Pai espanca filha de 9 anos por ela dizer que gosta de amiga

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Homem espancou filha ao descobrir que ela gostava de uma amiga (Reprodução/@igorretratista/Twitter)

Um homem de 50 anos espancou e humilhou a filha, de 9, após descobrir que a menina gostava de uma amiga. O caso revoltante de agressão motivada por homofobia aconteceu ontem (7), na Zona Oeste do Rio de Janeiro. O responsável por denunciar o crime é o irmão da vítima, Igor do Valle Pedra, que levou o caso à polícia – que se recusou a registrar ocorrência – e ao Conselho Tutelar. O vídeo do momento dos ataques viralizou nas redes e já possui mais de 1 milhão de visualizações, gerando repúdio ao pai da menina.

As imagens perturbadoras mostram o pai da criança com um cinto na mão, gritando com a filha enquanto ela está encurralada na parede. Igor tenta filmar mais o momento, mas é ameaçado pelo pai: “Se você filmar é pior”. O jovem implora ao pai: “Por favor, não bate nela”. Ainda com o cinto na mão, o pai se direciona à filha: “Vou dar mais duas!”. A menina chora e pede para que ele pare. A mãe aparece, manda Igor parar de filmar e fecha a porta.

Vida de agressões e abusos

São 27 segundos de vídeo mas, ao BHAZ, Igor conta que sua vida é recheada de agressões protagonizadas pelo pai. O jovem fotógrafo, que é gay, conta que a orientação sexual sempre foi um problema para o agressor. “Ele sempre me bateu. Não só eu, como a minha mãe e meu outro irmão. Ele sempre foi muito agressivo, homofóbico, explosivo. Eu não poderia permitir que ele fizesse com a minha irmã o que fez comigo a vida toda”.

Igor nunca teve coragem de denunciar os abusos do pai, só chegou a esse ponto após a agressão sofrida pela irmã. “Ele colocou minha irmã contra a parede, começou a gritar com ela e bater muito. Ela só conseguia chorar desesperada. Ele disse que tudo era culpa minha, que isso era um ‘efeito dominó’. Eu filmei uma parte porque precisava de provas. Nunca procurei ajuda por sofrer ameaças dele. Ele falava sempre que ia me matar, que ia fazer acontecer”, continua.

A irmã de Igor contou, por telefone, à cunhada dele que estava gostando de uma amiga. O irmão do fotógrafo ouviu a ligação e comentou com a mãe. “A ideia era que a minha mãe orientasse ela, explicasse que ainda era criança e não tinha idade para namorar, mas que estava tudo bem”, explica Igor. Mas não foi o que aconteceu. A mãe contou para o marido, que teve uma explosão de raiva em cima da criança.

Mãe conivente

De acordo com o jovem, a mãe é conivente com as agressões. Com a situação insustentável, ele saiu de casa ainda ontem. “Ela apoia meu pai em tudo. Na hora que ele estava batendo nela, mandou eu ir para a rua. Eu acabei saindo de casa, não dava para ficar mais lá. Minha mãe disse que vai por fogo em todas as minhas coisas, que não é mais para eu pisar lá. Saí com a roupa do corpo”.

Com o vídeo em mãos, Igor foi até a 34ª DP de Bangu. “Mostrei o vídeo e os policiais disseram que não era uma prova, falaram que não registrariam boletim de ocorrência”. Com isso, o jovem foi até o Conselho Tutelar, que recebeu a denúncia e chamou os pais de criança. A situação da menina ainda não ficou definida. Por enquanto, ela está na casa de uma das avós.

‘Ela só chorava’

A criança está assustada, sem entender a situação. “Ela só chorava o tempo todo. Eu conversei com ela, expliquei que ela não fez nada de errado. Disse também que ainda não era o momento dela pensar em namoros, que ela é criança, que precisa só estudar e brincar. Minha irmã é bem tranquila, não é uma criança agitada que brinca e corre para um lado para outro. Ela é da internet, gosta de gravar vídeos, muito inteligente”.

Fora de casa e com poucos recursos, Igor está escondido, por medo de ameaças, e iniciou uma vaquinha para tentar se sustentar por um tempo. Quem puder, pode ajudar através desse link.

O BHAZ entrou em contato com a Polícia Civil do Rio de Janeiro para entender o motivo do jovem não ter sido atendido. Além disso, o portal também entrou em contato com o Conselho Tutelar. Contudo, até o momento, não obtivemos resposta. Assim que os órgãos retornarem, esta matéria será atualizada.

Educar é preciso

Mario Solimene Filho é advogado civilista e do Direito de Família e LGBT. Ao BHAZ, ele explica que o primeiro fator é a agressão a criança. “O que a gente vê em primeiro plano é a questão da criança em relação a essa família. Tem uma questão de plano de fundo de direitos LGBT e educação. O primeiro plano é uma criança sendo agredida. É preciso ver se é uma questão comportamental do pai, algo contínuo. Primeiro devemos olhar a proteção ao interesse da criança”.

A estrutura preconceituosa da sociedade é determinante para a continuidade dessas agressões. “A questão do plano de fundo é a LGBT. É preciso conversar com os filhos, dentro da família, levantar esse tipo de situação e não se ter uma função de repressão. Isso também deveria ser discutido dentro do currículo escolar. A força política dominante que temos é de extrema-direita, que quer varrer tudo para debaixo do tapete. É preciso educação para acabar com essa que é uma questão cultural”.

O defensor relata que Igor seguiu os passos corretos após presenciar as agressões à irmã. “O Conselho Tutelar tem o poder de afastar a criança da convivência dos pais, então eles devem ser acionados. Em relação à polícia, o grande problema é que, se não houver risco de vida iminente, se não houver emergência, eles vão falar que não é com eles. Tudo isso tomou uma proporção grande depois que viralizou. Se a polícia tivesse previsto a viralização, com certeza já teriam agido”.

LGBTs desamparados

Pessoas LGBTs que sofrem esses tipos de violência dentro da família, infelizmente, na maioria das vezes, acabam desamparadas. “É uma questão delicada, pois quando você está no seio da família, ela é o apoio que te sustenta. Pessoas LGBTs têm um conflito dentro da própria família, sendo excluídas do núcleo”, explica Mario Solimene Filho.

“Algumas família chamam de ‘opção sexual’, mas é orientação, sempre bom lembrar. Ninguém opta por ter um problema, por sofrer. É uma orientação que a família não aceita. Diante disso, muitos são excluídos e acabam na rua. O que falta na sociedade são redes de apoio fora da família para que ajudem essas pessoas de fato”, continua.

Infelizmente, o especialista reforça que esse tipo de situação de exclusão é recorrente. “Tem tanta família que faz isso, que não há capacidade para abrigar todas essas pessoas. Elas têm que procurar serviços sociais, mas não encontram apoio lá. Elas têm que buscar apoio do Estado, que também não dá esse apoio. Se elas não tiverem condições de se sustentar, estão em uma situação de escolher ficar no risco dentro da família ou do risco de ficar fora, na rua”, completa.

Edição: Thiago Ricci
Vitor Fernandes
Vitor Fernandesvitor.fernandes@bhaz.com.br

Editor e repórter do BHAZ desde fevereiro de 2017. Jornalista graduado pela PUC Minas, com experiência em redações de veículos de comunicação. Trabalhou na gestão de redes do interior da Rede Minas e na parte esportiva do Portal UOL. Com reportagens vencedoras nos prêmios CDL (2018, 2019 e 2020), Sindibel (2019) e Sebrae (2021).

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