O cantor mineiro Sérgio Pererê denuncia ter sido vítima de racismo após ser detido por quatro horas na imigração do Aeroporto de Lisboa, em Portugal, na última sexta-feira (26). O multiartista seguia para Berlim, na Alemanha, onde se apresentaria no Fusion Festival 2026 neste sábado (27). Embora tenha sido liberado, ele perdeu o voo para a capital alemã e precisou embarcar em outra aeronave.
O artista estava acompanhado da cantora, percussionista e compositora Badi Assad e do violinista Kevin Callahan. Eles seguiam para a Alemanha para apresentar o projeto Bentu, que cumpre uma série de apresentações no país.
Segundo Pererê, todos desembarcaram no Aeroporto de Lisboa por volta das 6h, em um voo vindo de São Paulo. Porém, somente ele permaneceu retido na imigração, onde ficou até as 10h30.
“Os dois [Badi e Kevin] passaram rapidamente. Mas, quando chegou a minha vez, o ritmo mudou. O atendente pegou o meu passaporte e demorou bastante. Imagino que ele buscava alguma coisa que justificasse me fazer voltar. Aí, me fez várias perguntas até dizer que não havia comprovação exata do que eu iria fazer e que eu não tinha condições de entrar na Europa. Expliquei que era músico e que estava indo para festivais, mas o atendente respondeu ‘eu sou um policial’. Foi bem nítido que eles queriam demonstrar poder”, relatou em entrevista ao BHAZ.
O multiartista ainda contou que os músicos que o acompanhavam ficaram surpresos com a situação. “Como foi tudo muito rápido para eles, acreditavam que estava tudo bem. Como estávamos com as mesmas informações e indo para os mesmos lugares, eles também não esperavam que isso fosse acontecer”, explicou.
‘Desgosto pelas pessoas’
Ainda de acordo com Pererê, ele foi conduzido até uma sala de detenção do aeroporto, onde também havia pessoas negras na mesma situação, entre brasileiras e pessoas do continente africano, além de descendentes de indígenas da América Latina.
“Ficou nítido o que estava acontecendo. Por exemplo, havia uma moça de Cabo Verde e um rapaz de Betim que estava lá há três dias. Então, a situação foi realmente terrível. Enquanto estava ali, só conseguia pensar e sentia um pouco de desgosto pelas pessoas. Me questionava: O que esses caras estão fazendo? Será que eles acham que estão contribuindo para o mundo gerando esse tipo de constrangimento?”, afirmou.
Para ser liberado, o cantor explica que houve uma força-tarefa “muito bonita”. A percussionista Badi entrou em contato com a cantora portuguesa Tatiana Cobbett, que indicou uma advogada, além de acionar pessoas da imprensa em Portugal.
“A advogada também foi até o aeroporto para me ajudar. Então, isso gerou uma pressão e eles acabaram me liberando. Praticamente me pediram desculpas”, disse.
Embora tenha conseguido embarcar em outro voo para a Alemanha, Pererê relatou que foi prejudicado, já que a situação fez com que a mala onde estavam os instrumentos atrasasse.”Neste primeiro show mesmo, realizado neste sábado, tive que improvisar. Ou seja, segui no prejuízo. Mas o pior passou”, explicou.
Em relação a possíveis medidas legais, segundo Pererê, a experiência em que foi vítima de racismo religioso no ano passado, após uma apresentação em Ouro Preto, na região Central de Minas, evidenciou a dificuldade enfrentada na Justiça, com tentativas de alongamento do processo e entraves na comprovação dos fatos.
“Então, eu prefiro expor. É uma exposição de sentimento, e quem compactuar vem comigo, e quem não, também não precisa vir junto. Mas eu estou muito feliz com a rede solidária, muitas pessoas da classe artística, muitas pessoas de várias áreas, mandando aqui um abraço e querendo saber. Isso já é muito bom. Eu acho que isso não é romantizando o mal, romantizando a maldade, mas nesse sentido eu estou bem satisfeito de estar aqui na Alemanha, sabendo que tem tanta gente, não só no Brasil, vibrando e jogando energia boa”, finalizou.
O BHAZ entrou em contato com o Itamaraty e a Polícia de Segurança Pública (PSP) de Portugal, e aguarda retornos.










