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BH sem carroças: entre mitos e verdades, uma escolha civilizatória

26/03/2026 às 06h43 - Atualizado em 26/03/2026 às 09h35
carroças bh
Olhar Animal/Reprodução

Por décadas, Belo Horizonte conviveu com uma cena que não pode mais ser naturalizada: cavalos exaustos, feridos, subnutridos, puxando cargas pesadas sob sol forte e em meio ao trânsito intenso. Não se trata de um caso isolado, mas de uma realidade repetida diariamente nas ruas da cidade.

Foi diante desse cenário que decidimos agir. Sou autor da lei que proibiu a circulação de carroças em Belo Horizonte a partir de 22 de janeiro de 2026. Uma medida necessária, justa e alinhada com o que há de mais avançado em termos de proteção animal e segurança urbana.

No entanto, a lei tem sido descumprida. Recebo diariamente dezenas de denúncias com imagens de carroças circulando nas mais diversas regiões da cidade. Embora muitos estejam indignados com o desrespeito, há quem defenda o descumprimento da lei.

Sabíamos que não seria fácil implementar essa mudança. Foram muitos anos de prática e ela ainda é usada para subsistência. Mas a resistência ao fim das carroças é fundada sobretudo em informações distorcidas. Por isso, é fundamental separarmos o que é fato do que é narrativa.

O primeiro mito afirma que o fim das carroças prejudica famílias. Isso não é verdade. A lei não abandona trabalhadores, ao contrário, prevê transição, acolhimento e alternativas de geração de renda. Queremos garantir dignidade às pessoas, sem que isso dependa da exploração de animais.

A prefeitura já apresentou o modelo de veículo elétrico que será emprestado aos carroceiros que queiram continuar trabalhando com frete. Eles serão cedidos aos cadastrados, sem custos. Aqueles que não tiverem carteira terão os custos da habilitação pagos pelo município. Além disso, quem preferir atuar em outras áreas, será encaminhado para cursos e vagas de emprego. Por fim, os idosos ou pessoas com quadros de saúde que o justifiquem serão encaminhados para programas e benefícios sociais. São amparos que nenhum outro profissional da nossa cidade recebeu, diante da extinção de atividades diversas, como datilógrafo e ascensorista, dentre outras.

Há também o argumento recorrente de que as carroças fazem parte de uma tradição. Mas tradição não pode servir de justificativa para o sofrimento. A história mostra que a sociedade evolui justamente quando revê práticas injustas. Não há valor cultural que sustente a crueldade. Estamos falando de exploração.

Também se tenta sustentar que os animais são bem tratados. Infelizmente, a realidade desmente essa afirmação. São inúmeros os flagrantes de cavalos machucados, desnutridos e até mortos nas vias públicas. Ignorar isso é fechar os olhos para um problema evidente a todos os cidadãos.

Argumenta-se ainda que a proibição não resolve nada. Resolve, sim. Reduz acidentes, evita maus-tratos e protege tanto os animais quanto as pessoas. Além disso, contribui para uma cidade mais organizada, moderna e segura para os próprios carroceiros, para todos que transitamos e para os animais.

Por fim, circula a ideia de que não haverá punição para quem descumprir a lei. Isso também é falso. A legislação prevê a apreensão do animal em caso de maus-tratos e a aplicação de multas aos responsáveis.

É verdade que, neste momento, a cobrança das multas está suspensa por decisão liminar, mas a Prefeitura já recorreu e a expectativa é que a medida seja restabelecida em breve.

Além disso, já apresentei novos projetos de lei para inibir ainda mais a circulação de carroças. Um deles aumenta o valor das taxas para reaver animais vítimas de maus- tratos que são recolhidos pela prefeitura. A outra proposta permite a apreensão da carroça. Ambos estão em debate na Câmara e estamos empenhados para aprová-los em breve.

Mais do que rebater mentiras, é importante afirmar verdades. Estamos falando de 1.825 dias a menos de sofrimento animal, graças à antecipação do fim das carroças. Estamos falando de uma política que protege animais sem deixar pessoas para trás, promovendo inclusão e novas oportunidades.

Belo Horizonte não está sozinha. O fim da tração animal já é uma realidade ou uma meta em diversas cidades. Trata-se de um movimento global, que reflete uma compreensão mais ética da nossa relação com os animais.

No fundo, essa é uma escolha sobre o tipo de cidade que queremos ser. Uma cidade que tolera o sofrimento como parte da paisagem ou uma cidade que avança, que cuida, que evolui.

O fim das carroças não é apenas uma medida administrativa. É um marco civilizatório. E cabe a todos nós defendê-lo.

*Vereador autor da lei que antecipou a proibição das carroças em Belo Horizonte em cinco anos

Wanderley Porto

Wanderley Porto Vereador em BH desde 2020, é cristão e presidente da Comissão de Meio Ambiente, Defesa dos Animais e Política Urbana, da Câmara. Com mais de 20 anos de experiência no Executivo e no Legislativo, atua com destaque na pauta ambiental e na causa animal. Publicitário, é especialista em Marketing Político pela UFMG.

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