Um paciente de 28 anos se tornou o primeiro atendido pela Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) a receber uma aplicação de polilaminina, substância experimental estudada como potencial tratamento para lesões na medula espinhal. O procedimento foi realizado na última terça-feira (23), no Complexo Hospitalar de Barbacena (CHB).
Geovani Campos Canton sofreu uma grave lesão medular após um acidente de moto na sexta-feira (19). Ele passou por cirurgia no domingo e, após avaliação médica, foi incluído no protocolo de uso compassivo da polilaminina, autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para pacientes com quadros graves e sem alternativas terapêuticas equivalentes.
A aplicação foi realizada por equipes do CHB em parceria com profissionais do Projeto Polilaminina, desenvolvido pelo Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Segundo o ortopedista e cirurgião de coluna Renato Guimarães, o procedimento representa um marco para a rede pública. “Hoje foi um dia histórico. Conseguimos propor a um paciente internado em um hospital 100% SUS a participação no protocolo de uso compassivo da polilaminina”, afirmou. Ainda de acordo com o médico, a proteína está sendo estudada por sua capacidade de estimular a regeneração nervosa e ampliar as possibilidades de recuperação neurológica e de qualidade de vida.
Apesar do potencial da substância, os especialistas ressaltam que os resultados ainda estão em avaliação científica. “Não existe garantia de reversão da lesão, mas buscamos ampliar as perspectivas de ganho neurológico e qualidade de vida”, explicou o neurocirurgião Bruno Cortes, integrante do projeto.
Após a aplicação, Geovani seguirá em tratamento com fisioterapia, considerada essencial para estimular a recuperação funcional. O paciente demonstrou confiança no tratamento. “Se Deus quiser, vai dar tudo certo. Tenho grande expectativa”, disse.
O deslocamento da equipe responsável pela aplicação contou com apoio aéreo do Batalhão de Operações Aéreas do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais, em parceria com a Secretaria de Estado de Saúde.
Entenda a poliaminina
A substância foi descoberta por acaso pela professora Tatiana Sampaio, quando ela tentava dissociar as partes que compõem a laminina, uma proteína presente em várias partes do nosso corpo.
Ao testar um solvente, ela viu que, ao invés de se partir, as moléculas de laminina começaram a se juntar umas com as outras, formando uma rede, a polilaminina. Essa junção ocorre no organismo humano, mas nunca tinha sido reproduzida em laboratório.
A partir daí, Tatiana passou a pesquisar possíveis usos para a rede de lamininas e descobriu que, no sistema nervoso, essas proteínas atuam como base para a movimentação dos axônios, partes dos neurônios parecidas com caudas, responsáveis pela transmissão de sinais elétricos e químicos.
Quando ocorre uma fratura na medula, os axônios são rompidos, o que interrompe a comunicação entre o cérebro e o restante do corpo, a partir do ponto em que foi o ferimento. Essa ruptura é a causa da paralisia.
Normalmente, as células do sistema nervoso não são capazes de se regenerar sozinhas. O que se pretende testar, portanto, é a capacidade da polilaminina de oferecer uma nova base para que os axônios do paciente voltem a crescer e se comunicar, restabelecendo a conexão que transmite os comandos do cérebro.









