Pelas lentes de André Novais, o cotidiano ganha beleza ímpar. Foi assim em “Temporada” (2018) e “Ela Volta Na Quinta” (2014), que introduziram o cineasta no meio das discussões sobre a produção cinematográfica brasileira. A profícua habilidade ganha minutagem no mais novo longa da produtora Filmes de Plástico, “O Dia Que Te Conheci”, que chega às salas de cinema do país na próxima quinta-feira (26). Em cabine de imprensa realizada nesta segunda (23), o BHAZ conheceu, de antemão, a comédia romântica estrelada por Grace Passô e Renato Novaes, sob direção de André.
Em tela, a obra percorre um dia qualquer na vida de Zeca (Renato Novaes). Bibliotecário de uma escola na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o rapaz sofre diariamente para acordar cedo e cumprir com seu horário de trabalho. O motivo considera os imprevistos de uma vida real, mas, sobretudo, a medicação utlizada pelo protagonista para conter crises depressivas, o que lhe causa sono. Parece pouco para compor uma narrativa completa, mas não o é. Nas pequenas nuances da rotina, “O Dia Que Te Conheci” preenche o espectador com a turva magia do dia a dia.
O rumo do longa, bem como a vida de Zeca, mudam quando ele descobre, através de Luisa (Grace Passô), que está demitido. Do encontro se desenha uma comédia romântica pontual, que vai de Betim ao Centro da capital mineira em minutos. Aliás, poucos minutos, visto os 71 de duração do filme. Por ser conciso, o trabalho escancara a precisão de André Novais na direção de imagem, que apresenta takes indispensáveis e muito bem interligados, além de deixar um gostinho de “quero mais” em quem o assiste.

Química imprevista
Pratas da casa, Grace e Renato já se encontraram em outros trabalhos da Filmes de Plástico. Foi o caso em “No Coração do Mundo” (2019) e em “Temporada” (2018), que se passam na periferia de Contagem. A química dos atores nunca havia sido tão bem trabalhada, no entanto. No estreante, Zeca e Luisa constroem, juntos, uma atmosfera de interesse ultraleve, mais que especial. Distante dos planos mirabolantes de diretores românticos de Hollywood, a proximidade dos personagens é administrada entre um copo de cerveja e outro, um papo de fim de tarde no Viaduto Santa Tereza e desabafos necessários.
Isso não quer dizer, no entanto, que o filme de André Novais não seja profundo. Na verdade, o diretor faz valer a máxima de que ser simples não leva, necessariamente, ao simplismo. Dentro e fora da tela, “O Dia Que Te Conheci” alimenta discussões sobre negritude, ocupação de espaços públicos e integração entre cidades mineiras. Enquanto arrancam sorrisos — com mérito notável para o roteiro de Zeca —, as cenas propõem reflexão sobre a vida que levamos na cidade. E levamos a esmo.
Suspensão
Num passeio pela rua da Bahia, em BH, o filme encontra seu momento de suspensão. A temporalidade perde sentido sob as lentes de André Novais, que também sabe utilizar da trilha para passar o recado. Por falar em trilha, a música mineira segue sendo destaque nas produções da Filmes de Plástico. Enquanto Djonga abre o longa com “SOLTO”, FBC emplaca “Se Tá Solteira”, da parceria com Vhoor, e “Frank e Tikão”, de sua carreira solo. O mesmo FBC que faz sua estreia como ator e manda bem, diga-se de passagem.
Com o final do filme, não se sabe se Zeca e Luisa permanecem juntos, mas é gostoso pensar que sim. Afinal, ser romântico mais parece com uma desculpa para acreditar no que quer que seja. Como toda boa produção do gênero, no fim das contas, o amor não se faz solução para todas as questões do mundo. E nem precisa, desde que seja uma distração prazerosa para problemas incontornáveis. Para Zeca, amanhecer a dois já parece ser uma forma de amanhecer melhor e mais cedo.
Nova produção
Durante a cabine de imprensa, André Novais aproveitou para comentar a nova produção da Filmes de Plástico, em parceria com a Netflix: “Vicentina Pede Desculpas”. Sob direção do amigo e também cineasta Gabriel Martins, responsável pelo premiado “Marte Um” (2022), o filme teve gravações inciadas na última quarta-feira (18), na região do Barreiro, em BH.
O longa contará a história de uma mulher (Rejane Faria) que, aos 75 anos, tem de encarar a morte (e especulações sobre o potencial suicídio) de seu filho, motorista de um ônibus que cai de um viaduto. Vicentina decide embarcar em uma jornada para procurar as famílias das vítimas para pedir desculpas.
Renato Novais e Grace Passô também estarão no elenco do filme, que não tem previsão de estreia até o momento.
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