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‘Polícia, me ajuda aqui!’: vídeo revela 13 pedidos de socorro de mulher trans morta após ser espancada na Savassi

25/11/2025 às 16h05 - Atualizado em 25/11/2025 às 16h07
(Imagens cedidas ao BHAZ)

Imagens cedidas ao BHAZ mostram quando uma viatura da polícia militar passa na avenida Getúlio Vargas, na Savassi, região Centro-Sul da capital, enquanto Alice Martins, mulher trans de 33 anos, é agredida por funcionários do Rei do Pastel, na madrugada do dia 23 de outubro.

De acordo com o horário registrado na câmera de segurança, a viatura da polícia militar passa pela avenida Getúlio Vargas à 00h48. Alice pede socorro duas vezes: “Polícia, me ajuda aqui”. Seis segundos depois ela repete: “Polícia me ajuda”. Apesar dos gritos, os militares não se aproximam.

Durante a gravação, Alice grita por socorro outras 13 vezes para pedestres, motoristas e motociclistas que passavam pelo local. As imagens não registram o momento em que ela é agredida e encurralada pelos suspeitos, já que o ângulo da câmera aponta apenas para a avenida Getúlio Vargas. É possível ouvir apenas os gritos e o diálogo com os agressores.

Veja vídeo:

Relembre o caso

O ataque contra Alice ocorreu na avenida Getúlio Vargas, na madrugada de 23 de outubro. Segundo a investigação, ela saiu do Rei do Pastel, na esquina com a Contorno, onde estava com amigos, quando foi abordada e espancada por dois funcionários da lanchonete, após, supostamente, não ter pago uma conta no valor de R$ 22.

Segundo a família, após a agressão, Alice foi atendida em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e, depois, foi para casa. O pai a encontrou no quarto já com várias lesões pelo corpo e sentindo muitas dores. Devido à gravidade do quadro, ela foi a um hospital particular. O espancamento causou fraturas nas costelas, perfuração intestinal e uma úlcera no estômago da vítima.

A vítima registrou um boletim de ocorrência, no dia 5 de novembro. Nele, informou que não conhecia os agressores. Alice morreu no último domingo (9), 17 dias após a sessão de espancamento.

“Nesse boletim de ocorrência, ela descreve os autores de certa maneira porque tem medo deles. Ela demorou a relatar para o pai que foi agredida porque ficou com vergonha. Ela sabia que foi agredida por ser uma mulher trans. Diante a vergonha e o medo de não ser acolhida pelas instituições, ela não descreve exatamente como são os funcionários. Também temos que lembrar que ela estava sob efeito de álcool e desmaiou rápido devido às agressões intensas. Chegou a quebrar as costelas dela”, comentou a delegada responsável pelo caso.

“Parece que ela estava pressentindo que algo ia acontecer. Tinha três meses que ela não estava saindo de casa. Eu falei para ela dar uma volta porque tinha muito tempo que ela estava em casa e acontece isso”, contou Edson Alves, pai de Alice, no velório da filha.

“Será que uma transsexual não tem direito a viver em paz? Agora eu perdi uma grande parceira e amiga. Uma companheira de filme e de tomar uma cervejinha em casa”, desabafou o pai.

Suspeitos estão em liberdade

Os suspeitos de agredir e matar Alice já foram identificados pela Polícia Civil de Minas Gerais e estão em liberdade. Alguns detalhes do caso foram divulgados nessa sexta-feira (14). A PC informou que não vai revelar se fez pedido de prisão dos suspeitos para não atrapalhar a investigação. Segundo o inquérito, por ora, não há suspeita de terceiros envolvidos no caso.

Segundo testemunhas, Alice foi perseguida pelos dois funcionários ao sair da lanchonete. Quando alcançada, ela teria sido intimidada a pagar a conta.

Os relatos apontam que a mulher chegou a dizer que havia quitado tudo, mas a fala foi feita diante de seu estado de embriaguez. Ela não estava completamente lúcida, conforme informações levantadas pelos investigadores.

Logo em seguida, teria sido agredida violentamente. A sessão de espancamento só terminou com a chegada de um motoboy, que, mesmo ameaçado pelos agressores, manteve-se no local e ajudou a socorrê-la. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi chamado por testemunhas.

Rei do Pastel se pronuncia

“Foi nessa esquina que a moça foi brutalmente espancada”, diz um comentário em uma postagem no perfil do Rei do Pastel no Instagram. Esta é uma das inúmeras manifestações de usuários da rede social que cobraram uma resposta do estabelecimento após dois funcionários da rede de lanchonetes serem suspeitos de espancar e matar Alice. Em resposta ao movimento online crescente de “Justiça Por Alice”, a empresa emitiu uma nota de esclarecimento sobre o caso.

A postagem no perfil da lanchonete afirma que a empresa se colocou à disposição das autoridades desde o início das investigações, “auxiliando com todos os dados que nos foram solicitados”, disse o texto.

“Várias versões estão sendo divulgadas na mídia e principalmente nas redes sociais, sem as devidas apurações e efetivas comprovações. Estamos aguardando e confiantes no trabalho sério e eficiente que vem sendo executado pela polícia, com a certeza da correta apuração dos fatos e a devida culpabilidade dos envolvidos”, afirmou a publicação.

Na nota, o Rei do Pastel declara que repudia manifestações de ódio. “Destacamos que não compactuamos, em hipótese alguma, com ações discriminatórias referente a identidade de gênero, orientação sexual, raça ou qualquer outra natureza”, acrescentou.

No entanto, o pronunciamento foi recebido por seguidores e clientes do Rei do Pastel de forma controversa. “Queremos RESPOSTAS. A versão envolvendo valores é real? Os funcionários investigados continuam trabalhando ou foram afastados? Esclareçam com argumentos de verdade em respeito a Alice e a todos nós clientes, por favor”, disse um comentário.

“E o fato de que vocês incentivam os funcionários a perseguirem eventuais não-pagantes da maneira que perseguiram Alice? Isso não é de hoje. Vocês não são polícia!!!!”, afirmou outro cliente.

Asafe Alcântara

Coordenador de mídias digitais e repórter, no BHAZ, desde setembro de 2021. Atualmente concilia como repórter na Record TV Minas. Jornalista graduado pelo UNI-BH, com experiência em redações de veículos de comunicação, como RedeTV! BH, TV Band Minas, TV Alterosa, TV Anhanguera (afiliada Globo GO), TV Justiça e CNN Brasil.
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