reis de bh
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Avançar ou recuar? Eis a questão!

Ao longo da história, são incontáveis os casos de lutas, lideradas por grandes monarcas, em busca de novos territórios. A origem e a formação de todas as nações, inclusive, em diferentes períodos e partes do mundo, passam, em certa medida, por esse aspecto. É a forma que muitos reis e imperadores encontram para reafirmar ou aumentar o seu poder. No nicho de mercado, não é diferente: se estabelecer como uma autoridade capaz de ser respeitada e próspera custa arriscar a sorte, ocupar outros espaços, investir em novos métodos de “guerra”, explorar “novos mundos”. E, também nessa guerra, dar um passo atrás, às vezes, é uma boa estratégia.

Foi o que aconteceu com o Rei do Caldo de Mocotó. Quando pôs de pé o seu reinado, o empreendimento começou com apenas uma loja, no Barreiro. Em 1964 é que o fundador, Seu Nonô, expandiu o negócio e abriu uma segunda unidade no Centro da capital. Na virada dos anos 1960 para 1970, o império chegou a contar com quatro unidades: uma no Parque Recreio da Colina, no bairro Tirol, outra na rua dos Caetés, no Centro, além das duas já citadas.

Ao longo do tempo, diante de ventos nada favoráveis, a tática foi focar o negócio em apenas duas unidades. Uma delas foi aberta recentemente em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Deu certo. “Já teve época que a gente chegou a vender mais de 1 mil canecas num final de semana. Isso só de caldo de mocotó”, destaca, orgulhoso, o comandante Décio dos Santos.

Situação semelhante vivenciou Jeffson Luiz, do Rei do Tropeiro, que também precisou recalcular a rota. E mais de uma vez. No início, navegando por outros mares, até descobrir no que, verdadeiramente, era uma autoridade, ele esteve à frente do Rei do Suco. O empreendimento ruiu, mas, rei, que é rei, nunca desiste de reconquistar o trono.

Rei do Tropeiro: manter atendimento e qualidade do prato exigiu recalcular rota (Foto: Redes Sociais / Rei do Tropeiro).

Há quatro anos, quando decidiu apostar em um novo nicho, não imaginava que daria tão certo. E um detalhe importante é que, diferente de outros que apostaram em especialidades de pouca concorrência, Jeffson procurou reinar em um espaço onde a cada esquina tem um rei: o feijão tropeiro. Mas o negócio cresceu a ponto de ganhar uma segunda unidade. Só que, ao se dividir entre dois lugares, confessa que perdeu o controle. “Eu tenho que estar presente, sou operacional”, diz. “Se você vier aqui no sábado, vai me ver na chapa. Eu tô na chapa o tempo inteiro. Saio temperado de gordura”, brinca.

Com isso, a segunda loja não durou muito, mas o Rei do Tropeiro nem por isso deixou de ganhar novos territórios. Chegou até mesmo aos campos sagrados do “Gigante da Pampulha”, um lugar tradicionalmente conhecido não apenas pelos grandes jogos de futebol, mas também famoso pelo que é servido aos seus frequentadores, e o tropeiro é o rei mais procurado. Jeffson conta, orgulhoso, que hoje vende seu produto aos trabalhadores dos eventos no estádio, onde ele próprio já assistiu aos jogos do time do coração enquanto, por ironia do passado, comia um belo tropeiro. “Eu me sinto orgulhoso de voltar lá. Não é vaidade, não, mas eu sinto que consegui”, diz.

Intercorrências são mais comuns do que se pensa. Rachel Patrocínio, especialista em marketing digital e professora do Ibmec, afirma que, independente do nicho de atuação, todas as empresas enfrentam concorrência e desafios para encantar e reter clientes. “Além disso, elas muitas vezes lidam com dificuldades processuais internas, como processos operacionais que deixam de funcionar à medida que a empresa cresce, fazendo com que os problemas se tornem mais evidentes”, complementa.

Para o Rei da Feijoada os ventos sempre sopraram a favor. Embora funcione no Mercado Central com apenas uma loja, há muitos anos, a necessidade de continuar entregando excelência e quantidade obrigou desde cedo o empreendimento a expandir seus territórios. O proprietário Lysio Dias conta que, para suprir a grande demanda, foi necessário criar um frigorífico próprio. O frigorífico opera em Sabará. É na fábrica que eles recebem as carnes, fazem o processo de industrialização e enviam para a unidade no Mercado Central. O frigorífico, inclusive, atende outras lojas espalhadas pelo Brasil.

Em matéria de expansão, no entanto, ninguém supera o Rei do Pastel. O império que hoje está espalhado por BH começou como um “sonho de príncipe”. Hoje, reina absoluto no gosto de quem aprecia uma das iguarias mais tradicionais da culinária brasileira. “Montei o primeiro rei em 1996, e, sem pensar que eu iria chegar onde eu cheguei, montei o segundo em 2006, o terceiro em 2016, o quarto em 2018, o quinto em 2019, e o sexto em 2020”, lista Alexandre Fidelis.

Segundo o empresário, tudo é fabricado pela própria marca em uma central que distribui para as lojas. “No caso do pastel, por exemplo, ele chega no ponto de fechar e colocar para fritar”, conta. Hoje, com 130 funcionários, Alexandre revela ele confessa ter planos de desbravar outros territórios com os seus pastéis, no entanto, considera os desafios que surgem nesse caminho. “O problema maior é a insegurança, a gente não sabe para onde esse Brasil nosso está indo, a questão de investimento… então está tudo incerto ainda”, revela.

Não só da conquista de novos territórios vive a notoriedade de um rei. “Existiram alguns impérios muito poderosos que não se envolveram em guerras como, por exemplo, o império dos Habsburgos, [entre os séculos 13 e 20, na Europa]. Em vez de fazer guerra [em busca de manter e aumentar o poder], eles faziam casamento”, explica a professora de história da PUC Minas, Julia Calvo.

No caso dos empreendedores que compõem o chamado nicho de mercado, algo semelhante ocorre. Para alguns deles, se fortalecer não significa necessariamente abrir novas lojas, desbravar territórios, mas investir no que já se tem. José Renato, do Rei do Canudinho, adotou a estratégia da diversificação após ouvir a demanda por repetidas vezes de clientes. “O canudinho foi o início de tudo, em 1994. De lá pra cá, os clientes foram cobrando da gente e dando sugestões. Então, eu falei, ‘vou arriscar um pouquinho’ e comecei com um brigadeiro, cajuzinho, um docinho de leite condensado, e hoje, a gente tem pelo menos uns 32 sabores de doces de pronta–entrega , diariamente. Mas o canudinho é o principal, é o início, é o que nos dá, realmente, o suporte, o nome, a história”, afirma o confeiteiro.

José Renato, do Rei do Canudinho: escolha por diversificar o produto (Foto: Vitor Vilaça)

Assim como o concorrente, Thatiana Lima Badaró, do Rocambole Imperial, conta que, embora o negócio ofereça apenas um produto, foi na diversidade de sabores que encontrou uma forma de prosperar. “Hoje nós temos mais de 33 opções, algumas até criadas por nós mesmos. Tem ninho com Nutella, sonho de valsa, mas o carro-chefe é o tradicional, de doce de leite, que pode ou não vir acompanhado de outros ingredientes, como abacaxi, frutas vermelhas, coco”, divulga.

Expansão que também experimentou o Rei do Bacalhau ao diversificar. O proprietário, Jefferson dos Santos Oliveira, conta que a loja sempre se preocupou em manter a tradição, ao passo que acompanha tendências e o que há de novo no mercado. “Começamos a agregar outros produtos que achamos que iria complementar, para valorizar o prato que é o bacalhau. Então tudo que é novidade, tudo o que é interessante, cortes novos, a gente tenta trazer para a nossa loja”, conta. A decisão deu tão certo que, além da loja, no Centro de BH, com mais de 15 anos de história, uma filial na região da Pampulha foi aberta no ano passado.

Para os especialistas, essas são estratégias interessantes, que permitem às empresas explorar novas oportunidades enquanto permanecem focadas em sua área de especialização. Segundo Diogo Reis, especialista do Sebrae Minas, uma das principais vantagens da diversificação dentro do nicho é a capacidade de acompanhar tendências e oferecer personalização. “Hoje, fazer de tudo é complicado, mas você pode pegar um produto base e adicionar aquele toque final diferente. Essa diversificação é infinita e permite que você inove constantemente sem ficar preso à mesmice”. Isso não só ajuda a manter o interesse dos clientes, mas também permite que a empresa se adapte às mudanças nas preferências do mercado, segundo explica ele.

Já Rachel Patrocínio, professora de marketing digital do Ibmec, a inovação é crucial para a sobrevivência dos negócios. Ela cita a necessidade de se adaptar às mudanças no comportamento do consumidor e de inovar constantemente, seja em processos, tecnologias ou na jornada do cliente. “Negócios que não inovam correm o risco de se perder, especialmente em um mercado dinâmico e em constante mudança. Para ela, entender o que o cliente valoriza é crucial para que as empresas possam não apenas sobreviver, mas também prosperar”, esclarece.

Há casos, no entanto, em que a própria expansão é que constrói o reinado. Foi assim com o Rei do Omelete. O proprietário Cláudio Gonçalves Pedrosa conta que, ainda no antigo endereço, quando o espaço se chamava “Lanchonete o Que Faltava”, em meados de 1998, um amigo sugeriu que ele fizesse uma omelete na chapa. Até então, o empreendedor vendia tira–gostos tradicionais, como carne cozida e moela. “Fui falando com o pessoal que tinha [a omelete], porque na época não tinha cardápio, né? Eu fazia com o que tinha em estoque. Se tinha linguiça, bacon, eu colocava, não tinha nenhum padrão não”, lembra o empreendedor ao BHAZ. No início, a omelete “não fechava legal”, admite. Com perseverança, o empreendedor testou formas de produzir a omelete até chegar na atual receita, que transformou o produto em carro–chefe do local.

Em dezembro de 2003, Cláudio mudou de endereço e foi para a avenida Brasil, ainda no bairro Santa Efigênia. Sem levar o sucesso das omeletes muito a sério, o empreendedor pediu para pintarem na parede do local “Rei do Omelete”, ao lado de “Bar do Cláudio”, para fazer graça, mas, na verdade, havia feito uma ação de marketing que teve muito sucesso. “Eu coloquei de brincadeira na época, né? Nada esperando que a omelete seria o ‘carro-chefe’ do bar, essas coisas. Hoje, é um prato que eu não passo um dia sem vender”, conta.

Em outro ponto da cidade, um outro rei conquistou muitos seguidores também pela boca e foi passando de mão em mão na família Lima. No caso do Rei do Canudinho, a dinastia começou com duas “rainhas” e hoje caminha sob os olhares e braços da terceira geração. A “melhor loja de doces da capital”, como se autointitula, é comandada por José Renato de Lima Barbosa. Mas a história do empreendimento, que conquistou belo–horizontinos de ponta a ponta, mesmo estando fixo no bairro Santo André, começou com a mãe dele, dona Helena, fazendo doces ao lado da mãe dela. O herdeiro pegou gosto pelo tacho.

“Eu não sei te falar o ano que minha mãe veio para cá [BH]. Tudo começou no bairro Padre Eustáquio, onde ela e minha avó trabalhavam produzindo doces e geleias. Depois, minha mãe se casou e começou com os canudinhos aqui no bairro Santo André”, narra o empreendedor. Hoje, a loja produz, além dos canudinhos, brigadeiros, beijinhos e muitos outros doces, mas o carro-forte são os 15 mil canudinhos vendidos por semana. “É rechear e vender aqui [mesmo] na nossa porta”, conta.

A aposta do fundador, José Renato de Lima, é que os filhos, com todo conhecimento que demonstram na era digital, deem continuidade ao legado de 30 anos, que começou com a bisavó. “O futuro é promissor. Se meus filhos encaram isso aqui, eu acho que eles vão longe com as ideias, colocando tecnologia… Hoje nós temos caminhos para crescer. Eu não dou conta, mas eu acho que eles dão conta”, aposta.

LEIA A SÉRIE COMPLETA:

Capítulo 01: A experiência de quem fez do nicho de mercado um triunfo

Capítulo 02: Uma questão de história(s)

Capítulo 03: Navegar por mares nunca dantes navegados

Capítulo 04: Um inimigo externo (in)comum

Capítulo 05: Avançar ou recuar? Eis a questão!

Reportagem: Amanda Serrano, Andreza Miranda, Asafe Alcântara, Isabella Guasti, Thiago Cândido e Ana Magalhães | Edição: Pablo Nogueira, Pedro Rocha Franco, Rafaela Carvalho, Shirley Pacelli e Sinara Peixoto | Fotos e vídeos: Asafe Alcântara e Vitor Vilaça | Identidade visual: Gabriela Fagundes, Giulianna Fagundes e Rafael Rallo   

Redação BHAZ