O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, foi transferido nessa segunda-feira (18) para uma cela comum na superintendência da Polícia Federal (PF), em Brasília. A transferência foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso que apura fraudes no sistema financeiro e crimes de ameaça, intimidação e invasão de aparelhos eletrônicos pessoais.
Vorcaro estava detido na sala de estado-maior da unidade desde março, o mesmo local em que Jair Bolsonaro ficou custodiado antes de conseguir a prisão domiciliar.
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A sala de estado-maior permitia ao banqueiro o encontro livre com advogados que elaboraram a proposta de acordo de delação entregue à PF e à Procuradoria-Geral da República (PGR). Agora, na nova cela, as visitas de adbogados e familiares são mais restritas.
Prisões de pai e filho
Prisão de Daniel Vorcaro
Por determinação de André Mendonça, Daniel Vorcaro foi novamente preso em março, após uma série de ofensas e ameaças contra ‘desafetos’ em um grupo de WhastApp. Ele já havia sido detido em novembro do ano passado, conseguiu liberdade provisória, mas as ameaças o levaram de volta à prisão.
No processo que embasou a decisão do ministro, a Polícia Federal revela que o empresário ordenou que um jornalista, concorrentes empresariais e ex-funcionários fossem intimidados, sempre que a atuação fosse encarada como prejudicial aos negócios do grupo suspeito de fraudes no Banco Master.
Nessa fase da operação Compliance Zero, a Polícia Federal investigou, além dos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos eletrônicos, essas ameaças.
As investigações começaram no início de 2024, após requisição do Ministério Público Federal para apurar a possível fabricação de carteiras de crédito insubsistentes por uma instituição financeira. Tais títulos teriam sido vendidos a outro banco e, após fiscalização do Banco Central, substituídos por outros ativos sem avaliação técnica adequada.
As conclusões, até o momento, indicam que o caso do Master pode representar a maior fraude financeira já praticada no país. O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) estima, por exemplo, que os ressarcimentos a clientes prejudicados devem ultrapassar os R$ 50 bilhões.
Prisão de Henrique Vorcaro
No dia 14 de abril, Henrique Vorcaro, pai de Daniel, foi preso em Nova Lima, na Grande BH. A ação integrou a 6ª fase da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes financeiras e a atuação de uma suposta organização criminosa ligada ao conglomerado.
A ofensiva também mirou pessoas ligadas a Luiz Phillipi Mourão, apontado como sicário de Vorcaro. Mourão morreu após ser preso numa das fases da operação. Ele foi encontrado desacordado na cela da PF em BH.
Nessa etapa, o foco da PF foi aprofundar as investigações sobre um grupo suspeito de praticar intimidação, coerção, obtenção ilegal de informações sigilosas e invasão de dispositivos informáticos. São cumpridos sete mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF).
Além disso, agentes públicos foram afastados de suas funções e foi autorizados bloqueios e sequestro de bens de envolvidos.
Henrique Vorcaro seria responsável por demandar serviços e fazer pagamentos a integrantes de núcleos conhecidos como “A Turma” e “Os Meninos”.
A PF afirma que, sob comando de Daniel, o grupo mantinha uma estrutura paralela de vigilância e coerção, voltada à obtenção de dados sigilosos e à intimidação de críticos. O pai do empresário seria apontado como responsável pelos repasses ao núcleo mais violento da organização, investigado por ameaças, extorsões e invasões de celulares e computadores.
Segundo os investigadores, Henrique Vorcaro também teria solicitado consultas a sistemas restritos de forças de segurança para verificar a existência de investigações em curso. O Ministério Público Federal (MPF) teria sido alvo de ao menos três ataques entre 2024 e 2025.
Até a última atualização, a PF não havia divulgado oficialmente todos os alvos da operação. Entre os investigados estão um agente da PF (preso), uma delegada (alvo de buscas) e um agente aposentado (também alvo de buscas).
Os envolvidos podem responder por crimes como ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, invasão de dispositivos informáticos e violação de sigilo funcional.
A teia de Vorcaro: como ‘A Turma’ e ‘Os Meninos’ formavam o braço armado e digital do clã
As investigações da exta fase da Operação Compliance Zero detalharam o funcionamento da sofisticada organização criminosa liderada por Daniel Vorcaro, que se estruturava em dois braços operacionais complementares: “A Turma” e “Os Meninos”.
Sob a gerência de Felipe Mourão, conhecido como “Sicário”, esses núcleos atuavam para neutralizar desafetos e proteger os interesses do grupo por meio de táticas que mesclavam coação física, infiltração em órgãos públicos e crimes cibernéticos, segundo a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça.
“A Turma”: O braço presencial e policial-informacional
O núcleo denominado “A Turma” tinha como foco principal a atuação no mundo físico e a obtenção de inteligência estatal. Liderado operacionalmente pelo policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, o grupo era especializado em ameaças, intimidações presenciais e levantamentos clandestinos.
Para isso, contava com o apoio de agentes da ativa, como Anderson Wander da Silva Lima, que realizava consultas indevidas no sistema e-Pol da Polícia Federal para fornecer dados sigilosos sobre investigações em curso.
Além da infiltração policial, “A Turma” possuía conexões com o crime local, exemplificadas pela participação de Manoel Mendes Rodrigues, apontado como liderança do grupo no Rio de Janeiro e ligado ao “jogo do bicho”.
Esse braço teria sido responsável por episódios de violência, como as ameaças de morte proferidas contra ex-funcionários de Daniel Vorcaro em Angra dos Reis, utilizando grupos de homens para exercer pressão física e moral. O financiamento desse núcleo era robusto, com indícios de repasses mensais de cerca de R$ 400 mil, operados por Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel e preso nesta quinta-feira pela Polícia Federal.
“Os Meninos”: A ofensiva digital e tecnológica
Enquanto “A Turma” agia nas ruas, o núcleo “Os Meninos” formava o braço tecnológico da organização, com um perfil voltado para o ambiente virtual. Sob a liderança de David Henrique Alves, o grupo é apontado como responsável por arregimentar operadores com perfil hacker para executar ataques cibernéticos, invasões telemáticas e o monitoramento digital ilegal de alvos de interesse da organização.
A principal função de “Os Meninos” era o que a investigação descreve como a neutralização de críticas e o monitoramento de alvos no plano digital, incluindo a derrubada de perfis em redes sociais de pessoas que se opunham ao grupo.
David Alves operava por meio da empresa Bipe Software Brasil Ltda., utilizada para dar aparência de legalidade aos pagamentos recebidos, estimados em R$ 35 mil mensais por integrante. Auxiliares como Victor Lima Sedlmaier e Rodrigo Pimenta davam suporte técnico e logístico, chegando a utilizar documentos falsos e infraestrutura de internet para as ações do grupo.
A eficácia da organização residia na sinergia entre os dois grupos: o que “Os Meninos” vigiavam e neutralizavam na internet, “A Turma” intimidava presencialmente ou monitorava via sistemas oficiais, diz a decisão de Mendonça com base em investigação da PF.
Diante da periculosidade demonstrada e da capacidade de destruição de provas digitais, o ministro André Mendonça decretou a prisão preventiva dos principais líderes e operadores de ambos os núcleos, visando interromper o fluxo de crimes e a rede de influência que persistia mesmo após as fases iniciais da operação.








