Quase nove em cada dez afirmações sobre saúde que viralizaram nas redes sociais e passaram pelo crivo de checadores eram mentirosas. É o que mostra o relatório “Raio-X da Desinformação em Saúde”, divulgado neste mês. Das 764 afirmações analisadas pela Agência Lupa entre 2017 e junho de 2026, 667 foram classificadas como falsas, o que equivale a 87,3% do total. O levantamento foi produzido pelo Observatório Lupa, com patrocínio da Afya.
O número exige uma ressalva importante. O estudo reuniu 498 verificações de conteúdos virais ou potencialmente virais, que podem conter mais de uma alegação, e o percentual vale apenas para o material selecionado e checado pela agência, sem representar tudo o que se publica sobre saúde na internet. Na base examinada, só 26 afirmações (3,4%) foram consideradas verdadeiras.
Falsos médicos e linguagem do medo
A tática mais comum para dar aparência de credibilidade à mentira é se apoiar em supostos especialistas. O uso de falsas autoridades médicas ou científicas aparece em 21,6% dos casos; a linguagem alarmista, em 17%; e a distorção de estudos e dados, em 15,7%.
Segundo o relatório, isso nem sempre depende de inventar um especialista: declarações verdadeiras podem ser tiradas de contexto, conclusões científicas exageradas, limitações de pesquisas omitidas e falas nunca ditas atribuídas a profissionais. A fundadora da Lupa, Cristina Tardáguila, resume que a desinformação em saúde se apropria da linguagem e da autoridade de médicos, pesquisadores e instituições para parecer legítima.
Promessas de soluções simples para problemas complexos, como tratamentos que supostamente curam doenças ou substituem remédios convencionais, apareceram em 12,6% dos casos.
Mentira que vende: diabetes é alvo preferido
O estudo também mostra que a desinformação virou negócio. Entre 18 verificações relacionadas à exploração comercial, 17 envolviam algum tipo de oferta ao público. Sete delas (38,9%) tratavam de diabetes, a doença mais explorada nesse recorte. Receitas vendidas como milagrosas e tratamentos caseiros foram constantes ao longo do período, dividindo espaço nos últimos anos com anúncios pagos e vídeos manipulados.
Para o vice-presidente médico e de relações institucionais da Afya, Gustavo Meirelles, os resultados são preocupantes porque a desinformação pode levar alguém a adiar a busca por atendimento, abandonar um tratamento eficaz ou adotar práticas sem respaldo científico.
Covid e vacinas
Os temas mais recorrentes nas checagens foram covid-19 (61%), tratamentos, cura e prevenção (34%) e alimentos, bebidas e nutrição (24%). A pandemia mudou a escala do problema: só entre 2020 e 2021, a Lupa analisou 452 conteúdos virais sobre saúde, cerca de dez vezes o registrado antes da pandemia.
As vacinas ganharam espaço e não saíram mais do radar. Antes da covid, elas correspondiam a 9,1% das checagens de saúde da Lupa; a fatia chegou a 33,2% durante a emergência nacional e a 38,9% entre 2022 e 2024.
Para Maiquel Rosauro, pesquisador da Lupa responsável pelo estudo, a pandemia ampliou a dimensão da desinformação, mas muitas das técnicas que explodiram naquele momento já existiam e continuam em uso: a mentira mudou de assunto e ganhou novas ferramentas, mas manteve mecanismos de persuasão parecidos.
WhatsApp lidera
O WhatsApp foi a plataforma mais recorrente, presente em 70,5% das verificações; o Facebook apareceu em 25,3% e o Instagram, em 7%. A pesquisa ressalva, porém, que os dados não permitem afirmar que o aplicativo seja a origem das falsidades nem que concentre a maior parte da desinformação em saúde na internet.
O que o relatório recomenda
O documento sugere que as plataformas facilitem denúncias de falsas curas, reduzam a monetização de conteúdos com alegações terapêuticas sem comprovação e suspendam anúncios de produtos que já tenham recebido alertas sanitários.

















