluzindo entre as demais quinquilharias do local. Atualmente, o prêmio está na unidade da rua Mármore, a poucos metros da Praça Duque de Caxias, hoje gerenciada por Sílvio Júnior, irmão de Zé Maria.
A apenas dois quarteirões da antiga casa dos irmãos Cavalera, hoje substituída por um prédio, fica uma das esquinas mais emblemáticas da música brasileira: o encontro das ruas Paraisópolis e Divinópolis, marco do Clube da Esquina. Lô e Márcio Borges, Milton Nascimento, Fernando Brant e outros integrantes do movimento também viviam e circulavam pelas ruas de Santa Tereza. Henrique Portugal lembra que os irmãos Borges estavam entre os frequentadores de carteirinha do Bolão. “O Lô foi criado há um quarteirão da minha casa. Então, eu via ele passando e achava o máximo, tanto que regravei a música Trem Azul, que é dele e do Ronaldo Bastos”, contou.
Ao longo de seus 64 anos de história, a fama do “Rei do Espaguete” ultrapassou as montanhas da música mineira e ganhou coro em todo o país. Entre os artistas que já bateram ponto no Bolão estão Wando, Dudu Nobre, Neguinho da Beija-Flor, Jorge & Mateus, João Bosco, Leo Jaime, Sérgio Reis, João Gordo e Gabriel, O Pensador. As visitas ilustres foram registradas em um caderno cuidadosamente guardado pela família.
Entre as mensagens deixadas no caderno de visitas, Neguinho da Beija-Flor escreveu que o Bolão é “gente que a gente muito rápido aprende a gostar”. João Bosco parabenizou o bar e disse que o local é “o melhor restaurante do Brasil”. Já Dudu Nobre brincou: “Para os amigos do Bolão, ataquei um macarrão de primeira qualidade”. Wando afirmou que lá “tudo é feito com o carinho das mães que preparam para seus filhos famintos coisas gostosas de Minas Gerais, terra de gente simples e carinhosa”. (Veja abaixo alguns dos registros)








Reforma
Em entrevista ao BHAZ, Luiz Cláudio Rocha, também sócio-proprietário do bar, explicou que o prédio é tombado e, por isso, precisará passar por reparos para resolver pendências contratuais com a seguradora. Devido à complexidade, as obras devem demorar. “Já tínhamos recebido a notificação judicial, porém deixamos passar. Só que a última, do dia 6 de outubro, já constou a data do despejo e não tinha o que fazer, porque havia sido despachada pelo juiz. Tem toda a parte elétrica e demais mais delicadas que podem demandar tempo”, conta.
Cacau, como é conhecido entre os frequentadores do bar, diz também que, apesar de não ter endereço definido, a ideia é encontrar um imóvel no bairro boêmio. “A ideia é essa, né? Mas, nada que impeça de ir para algum outro bairro. Aqui, já temos a outra unidade do Bolão, além de outras espalhadas não por BH. Seja o que for, Santa Tereza, nesse imóvel antigo, é onde começou essa história. Para mim, que estou aqui desde os 12 anos, é complicado essa mudança porque é uma perda grande não só para nós, mas para clientes e amigos. A ficha não caiu ainda”, relatou.
Frequentadores do espaço aproveitaram essa última semana para se despedir. Henrique Portugal já garantiu a ‘saidera’ e foi até o local, na última terça-feira (21), com o amigo Marco Antônio, conhecido como Ratho, que trabalhou com o Skank durante muitos anos.“São ciclos, né? Eles começam e terminam. Mas, se a gente pensar que uma cidade de 127 anos teve um lugar que durou 64, é uma grande vitória. E não é no Centro, é em um bairro. Eu espero que esse legado continue e que eles consigam outro endereço para a gente voltar a se reunir no fim da noite. Afinal, o Bolão é uma assinatura histórica da cultura belo-horizontina, né?”, finalizou.


Fundado em 1961 pelo casal José da Rocha e Maria dos Passos Rocha, o Bolão inicialmente se chamava ‘Bar Rocha & Filhos’. Nos primeiros anos, o estabelecimento funcionou na rua Estrela do Sul, número 39, em Santa Tereza.
O bar ganhou o nome Bolão devido ao apelido de José Maria Rocha, um dos filhos do casal, responsável por criar o famoso macarrão, que seria capaz de prevenir qualquer ressaca. Após a morte do senhor Antônio, um dos fundadores, em 2013, a família separou internamente e se ramificou para outros locais. O restaurante tem unidades no Mineirão, Coração Eucarístico e União.











