As festas de fim de ano são tradicionalmente associadas à celebração e à convivência familiar. No entanto, também podem surgir situações de estresse e conflitos que, ao longo do ano, costumam ser evitados. Comentários inconvenientes, diferenças de opinião e desacordos tornam, em muitos casos, necessárias estratégias que auxiliem na compreensão dos comportamentos e que favoreçam o diálogo, a autoproteção e uma possível conciliação. Em conversa com o BHAZ, a psicóloga clínica Samantha Alves explicou que as desavenças tendem a aflorar nesse período, por se tratar de um momento simbólico de encerramento e início de ciclos.
Segundo ela, no Brasil há uma cultura de revisão do ano, em que as pessoas costumam refletir sobre as próprias conquistas e metas individuais. “Isso pode acabar ativando emoções, porque, na maioria das vezes, não conseguimos cumprir ou realizar todos os nossos desejos. Como é um período em que muitas pessoas estão reunidas com a família, viajando e demonstrando uma aparente fartura financeira, quem não está vivenciando essa realidade pode se sentir frustrado e abalado diante de situações desagradáveis da própria vida”, explicou a psicóloga.
A especialista explica que as queixas relacionadas às festas de fim de ano vão desde comentários desagradáveis e inconvenientes de familiares sobre trabalho, relacionamentos, estilo de vida e planos pessoais, até desacordos sobre quem ficará responsável pela organização da celebração e com qual lado da família o casal irá confraternizar. Para ela, a situação tende a piorar quando as pessoas não conseguem lidar com as próprias emoções e comportamentos.
“Não podemos controlar o comportamento dos outros, mas conseguimos controlar a nossa reação. Quando ficamos reativos e reféns das próprias emoções, isso tende a reverberar de forma negativa e não ajuda a resolver a situação. Além disso, não será possível chegar a um entendimento com a outra pessoa e ainda acabamos nos sentindo mal conosco mesmos”, comentou.
Samantha pondera que, na maioria das vezes, é mais fácil falar do que colocar em prática, já que o controle emocional está diretamente ligado ao autoconhecimento e à clareza sobre os próprios valores e qualidades.
“O nosso comportamento é baseado na forma como enxergamos as situações e nos pensamentos que temos diante delas. Por exemplo, se uma tia afirma que eu nunca consigo uma promoção no trabalho, em vez de pensar que ela está sempre me criticando, posso entender que essa é apenas a opinião dela e que não reflete a minha realidade. O fato de ela me criticar não diz nada sobre mim. Ainda assim, sei que isso é difícil, porque depende muito da autoconfiança”, reforça.
Pensando nisso, a psicóloga recomenda alguns processos de preparação emocional antes das festas. Conforme ela, são estratégias fundamentais para entender temas sensíveis, gatilhos e regulamentar sentimentos diante de situações familiares desconfortáveis. (veja abaixo)
Participar é escolha
O primeiro passo é se perguntar se, de fato, há a necessidade de estar presente nas festas de fim de ano com a família. A especialista orienta que a desconstrução do mito da convivência familiar obrigatória pode facilitar a adoção de estratégias de autoproteção e a escolha por celebrações alternativas que façam mais sentido para cada pessoa.
“Temos uma cultura que valoriza muito a família, a convivência com pais, irmãos e outros parentes, e isso é positivo. No entanto, há limites. Se sou um adulto responsável, funcional e independente, preciso avaliar se devo conviver com pessoas que não me fazem bem, ainda que sejam familiares”, afirmou.
Restruturar o pensamento
Caso a pessoa opte por passar as festas com a família, Samantha explica que a segunda dica é reestruturar os pensamentos. A orientação é analisar se a forma de interpretar as situações é realista e refletir se determinados temas serão, de fato, insuportáveis.
“O trabalho de questionar os próprios pensamentos é importante para que eles não se tornem verdade ou achar que não dará conta de alguma coisa. Falar do meu trabalho, por exemplo, é mesmo tão grave ou é somente a minha avaliação?”, indagou.
Lidar com as emoções
A partir disso, outra medida importante é regular as emoções. Diante de uma situação conflituosa, antes de responder ou adotar qualquer comportamento impulsivo, o ideal é dar um “tempo”. Essa pausa ajuda a ‘esfriar’ a cabeça e pode evitar discussões maiores.
“Geralmente, as festas de fim de ano acontecem na casa de alguém. Então, sair um pouco, dar uma volta ou respirar ajuda a relaxar. Outra dica é conversar com alguém agradável, mandar mensagem para uma pessoa querida, assistir a um vídeo divertido nas redes sociais ou até ir ao banheiro e lavar o rosto. Enfim, fazer algo que ajude a diminuir a intensidade da raiva antes de falar ou agir”, orienta a especialista.
Ensaio
Outra alternativa, segundo a psicóloga, é fazer um ‘ensaio’ antes do evento, a fim de identificar a forma mais funcional e prática de lidar com situações desconfortáveis.
“Se perguntarem sobre os ‘namoradinhos’, vale pensar previamente em como você gostaria de lidar com esse questionamento. É possível dizer que prefere não falar sobre o assunto ou mudar de tema, afirmando, por exemplo, que não sente necessidade de um relacionamento neste momento. Treinar essas respostas funciona como uma exposição imaginária à situação, o que é muito potente do ponto de vista psicológico”, explicou.
Para Samantha, essa postura pode ajudar a aproveitar melhor a festa, já que não é possível resolver anos de conflitos familiares em uma única celebração. “É importante lembrar o motivo de estar ali, buscar um tempo aceitável e agradável e tentar se conectar com as pessoas que amamos. Por isso, considero válido utilizar algumas dessas estratégias para que o encontro gere memórias afetivas positivas”, reforçou.
Comunicação assertiva e foco no autocuidado
A psicóloga também reforça que o uso da comunicação assertiva, tanto antes quanto durante a festa, é fundamental para estabelecer limites e expressar incômodos. Manifestar o que se pensa e expor opiniões é válido, desde que isso seja feito sem agressões ou ofensas às outras pessoas.
“Mais importante do que o momento da conversa é como ela acontece. Cada família tem sua dinâmica, um jeito próprio de se comportar e, muitas vezes, cria ambientes de alta ativação emocional. Enquanto algumas pessoas vão embora com sentimentos engasgados, outras partem diretamente para a briga e a discussão. Outro fator que influencia é o consumo de álcool, comum nessas festas, e que sabemos não ser um bom aliado para conversas produtivas. Tudo isso precisa ser avaliado”, explica.
Para pessoas que ficam muito ansiosas antes dessas celebrações, a especialista sugere investir em atividades de autocuidado, como exercícios físicos, leitura, meditação, técnicas de relaxamento muscular e respiração diafragmática. “Assistir a um filme, tomar um banho mais demorado… tudo isso ajuda. E é importante lembrar que optar por não estar nesses ambientes não anula sua trajetória na família nem faz de você um familiar ruim; é somente uma forma de autoproteção”, finalizou Samantha.










