Luísa Barreto quer tarifa flexível de ônibus, ‘Uber sem regras’ e parcerias

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Luísa Barreto foi a décima sabatinado na rodada de entrevistas do BHAZ (Moisés Teodoro/BHAZ)

A candidata do PSDB à Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), Luísa Barreto, propõe implementar uma tarifa flexível na cidade visando a redução no valor da tarifa de ônibus fora do horário de pico; defende a volta às aulas presenciais, mesmo que não seja obrigatória a presença dos alunos; e uma integração entre a Guarda Civil Municipal e as polícias Militar e Civil. Essas e outras informações foram reveladas em entrevista exclusiva ao BHAZ.

A ex-secretária adjunta de Planejamento e Gestão do governo de Romeu Zema (Novo) foi a décima candidata a participar da sabatina realizada pelo portal com todos os 15 postulantes a assumir a prefeitura a partir de 2021. Acompanhe a cobertura das eleições municipais em todas as nossas redes e clique no nome do candidato para conferir as entrevistas realizadas:

Luísa Barreto também prometeu fazer parcerias com a iniciativa privativa para terminar com a fila de espera de exames e garantir vagas nas creches para crianças a partir dos quatro meses de idade. A postulante do PSDB criticou o fechamento da cidade durante a pandemia alegando que a prefeitura não dialogou com o restante da cidade em uma atitude, chamada por ela, de autoritária.

Tarifa flexível

Ônibus lotado é uma realidade enfrentada pelos moradores de Belo Horizonte – e o problema ficou ainda mais evidente durante a pandemia. Para solucionar a superlotação dos coletivos, Luísa Barreto propõe a criação da tarifa flexível. “Durante horários de pico o preço é mantido [o preço da passagem] e nos demais reduzido, de forma a incentivar que quem possa circular neste horário o faça, tornando ônibus menos cheios e a qualidade do transporte melhor”, explica a concorrente.

A tucano explicou que, na visão dela, não é possível fazer uma “revolução nos contratos” das empresas de ônibus e, justamente por isso, a implantação da tarifa flexível seria a solução imediata. Questionada, Luísa Barreto prometeu não conceder reajuste da tarifa ao menos no primeiro ano do hipotético mandato porque “a qualidade do transporte público é deplorável na capital”.

Para que outros períodos do dia além dos horários de pico sejam interessantes para o belo-horizontino, a ex-secretária de Zema afirma que vai estender o horário do funcionamento do comércio (leia mais sobre o tema abaixo). “O que acontece na cidade é que a prefeitura determina qual horário o comércio abre e fecha e todo mundo sai e volta para casa no mesmo horário. Óbvio que vamos ter mais ônibus lotados”.

Indagada se essa ampliação do horário não aumentaria a necessidade de policiamento pelas ruas da capital mineira, Luísa Barreto afirmou não teme o aumento da criminalidade. “Não necessariamente quando temos o comércio funcionando em mais horários significa mais violência. Como o Centro é hoje um centro comercial, não tem muita gente gente vivendo no Centro e a vida noturna acabou nos últimos anos, torna o Centro mais inseguro. Quando tem gente nas ruas, a cidade fica mais segura”, argumentou.

“A dificuldade de manter a segurança é justamente quando as pessoas não estão nas ruas”, complementou.

‘Apps sem regras’

Após um longo debate na Câmara Municipal, um projeto que disciplina o uso dos aplicativos de transporte em BH – como Uber e 99 – foi aprovado e sancionado, mas trechos ainda não foram regulamentados. Luísa Barreto projeta suspender qualquer regulamentação. “As pessoas têm de ter mais liberdade nesta cidade. A prefeitura, ao tentar regulamentar tudo, acaba encontrando caminhos piores. Os transporte por aplicativo oferecem emprego a 35 mil pessoas aproximadamente e quando colocamos os entregadores de delivery falamos de mais de 50 mil. Esses empregos são importantes”, disse.

Com relação à ampliação do metrô e até mesmo a implementação do VLT (veículo leve sobre trilhos), a postulante afirmou que não colocou no plano de governo, pois “não depende da prefeitura”. “Não vou fazer promessas que não consiga cumprir. Vou lutar por novos modais na cidade. BH ficou para trás por conta de brigas políticas. Prefeito que não conversa com o governador e não dialoga com o presidente”.

‘Tem que buscar outros caminhos’

Luísa Barreto se define como uma pessoa “do bem”, uma pessoa íntegra, de valores. Questionada se políticos envolvidos em investigações sobre corrupção – como o correligionário e ex-governador mineiro Aécio Neves – são pessoas “do mal”, a concorrente respondeu que esses gestores devem “buscar outros caminhos”.

“Uma prefeita, um prefeito tem como principal papel servir ao público, e não se servir dele. Quem pensa diferente disso não vou falar que é do mal, mas infelizmente talvez esteja no caminho errado. A gestão pública não é para beneficiar o gestor, é para beneficiar a população”, afirmou. “Todo mundo que desvia que é o principal da função de um gestor público, infelizmente tem que buscar outros caminhos”.

Sem espaço para Aécio?

A concorrente tucana também foi questionada se líderes históricos do partido, como Aécio Neves, Eduardo Azeredo e João Leite, teriam espaço em seu hipotético governo. “Meu governo será construído da forma que acredito que deva ser. Pessoas de capacidade técnica e diálogo com a população. Não estou buscando espaço de governo para A, B ou C. O que estou buscando são pessoas que possam ajudar a governar Belo Horizonte focando no cidadão, que é quem mais importa”, afirmou.

Luísa Barreto também reforçou que não chegou a conhecer Aécio. “Sou de uma nova geração. Quando ele governou o estado eu ainda era estudante. Estou fazendo uma história nova, me filiei ao partido no ano passado e reconheço o legado do partido no estado”.

Por fim, a candidata garantiu que não tenta se “descolar” desses caciques, mas que está mostrando sua história e capacidade de gestão. “Sou uma pessoa disposta a fazer mudança de gestão para fazer uma cidade colaborativa. Tenho trazido minhas propostas, ideias nesta campanha e um pouco da minha história também”, destacou.

‘Autoritarismo’ e isenção

O fechamento do comércio em BH durante a pandemia do novo coronavírus foi duramente criticado por Luísa Barreto. Ela acredita que faltou diálogo do Executivo municipal com a cidade e classificou as medidas do prefeito Alexandre Kalil como “autoritarismo”. “A prefeitura tomou as decisões sem conversar com os comerciantes e com quem entende de Belo Horizonte. Os resultados estão aí. Infelizmente 35 mil pessoas perderam emprego só neste ano. A situação é muito ruim e muito grave”.

Na tentativa de reerguer os comércios e evitar mais fechamentos, a candidata do PSDB propõe a criação do Centro de Recuperação de Negócios. “Um local que vai reunir os órgãos da prefeitura, o Sistema S, os bancos públicos e os micro e pequenos empresários para que a prefeitura possa auxiliar estas pessoas dando acesso a crédito ou outros auxílios que eles têm dificuldade de conseguir quando estão sozinhos”, explicou.

Isenção de impostos também é possível acontecer, como o IPTU. No entanto, isso seria temporário e aconteceria “neste momento de recuperação”. “Não acredito que os comerciantes tenham que ter a isenção permanente de IPTU, porque quem mora na cidade e não empreende continua pagando este tributo e seria incorreto e injusto”.

A postulante do PSDB acredita ainda que a PBH poderia ter buscado outras soluções para evitar o fechamento do comércio e, consequentemente, da cidade por tanto tempo. Para Luísa Barreto, faltou preparação e afirma que a prefeitura “pensou só na cabeça do prefeito sem dialogar com o restante da cidade”. “A capital foi fechada em meados de março e a prefeitura começou a divulgar seus boletins e indicadores só em maio. A gente passou dois meses com a cidade fechada sem nenhuma transparência”, criticou.

Machismo na política

Luísa Barreto foi a décima sabatinada no portal BHAZ e a primeira mulher. Ao ser perguntada sobre o motivo da capital nunca ter eleito uma prefeita ao cargo de chefe do Executivo municipal, a concorrente descartou que a população seja machista. “O volume de candidatas frente ao de candidatos é muito pequeno, mulheres tiveram muito menos oportunidades de se colocar”.

“Não acho que a população seja machista. Tenho conversado muito com as pessoas, mulheres e homens falam o tanto que seria importante ter uma mulher à frente da prefeitura. Talvez a estrutura partidária seja mais machista do que a própria cidade. Muitas vezes os partidos políticos tendem a dominar e manter as pessoas que estão no poder”, opinou.

Pela primeira vez o PSDB lança, em BH, candidatura tendo uma mulher como cabeça de chapa. Luísa Barreto afirmou que talvez o partido tenha demorado, “mas pelo menos percebeu, diferente de outros”. “O PSDB tem buscado a renovação, trazendo candidaturas diferentes. Temos agora, por exemplo, uma chapa muito bacana: eu, mulher, e tendo como vice o Juvenal [Araújo], homem negro, de luta de igualdades raciais”.

‘Devastação na educação’

A candidata do PSDB defende a volta às aulas presenciais, tanto na rede pública como na particular. O fechamento das unidades de ensino também é considerado por ela como “autoritarismo” da prefeitura. Luísa Barreto ainda questiona o motivo da PBH não ter buscado parcerias para levar internet aos pontos da cidade e proporcionar o ensino remoto das crianças.

“A prefeitura não fez o que tinha que fazer, não ofereceu oportunidade aos alunos de terem ensino à distância porque falou que era muito difícil ter internet de qualidade para estas pessoas. Por que não buscou parcerias? Tinha tanta gente disposta a ajudar e a prefeitura, mais uma vez, preferiu não fazer o seu papel”, criticou.

A queda no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) aliada com a necessidade de se fazer dois anos em um na educação é outro ponto que preocupa Barreto. “Belo Horizonte teve 28 dias letivos de aula na rede municipal. É muito pouco. As pesquisas mostram que quanto mais tempo os alunos ficam afastados das escolas isso reduz muito sua aprendizagem. A gente tem hoje uma verdadeira situação de devastação na educação”.

“A educação que teve o pior resultado do Ideb fico me perguntado como os alunos, que não estão conseguindo aprender em um ano, vão conseguir aprender o conteúdo de dois anos em um só e com qualidade? É algo que precisava ser revisto ainda neste ano”, ponderou. Luísa Barreto afirma que a volta às aulas não precisa ser obrigatória, mas é necessário que a PBH dê “permissão para que as pessoas dialoguem e resolvam”.

Vagas em creches

No plano de governo de Barreto é defendida a oferta de vagas para crianças a partir de quatro meses na rede municipal, “independentemente da época do ano”. A proposta, segundo a candidata, “vai dar mais autonomia às mulheres, pois muitas estão se afastando do mercado de trabalho por não poder contar com o apoio da PBH”.

Para a promessa se tornar realidade, Luísa Barreto não prevê a construção de mais EMEIs (Escolas Municipais de Educação Infantil), mas uma parceria do poder público. “Não dá para esperar construções de escola. Temos, tanto na [rede] privada e filantrópica, a possibilidade de vagas e a PBH tem que garantir que crianças e mães sejam atendidas”.

Exames na rede particular e app

Um dos gargalos da rede de saúde do município é o tempo de espera para realização de consultas e exames. Luísa Barreto disse estar disposta a fazer parcerias com a iniciativa privada para colocar fim na fila. “Desejo contratar em especial vagas de exame na rede particular nos horários em que essa rede esteja ociosa para garantir o fim dessa fila. Também vejo a necessidade de médicos especializados mais próximos das pessoas, rodando as regionais”.

Ainda na área da saúde, a candidata se comprometeu a inaugurar a maternidade Leonina Leonor Ribeiro, em Venda Nova. “Mulheres precisam de mais qualidade no parto e é prioridade fazer a abertura”. Já com relação às UPAs, Luísa Barreto deseja revitalizar, melhorar a infraestrutura e a gestão destes equipamentos de saúde.

“Proponho modernizar o sistema de saúde. As pessoas, antes de sair de casa, poderão saber como estão as UPAs, o tempo médio de espera, o tamanho da fila. Por meio da tecnologia, elas vão ter um direcionamento melhor”. Isso aconteceria, por meio de aplicativos ou de um sistema online. “A tecnologia já existe”, destacou.

Integração da Guarda

A integração entre a Guarda Civil Municipal e as polícias é defendida por Luísa Barreto. A candidata defende a guarda com “função mais comunitária”. “Gostaria que ela estivesse mais próxima das pessoas para que tenhamos uma guarda que faça trabalho preventivo e não só quando a violência acontece”.

“Hoje a gente vê muitas vezes a guarda disputando espaço com as polícias e isso é péssimo, porque a gente gasta mais e em termos de logística temos áreas que são mais monitoradas e outras esquecidas. Tem que trabalhar de maneira integrada para garantir mais segurança em BH”, afirmou.

Parques lineares

O período chuvoso traz tristes lembranças para a população de Belo Horizonte devido às tragédias registradas. Barreto acredita ser “importantíssimo” obras estruturais nos “principais pontos de alagamentos como Vilarinho e avenida Teresa Cristina”, mas ressalta: “Nós não vamos conseguir resolver todos os problemas da chuva com essas obras, porque elas são caras, complexas e demoradas”.

A candidata defende uma “melhor gestão ambiental” na cidade. Dentro desta proposta está a criação de parques lineares próximo dos rios. “Cerca de 60% dos rios de BH ainda não têm construção em suas áreas de preservação, o que garante a construção de parques lineares. Esses parques não têm que ser construídos em locais de inundação, mas a montante dos rios para melhor escoação da água o que reduz as inundações”, destacou.

A PBH, conforme acredita Barreto, deve incentivar espaços de escoamento de água de chuva nas casas, além de telhados verde. “Custa pouco e pode facilitar muito”.

‘Pesquisa não ganha eleição’

O pleito deste ano é o primeiro no qual Luísa Barreto se candidata. As pesquisas de intenção de voto, como Ibope e Datafolha, mostram que a candidata do PSDB não ultrapassa a marca de 1% do eleitorado. Mesmo assim, ela afirma não acreditar nas projeções e afirma: “Quero ser eleita”.

A postulante se apega à indecisão de eleitores para protagonizar uma arrancada. “Temos 45% dos eleitores indecisos e esse voto demora a se formar. Não é de maneira imediata. Por isso, estou tranquila e animada com a receptividade das pessoas. É incrível como elas querem mudança e alguém com meu perfil. Existe caminho para esta mudança que BH tanto merece”, finalizou.

Edição: Thiago Ricci
Vitor Fórneas
Vitor Fórneasvitor.forneas@bhaz.com.br

Repórter do BHAZ desde maio de 2017. Jornalista graduado pelo UniBH (Centro Universitário de Belo Horizonte) e com atuação focada nas editorias de Cidades e Política. Teve reportagens agraciadas pelo prêmio CDL.

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