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Sentença histórica: dona da Samarco, BHP é condenada em Londres por tragédia de Mariana

14/11/2025 às 09h04 - Atualizado em 14/11/2025 às 12h45
Rompimento de barragem de Mariana devastou a região (Antonio Cruz/Agência Brasil)

A Justiça da Inglaterra decidiu, nesta sexta-feira (14), que a mineradora BHP é culpada pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, ocorrido em 2015. A sentença histórica afirma que a empresa, uma das controladoras da Samarco, tinha conhecimento dos riscos de ruptura muito antes do colapso e foi negligente ao não adotar as medidas necessárias para evitar a maior tragédia socioambiental do Brasil.

Esta é a primeira vez que uma das corporações envolvidas no desastre é formalmente responsabilizada pela Justiça. A ação foi movida por cerca de 600 mil atingidos, entre povos tradicionais e instituições. A escolha por Londres aconteceu na tentativa de uma condenação mais célere e já que a BHP tem sede no país.

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Com a culpa estabelecida, a ação agora avança para a fase de avaliação dos danos, que definirá os valores das indenizações. O julgamento desta nova etapa está previsto para outubro de 2026.

A BHP é dona de 50% das ações da mineradora Samarco, proprietária da então barragem de Fundão, que rompeu em novembro de 2015. O restante da companhia pertence à Vale. Em 2024, Vale e BHP fecharam um acordo definindo que ambas vão compartilhar as responsabilidades caso a BHP seja condenada na ação de Londres e caso a Vale seja condenada em outro processo que corre na Holanda.

A BHP informou que vai recorrer da decisão.

Decisão

A decisão da juíza Finola O’Farrell foi baseada na legislação ambiental e no Código Civil brasileiros. Ela rejeitou as tentativas da BHP de limitar sua responsabilidade e estabeleceu pontos cruciais para o andamento do processo.

  • Responsabilidade como poluidora: A juíza considerou a BHP responsável como “poluidora indireta”, concluindo que a lei brasileira abrange qualquer empresa que controle, financie, participe ou lucre com a atividade poluidora, ou que crie o risco que ela representa.
  • Negligência e imprudência: O tribunal concluiu que o colapso da barragem foi causado por “negligência, imprudência e/ou imperícia da BHP”. A sentença aponta “provas esmagadoras” de que a empresa sabia da instabilidade da barragem desde, pelo menos, 2014, mas continuou a operar e elevar a estrutura.
  • Controle sobre a Samarco: A decisão refuta a alegação da BHP de que não tinha controle direto sobre a Samarco. As provas mostraram que a BHP, junto com a Vale, era a “mente diretiva” da Samarco, participando desde as decisões estratégicas até a gestão de riscos da barragem.
  • Prazo para novas ações: A Justiça rejeitou a tese de prescrição e decidiu que as vítimas podem apresentar ações até, no mínimo, setembro de 2029.
  • Legitimidade dos municípios: A sentença também confirmou que os 31 municípios brasileiros que fazem parte do processo têm o direito de prosseguir com suas ações na Inglaterra.

Após a decisão, a ação segue para a etapa de avaliação e quantificação dos danos, que será julgada em outubro de 2026. Os advogados das vítimas pedem indenizações que somam quase R$ 230 bilhões. Uma audiência de gerenciamento do caso já foi agendada para dezembro de 2025. As partes têm 21 dias para solicitar permissão para recorrer da sentença.

A questão sobre os acordos já firmados no Brasil por meio da Fundação Renova será analisada caso a caso, dependendo dos termos de cada quitação assinada pelas vítimas, informou o escritório Pogust, responsável pelo processo inglês.

Relembre o caso

Em 5 de novembro de 2015, a barragem de Fundão, da mineradora Samarco, se rompeu em Mariana. A tragédia liberou mais de 40 milhões de toneladas de rejeitos de minério, que percorreram 675 quilômetros pela bacia do Rio Doce até o Oceano Atlântico. O desastre deixou 19 mortos, causou o aborto de um bebê e gerou danos socioambientais.

Veja a nota da BHP:

“A BHP informa que pretende recorrer da decisão da corte britânica e reforça o compromisso da BHP Brasil com o processo de reparação no Brasil e com a implementação do Novo Acordo do Rio Doce.

A BHP Brasil, junto à Vale e Samarco, continua empenhada na implementação do acordo firmado em outubro de 2024, o qual assegurou um total de 170 bilhões de reais para os processos de reparação e compensação em curso no Brasil.

Desde 2015, aproximadamente 70 bilhões de reais foram pagos diretamente às pessoas da Bacia do Rio Doce e direcionados às entidades públicas no Brasil. Mais de 610 mil pessoas receberam indenização, incluindo aproximadamente 240 mil autores na ação do Reino Unido que outorgaram quitações integrais. A Corte inglesa confirmou a validade dos acordos celebrados, o que deverá reduzir significativamente o tamanho e valor da ação em curso.

A BHP continua confiante de que as medidas tomadas no Brasil são o caminho mais efetivo para uma reparação integral às pessoas atingidas e ao meio ambiente e seguirá com sua defesa no caso britânico.”

Veja a nota da Samarco:

A Samarco reafirma o compromisso com o Novo Acordo do Rio Doce, que representa um avanço significativo por trazer clareza, segurança jurídica, efetividade e definitividade na reparação. Desde 2015, foram destinados R$ 70,6 bilhões para as ações de reparação e compensação. Nesse valor estão R$ 33,8 bilhões pagos em 777,4 mil acordos de indenização individual.A empresa entende que o Acordo, reconhecido pela Justiça brasileira e homologado por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal (STF), visa assegurar a continuidade e a conclusão integral e definitiva da reparação, que tem avançado de forma consistente ao longo da Bacia do Rio Doce. No Novo Acordo do Rio Doce, todos os signatários estão amparados e resguardados pela soberania da justiça nacional que garante a execução do Acordo e a fiscalização do cumprimento das responsabilidades de cada parte. A Samarco destaca que não é parte da ação no Reino Unido.

Veja a nota da Vale:

“Em continuidade às comunicações anteriores¹, a Vale S.A. (“Vale” ou “Companhia”) confirma que a Alta Corte da Inglaterra considerou a BHP Group Ltd. e a BHP Group UK Ltd. (conjuntamente, “BHP”) responsáveis, sob a legislação brasileira, pelo rompimento da barragem de Fundão, operada pela Samarco Mineração S.A. (“Samarco”), em 2015. A decisão também confirmou a validade das renúncias e termos de quitação assinados por reclamantes já indenizados no Brasil, o que reduzirá o número de reclamantes e o valor das demandas.

Em julho de 2024, Vale e BHP firmaram um acordo confidencial pelo qual a responsabilidade será compartilhada igualmente por qualquer valor que a BHP (no processo inglês) ou a Vale (no processo holandês)² seja condenada a pagar. Vale e BHP permanecem confiantes de que o Acordo Definitivo, assinado em outubro de 2024 no Brasil, oferece os mecanismos mais rápidos e eficazes para compensar os impactados.

Próximos passos na Reivindicação do Reino Unido


Sujeito ao resultado de eventual recurso da BHP contra a decisão da primeira fase, um segundo julgamento, para determinar se a BHP causou os prejuízos alegados e questões genéricas relacionadas ao valor desses prejuízos, está atualmente previsto para começar em outubro de 2026 e seguir até o segundo trimestre de 2027.

Após decisões e recursos dessa fase, o valor das perdas sofridas e eventuais indenizações devidas a cada reclamante poderá ser objeto de um terceiro julgamento oportunamente.

O Acordo Definitivo com o Poder Público e o avanço da reparação no Brasil


Em outubro de 2024, a Samarco, BHP Billiton Brasil Ltda³ e Vale celebraram um acordo abrangente de US$ 32 bilhões (R$ 170 bilhões) com autoridades brasileiras para a quitação integral das principais ações no Brasil relacionadas ao rompimento da barragem. O Acordo Definitivo prevê ampla reparação dos impactos ambientais e sociais, incluindo saneamento básico, fortalecimento do sistema público de saúde, recuperação econômica, melhoria da infraestrutura local, compensação por danos coletivos a comunidades indígenas e tradicionais e municípios, além de apoio à renda das populações mais vulneráveis nas regiões afetadas.

Desde 2015, Samarco, BHP Brasil e Vale destinaram US$ 13 bilhões para ações de reparação e compensação a indivíduos afetados e autoridades brasileiras. Desse montante, mais de US$ 6 bilhões foram pagos em indenizações e auxílios financeiros para ao menos 610 mil pessoas, incluindo aproximadamente 240 mil requerentes no Reino Unido que concederam quitação de reivindicações relacionadas. A recuperação ambiental das áreas impactadas está substancialmente avançada, e a reconstrução das comunidades de Novo Bento Rodrigues e Paracatu atingiu 98% de conclusão.

Provisões e desembolsos futuros da reparação do rompimento da barragem de Fundão


Considerando o exposto, a Companhia estima uma provisão adicional de aproximadamente US$ 500 milhões em suas demonstrações financeiras de 31 de dezembro de 2025 para obrigações decorrentes do rompimento da barragem de Fundão. Em 30 de setembro de 2025, a Vale já havia reconhecido uma provisão de US$ 2,401 bilhões para obrigações sob o Acordo Definitivo no Brasil. Os desembolsos futuros relacionados ao Acordo Definitivo permanecem alinhados aos valores divulgados no release de resultados do 3º trimestre de 2025.”

Pablo Nascimento

Jornalista formado pela PUC Minas e pós-graduado em produção digital pelo Uni-BH. Focado na cobertura de cidades, passou por redações de TVs e portal de notícias. Como repórter, conquistou prêmios com reconhecimento estadual e nacional, em diferentes plataformas. Preza por unir precisão da informação à produção de conteúdo multiplataforma.
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