Para chegar a reinar quase que absoluto nos dias de hoje, os “reis” do comércio de BH tiveram que percorrer um longo caminho para provar a força e a excelência que marcam uma dinastia. Uma parte deles herdou dos pais o comando. Foi com os patriarcas que o caminho até a glória começou e os mais jovens têm o desafio de manter a tradição na nova geração.
Nos Lima Badaró, o pilar é tradição familiar. Da sabedoria passada de pai para filha construiu-se um império que, por identidade a essa palavra, aproveitou-se do uso do próprio nome. Com heranças de Lagoa Dourada, no Campo das Vertentes, mas indiscutivelmente belo-horizontino, o Rocambole Imperial, localizado no bairro Padre Eustáquio, domina a arte do doce de origem francesa, num empreendimento que surpreende ao desafiar a relação entre mão-de-obra e faturamento.
O empreendimento, que fatura cerca de R$ 500 mil por ano, é tocado por Thatiana Lima Badaró e pelo sobrinho, afilhado e sócio, Gabriel Miranda Lima Badaró. O Rocambole Imperial tem sua história intimamente ligada à capital nacional da iguaria. Embora Lagoa Dourada só tenha sido oficialmente reconhecida oficialmente assim em agosto do ano passado, o título só confirmou o que todos já sabiam: vêm de lá os melhores rocamboles do país, ou, pelo menos, são de lá as melhores receitas do doce. Sendo assim, o Imperial só poderia ter origem em um lugar.
Thatiana conta que a ideia de abrir um negócio de rocamboles veio do pai, quando a família ainda morava no município do interior. “Minha mãe é de Lagoa Dourada, então nós fomos morar lá quando eu tinha meus 10, 11 anos (hoje, Thatiana tem 47). Daí, montamos um restaurante e começamos a vender rocambole”, recorda.

Ela lembra que, inicialmente, o produto vendido pelos Lima Badaró era terceirizado, produzido pelo padeiro Jaci, famoso na cidade. “Existem vários pontos que vendem rocambole lá, né? Cada um com sua massa, seu jeito de fazer”, diz Thatiana. A coisa mudou quando o patriarca da família, padrinho de casamento de um dos padeiros do Legítimo Rocambole de Lagoa Dourada, naquela época já renomado na cidade, conseguiu a receita de sucesso com o amigo. “Ele ensinou meu pai a bater a massa, então nós mesmos começamos a fabricar o nosso, que levou o nome de Tradicional Rocambole de Lagoa Dourada”, conta.
Com o pai, e em posse da nova receita, Thatiana adquiriu conhecimento e, quando se mudou para BH, a empreendedora foi estimulada por ele a abrir o próprio negócio. “Ele me perguntou: ‘uai, Thatiana, porque você não monta um rocambole aí?’ Então uma amiga minha, Lurdinha, um anjo que hoje já tem quase 100 anos, me perguntou se eu queria um dinheiro emprestado para começar a produzir. Acho que, na época, foram 3 ou 4 mil reais”, lembra. “Eu aceitei, comprei as coisas e comecei a montar tudo”, lembra dos primeiros passos para desbravar outro reinado, distante 147 quilômetros da origem.
Perseverar com uma empresa familiar até a terceira geração é para poucos. Estudo do Banco Mundial aponta que só 30% das empresas chegam lá e só metade delas, ou seja, 15%, sobrevivem à sucessão de três gerações.
O Sebrae lista alguns pontos críticos que levam à falência ou outros problemas mais que podem fazer com que este reinado seja quebrado: 1) apego e centralização excessiva de poder; 2) sobreposição de papéis; 3) dificuldade de reconhecer e trabalhar as limitações pessoais; 4) falta de planejamento sucessório.
No caso do último ponto, um dos mais relevantes, o Sebrae sublinha que “a sobreposição de relações familiares e profissionais pode levar a um ambiente onde as fronteiras entre o pessoal e o profissional se tornam nebulosas, prejudicando a eficiência e a objetividade”.
Por outro lado, os pontos positivos dos empreendimentos familiares também são muitos, como vínculo emocional, agilidade e rápida tomada de decisão e cuidado com os funcionários, entre outros.
Para o presidente da CDL-BH, Marcelo de Souza e Silva, “para se manter no mercado por muito tempo, uma empresa deve ser ágil e capaz de se adaptar às mudanças. Isso inclui investir em inovação, entender e se antecipar às necessidades dos clientes, manter uma gestão eficiente e estar atenta às tendências do mercado”, aconselha.
É no sobrinho e afilhado, Gabriel Miranda, e no filho Victor, que Thatiana deposita a confiança para seguir sendo uma autoridade na fabricação do produto e, se possível, para conquistar novos territórios, além daqueles já desbravados. “Nosso rocambole já foi pro Brasil inteiro, para os Estados Unidos, México, Alemanha”. Como mãe, ela vê no filho o futuro do empreendimento. “Com 13 anos, ele já fica: ‘mãe, posso te ajudar? Posso fazer rocambole pra ganhar dinheiro?’”, brinca. “E tá certíssimo. Já tá pensando no futuro. Ele sabe que é daqui que a gente tira nosso sustento”. Queremos abrir uma loja física, e, aí, o céu é o limite”, diz. No seio da família, a empresária se sente realizada e certa de que o império que herdou do pai estará em boas mãos. “A gente olha um pro outro, se emociona, se abraça depois de um dia vencido. É muito gratificante”.

Exemplo de dinastia que chega à segunda geração mostrando o vigor de um jovem pode ser observado no Centro de BH, onde Nonô, o Rei do Caldo de Mocotó mantém seu reinado. Há exatos 60 anos, o negócio encontrou forma de sustento na pata do boi, parte menos prestigiada na gastronomia usual, e segue, desde então, como um império singular, e a terceira geração já se prepara para assumir o estabelecimento.
Décio dos Santos Corrêa, filho do saudoso Nonô, que empresta parte do nome ao comércio, hoje gerencia o espaço com a família. “A coisa começou em 1964 na avenida Afonso Vaz de Melo, no Barreiro. Lá, foi a primeira loja. A gente só foi abrir no Centro em 68. Quando meu pai veio pra cá, eu vim pra trabalhar também”, conta Décio.
Segundo Décio, herdeiro do tradicional Nonô, Rei do Caldo de Mocotó, o pai passou mais de seis meses aprimorando a receita do caldo mais famoso da capital mineira. “Ele via muita gente tomando mocotó no Barreiro, mas queria fazer uma coisa diferente. Quando chegou na fórmula que a gente usa até hoje, ele pôs à venda”, recorda a história de empreendedorismo e inovação que, assim como no caso do Rei do Bacalhau, citado anteriormente, foi uma aposta em um produto pouco explorado.
Em 1973, o Seu Nonô faleceu, aos 51 anos. O caminho, segundo Décio, era um só: dar continuidade ao trabalho do pai. O começo, sem a grande referência da família, foi “complicado”, admite. Mas cinco décadas depois da criação o estabelecimento permanece bastante procurado e recentemente ganhou destaque entre influenciadores que desbravam os bares de Belo Horizonte e, com isso, viu o número de clientes também crescer.
Vida longa ao rei!
Reis e rainhas vão e vêm, mas a monarquia precisa ser eterna. Tão importante quanto ter um reino forte é se certificar de que há um herdeiro para ascender ao trono e dar continuidade ao legado da família. No nicho de mercado, essa preocupação também existe. São filhos, sobrinhos, netos que, na convivência com os patriarcas, seguem esperando (e se preparando) para reinar.
Para Diogo Reis, analista do Sebrae, a sucessão familiar não deve ser tratada de maneira abrupta, mas sim como um processo gradual e planejado. “A transição de gestão, ou sucessão familiar, geralmente não deve ser feita de forma abrupta. Ela costuma ser gradual, levando alguns anos e envolve uma co-gestão durante um período”, afirma. Esse processo permite que o sucessor comece a assumir responsabilidades enquanto o fundador se afasta de maneira progressiva, garantindo uma transição mais suave e minimizando possíveis conflitos.
Comandante do Rei do Bacalhau junto com o pai, de quem é sócio, Jefferson dos Santos, é o herdeiro, por sangue e ofício do seu Arnaldo Bezerra. Ele admite que os dois já tiveram atritos. “Meu pai é uma pessoa muito mais emocional, e eu trabalho mais com o racional justamente para a gente manter as finanças e a organização em dia. Mas nada que uma conversa não resolva”. Trabalhando ao lado do patriarca, adquiriu habilidade para cuidar bem do legado. “O meu pai sempre foi uma referência na minha vida, principalmente relacionada ao trabalho. É uma pessoa que nunca mediu esforços para nos dar o melhor e nunca negou trabalho, então é uma oportunidade sempre estar junto com ele e aprender”.

Diogo Reis, analista do Sebrae, ressalta que a sucessão não é apenas sobre passar o comando, mas também sobre discutir e planejar a estratégia futura da empresa. “É essencial para garantir que a empresa continue competitiva e relevante ao longo dos anos” alerta.
Jeffson Luiz Ferreira, do Rei do Tropeiro, não pensa em parar tão cedo e ainda faz planos. “Agora eu tô querendo lançar aquela batata de Marechal, do Rio de Janeiro. Já pesquisei aquele ‘trem’, tá? É um negócio que faz um sucesso absurdo”, arquiteta. Mas quando passar a coroa, ele já sabe pra quem. “O que eu falo é o seguinte: isso aqui é dela [da Letícia]. Minha cobrança sobre ela é exatamente essa, aprender a gerir, porque ela quem vai cuidar disso aqui quando eu não puder”, explica.
A filha Letícia, de 20 anos, já trilha o caminho do pai e, é, inclusive, muito bem ouvida por ele. “Ela chegou pra mim, há uns 15 dias, falando: ‘pai, tem que dar mais um passo, tem que mudar as coisas’. Então eu fui e mandei consertar tudo. Depois de uns dias, cheguei e falei pra ela: ‘Já mandei fazer todas as mudanças que vocês pediram”
No caso Rei do Pastel, o dono, Alexandre Fidelis, ainda tem um bom tempo para transmitir à filha, de oito anos os valores ligados ao império que construiu. “Vou ensinar ela (quando estiver na idade certa, é claro) a pelo menos trabalhar, a gostar da ‘labuta’, aí ela vai sentir o que vai querer”, garante.
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Reportagem: Amanda Serrano, Andreza Miranda, Asafe Alcântara, Isabella Guasti, Thiago Cândido e Ana Magalhães | Edição: Pablo Nogueira, Pedro Rocha Franco, Rafaela Carvalho, Shirley Pacelli e Sinara Peixoto | Fotos e vídeos: Asafe Alcântara e Vitor Vilaça | Identidade visual: Gabriela Fagundes, Giulianna Fagundes e Rafael Rallo


