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Rompimento de barragem em Mariana reduziu diversidade de peixes nativos no Rio Doce, revela pesquisa

13/07/2026 às 16h29
Pesquisa revela que desastre de Mariana reduziu diversidade de peixes nativos no Rio Doce
Pesquisa é da Universidade Federal de Lavras (Ufla). (Antônio Cruz/Agência Brasil + Reprodução/Ufla)

Após dez anos do rompimento da barragem do Fundão, em Mariana, na região Central de Minas Gerais, uma pesquisa revelou que a diversidade de espécies nativas de peixes na bacia do Rio Doce diminuiu nas áreas mais afetadas pela lama de rejeitos. Ao mesmo tempo, espécies invasoras passaram a ocupar espaço na calha do rio. O levantamento é do Instituto de Ciências Naturais da Universidade Federal de Lavras (ICN/Ufla).

O estudo, coordenado pelo professor Paulo Pompeu, analisou isótopos estáveis, átomos de um mesmo elemento químico que diferem na massa, e as fontes de alimentação de cerca de 65 espécies de peixes em 10 pontos ao longo da calha do Rio Doce. Os resultados indicam que, quanto mais próximo da área atingida pelo rompimento da barragem, menor é a diversidade de recursos alimentares consumidos pelos peixes.

Além disso, segundo a pesquisa, a redução dos recursos alimentares disponíveis indica uma diminuição da diversidade de peixes. Com isso, espécies mais especializadas tendem a desaparecer, enquanto peixes com hábitos alimentares mais generalistas e maior capacidade de adaptação encontram condições favoráveis para se estabelecer na região.

De acordo com Paulo Pompeu, a bacia do Rio Doce foi pouco estudada ao longo dos anos, o que dificulta comparações mais precisas entre o ecossistema anterior e o posterior ao rompimento da barragem. “A calha do Rio Doce já era bastante impactada, com histórico de lançamento de esgoto doméstico, atividades de mineração e desmatamento em sua bacia. Como consequência, a fauna de peixes já estava modificada”, afirmou.

Para contornar essa limitação, a equipe comparou as comunidades de peixes da calha principal do Rio Doce com as encontradas em afluentes menos impactados. A análise mostrou que esses rios preservam comunidades mais conservadas, o que reforça a influência do rompimento da barragem sobre a fauna aquática do rio principal.

Bacia é dominada por peixes não nativos

Os resultados indicam que o rompimento da barragem criou condições favoráveis para a expansão de espécies invasoras, geralmente mais resistentes às mudanças ambientais. Atualmente, a bacia do Rio Doce é dominada por peixes não nativos, que já representam cerca de 25% das espécies registradas e chegam a corresponder a 50% em algumas áreas. 

De acordo com o professor da Ufla, esse é o principal desafio para a recuperação da fauna aquática da Bacia do Rio Doce. “Não existe nenhuma experiência internacional bem-sucedida que tenha conseguido erradicar completamente uma espécie invasora de peixe em rios, porque esses animais se reproduzem rapidamente e são difíceis de localizar e remover. Será necessário muito esforço para controlar essas espécies”, afirma Paulo Pompeu.

Segundo o pesquisador, as principais espécies invasoras são tucunarés, tilápias, piranhas e uma pequena espécie de lambari. Além de competirem por recursos alimentares já escassos, esses peixes também predam espécies nativas, agravando os impactos sobre o ecossistema.

Apesar desse cenário, os pesquisadores identificaram sinais de recuperação em trechos mais distantes da área atingida pelo rompimento da barragem. Esse processo é impulsionado, principalmente, por afluentes preservados da bacia, como os rios Santo Antônio, Manhuaçu e Piranga.

“Cada bacia tem suas espécies de peixes, isso faz parte da biodiversidade brasileira. Então, quando uma bacia sofre muito impacto, existe a possibilidade de essas espécies desaparecerem. Não é o caso do Rio Doce, porque ele possui rios bem preservados em sua bacia que não foram atingidos pelo desastre”, destaca Paulo Pompeu.

De acordo com o professor, à medida que a qualidade da água melhora, peixes nativos dos afluentes voltam a ocupar a calha principal do Rio Doce. Para ele, a recuperação da qualidade da água é essencial para acelerar o retorno das espécies. Caso contrário, a recomposição da fauna pode levar décadas.”Se o que está planejado em relação ao tratamento do esgoto das cidades, à retirada dos rejeitos, ao reflorestamento e a outras ações for, de fato, executado, há grandes chances de a água do Rio Doce se recuperar mais rapidamente”, afirma Paulo Pompeu.

O pesquisador ressalta ainda que a conservação dos afluentes preservados é fundamental para esse processo. Um exemplo é o Rio Santo Antônio, que abriga cerca de 80% das espécies de peixes registradas na bacia do Rio Doce.

Tragédia de Mariana

O rompimento da barragem de Fundão, controlada pela mineradora Samarco, ocorreu em 5 de novembro de 2015, no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, na região Central de Minas Gerais. O colapso liberou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro, que destruíram comunidades inteiras, causaram a morte de 19 pessoas e deixaram um rastro de devastação ambiental ao longo do Rio Doce.

O desastre é considerado o maior da história da mineração no Brasil e um dos maiores do mundo. A lama percorreu mais de 600 quilômetros até atingir o Espírito Santo, comprometendo o abastecimento de água, a fauna e a flora da região. Dez anos depois, a reconstrução das comunidades atingidas e a reparação integral dos danos ainda são desafios em andamento.

Ana Magalhães

Jornalista pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Foi estagiária do Jornal Estado de Minas e do programa Agenda da Rede Minas de Televisão. Repórter do BHAZ desde agosto de 2024.
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