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Morta aos 33 anos: Caso Alice é retrato de Minas, 2º estado que mais mata pessoas trans no Brasil

15/11/2025 às 11h59
Alice Martins foi assassinada em BH (Reprodução/Redes Sociais)

O assassinato de Alice Martins Alves, mulher de 33 anos espancada por dois homens na Savassi, região Centro-Sul de BH, é o retrato da violência e de uma realidade predatória contra pessoas transsexuais no Brasil. Alice morreu no domingo (9), 17 dias após ter sido agredida, supostamente, por não pagar uma conta de R$ 22 na lanchonete Rei do Pastel. De maneira brutal, a jovem entra para a estatística que coloca o Brasil na liderança do ranking de países que mais mata pessoas trans no mundo, pelo 16º ano consecutivo. Em 2024, Minas Gerais foi o 2º estado com mais assassinatos dessa natureza no país, registrando 12 casos.

Os dados aparecem em levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra). Entre 2017 e 2024, Minas Gerais ocupou a 5ª posição entre estados que mais matam pessoas trans, com 92 crimes. Ainda segundo a instituição, a expectativa de vida de uma pessoa trans no país é de 35 anos— mesma idade registrada no censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nove anos atrás.

Para Vanessa Sander, pesquisadora do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (Crisp) da UFMG, a violência exacerbada contra esse grupo de pessoas é um “fenômeno complexo e multifatorial, que representa a aceitação social de um preconceito historicamente enraizado contra pessoas trans”.

De acordo com o estudo de 2023 da Just Like Us, organização de caridade do Reino Unido focada em jovens LGBTQIAPN+, 74% dos jovens adultos, entre 18 e 25 anos, que não apoiam quem não é cis gênero— termo usado para classificar quem se identifica com o gênero de nascimento— não conhecem uma pessoa trans na vida real. Tal desconhecimento sobre a existência desses indivíduos, pode ser, para a estudiosa mineira, um dos fatores que reforçam situações como a ocorrida com Alice.

“Toda a representação social que elas tinham dessas pessoas vem de representações midiáticas muito desumanizadoras. Ou, até mesmo, desse noticiário de porta de cadeia, muito pautado em estereótipos, e não nessa convivência que seria humanizadora”, afirma Sander.

Anualmente, a Antra publica um dossiê sobre os casos de assassinatos de pessoas transsexuais no país. O último levantamento, feito em 2024, aponta que a idade continua sendo um dos marcadores mais assustadores nas informações.

No último ano, no Brasil, foram registradas 122 mortes de transsexuais— 117 eram travestis e mulheres trans. Entre elas, jovens entre 15 e 29 anos têm sido os alvos mais recorrentes das dinâmicas de violência. Esses dados revelam que, como nos anos anteriores, a maioria das vítimas trans de assassinatos no país tinha idade inferior à expectativa de vida média dessa população. Alice morreu aos 33 anos, dois a menos do que a média apontada.

Ainda segundo os dados, 66% das vítimas tinham menos de 35 anos, tendo, em média, 32. A repetição do cenário, ao longo de décadas, aponta para a normalização da violência contra jovens. “A gente vê que o ambiente educativo e formal é muito violento com essas pessoas. A gente tem muitas histórias de bullying e de violência física”, afirma a pesquisadora da UFMG.

Em 2024, pelo menos 89% dos casos, os assassinatos demonstraram requintes de crueldade, como o espancamento da jovem mineira. Além disso, os crimes que resultam em morte ocorrem majoritariamente em locais públicos, principalmente, em via pública, em ruas desertas e à noite.

Quatro dias antes da morte de Alice, Belo Horizonte registrou outro caso de brutalidade. A ativista trans Christina Maciel Oliveira, de 45 anos, foi agredida e morta à luz do dia pelo ex-companheiro, Matheus Henrique Santos Rodrigues, de 24, na rua Padre Pedro Pinto, em Venda Nova, em BH. O crime teria sido motivado pelo término do relacionamento dos dois.

Segundo a pesquisa ‘Violência contra a População Trans e Travesti em Minas Gerais’, publicada pelo Núcleo de direitos humanos e cidadania LGBTQIA+ da UFMG (NUH/UFMG), em 2023, 90% desse grupo já sofreu e/ou presenciou violência LGBTfóbica.

A pesquisadora de segurança pública afirma: “Muita coisa tem que mudar. O relatório anual da Antra está sendo feito, justamente, porque o Estado falha em produzir esses dados. Além disso, acho que tem uma certa negligência em como são conduzidas as investigações sobre assassinatos de pessoas trans. Em geral, precisa de muita pressão pública para que tenha alguma diligência nessas investigações.”

Sander categoriza o caso de Alice como triste e, de forma dramática, emblemático no sentido de enxergar a aceitação social da violência contra pessoas trans. “Isso está em como ela foi tratada no serviço de saúde e nas marcas de brutalidade do próprio crime. É preciso ser feito um trabalho de construir socialmente que isso é inadmissível”, finaliza a estudiosa do Crisp.

O crime

O ataque contra Alice ocorreu na avenida Getúlio Vargas, na madrugada de 23 de outubro. Segundo a investigação, ela saiu do Rei do Pastel, na esquina com a Contorno, onde estava com amigos, quando foi abordada e espancada por dois funcionários da lanchonete, após, supostamente, não ter pago uma conta no valor de R$ 22.

Segundo a família, após a agressão, Alice foi atendida em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e, depois, foi para casa. O pai a encontrou no quarto já com várias lesões pelo corpo e sentindo muitas dores. Devido à gravidade do quadro, ela foi a um hospital particular. O espancamento causou fraturas nas costelas, perfuração intestinal e uma úlcera no estômago da vítima.

A vítima registrou um boletim de ocorrência, no dia 5 de novembro. Nele, informou que não conhecia os agressores. Alice morreu no último domingo (9), 17 dias após a sessão de espancamento.

“Nesse boletim de ocorrência, ela descreve os autores de certa maneira porque tem medo deles. Ela demorou a relatar para o pai que foi agredida porque ficou com vergonha. Ela sabia que foi agredida por ser uma mulher trans. Diante a vergonha e o medo de não ser acolhida pelas instituições, ela não descreve exatamente como são os funcionários. Também temos que lembrar que ela estava sob efeito de álcool e desmaiou rápido devido às agressões intensas. Chegou a quebrar as costelas dela”, comentou a delegada responsável pelo caso.

“Parece que ela estava pressentindo que algo ia acontecer. Tinha três meses que ela não estava saindo de casa. Eu falei para ela dar uma volta porque tinha muito tempo que ela estava em casa e acontece isso”, contou Edson Alves, pai de Alice, no velório da filha.

“Será que uma transsexual não tem direito a viver em paz? Agora eu perdi uma grande parceira e amiga. Uma companheira de filme e de tomar uma cervejinha em casa”, desabafou o pai.

Suspeitos estão em liberdade

Os suspeitos de agredir e matar Alice já foram identificados pela Polícia Civil de Minas Gerais e estão em liberdade. Alguns detalhes do caso foram divulgados nessa sexta-feira (14). A PC informou que não vai revelar se fez pedido de prisão dos suspeitos para não atrapalhar a investigação. Segundo o inquérito, por ora, não há suspeita de terceiros envolvidos no caso.

Segundo testemunhas, Alice foi perseguida pelos dois funcionários ao sair da lanchonete. Quando alcançada, ela teria sido intimidada a pagar a conta.

Os relatos apontam que a mulher chegou a dizer que havia quitado tudo, mas a fala foi feita diante de seu estado de embriaguez. Ela não estava completamente lúcida, conforme informações levantadas pelos investigadores.

Logo em seguida, teria sido agredida violentamente. A sessão de espancamento só terminou com a chegada de um motoboy, que, mesmo ameaçado pelos agressores, manteve-se no local e ajudou a socorrê-la. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi chamado por testemunhas.

Rei do Pastel se pronuncia

“Foi nessa esquina que a moça foi brutalmente espancada”, diz um comentário em uma postagem no perfil do Rei do Pastel no Instagram. Esta é uma das inúmeras manifestações de usuários da rede social que cobraram uma resposta do estabelecimento após dois funcionários da rede de lanchonetes serem suspeitos de espancar e matar Alice. Em resposta ao movimento online crescente de “Justiça Por Alice”, a empresa emitiu uma nota de esclarecimento sobre o caso.

A postagem no perfil da lanchonete afirma que a empresa se colocou à disposição das autoridades desde o início das investigações, “auxiliando com todos os dados que nos foram solicitados”, disse o texto.

“Várias versões estão sendo divulgadas na mídia e principalmente nas redes sociais, sem as devidas apurações e efetivas comprovações. Estamos aguardando e confiantes no trabalho sério e eficiente que vem sendo executado pela polícia, com a certeza da correta apuração dos fatos e a devida culpabilidade dos envolvidos”, afirmou a publicação.

Na nota, o Rei do Pastel declara que repudia manifestações de ódio. “Destacamos que não compactuamos, em hipótese alguma, com ações discriminatórias referente a identidade de gênero, orientação sexual, raça ou qualquer outra natureza”, acrescentou.

No entanto, o pronunciamento foi recebido por seguidores e clientes do Rei do Pastel de forma controversa. “Queremos RESPOSTAS. A versão envolvendo valores é real? Os funcionários investigados continuam trabalhando ou foram afastados? Esclareçam com argumentos de verdade em respeito a Alice e a todos nós clientes, por favor”, disse um comentário.

“E o fato de que vocês incentivam os funcionários a perseguirem eventuais não-pagantes da maneira que perseguiram Alice? Isso não é de hoje. Vocês não são polícia!!!!”, afirmou outro cliente.

Tol Ramos

Estudante de jornalismo pela Universidade Federal de Minas Gerais. Foi estagiária do caderno de cultura do Jornal Estado de Minas e do programa Agenda da Rede Minas. Repórter do BHAZ desde setembro de 2025.
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