Da dinastia japonesa, considerada a mais antiga, à realeza britânica, a mais conhecida de todas, ao longo dos tempos, em diferentes partes do mundo, as histórias e as características presentes em um reino, ou em um império, sempre mexeram com o imaginário popular. Na era da comunicação de massa, tanto fascínio se converteu em representações que fazem enorme sucesso em filmes, novelas, documentários e séries. Game of Thrones, para ficar apenas em um (excelente) exemplo, obteve êxitos de deixar com inveja Gêngis Khan, imperador asiático que, no século 12, conquistou 20 milhões de quilômetros de território. Cada episódio das oito temporadas da série da HBO, foi visto por cerca de 44,2 milhões de pessoas ao redor do mundo. A trama principal narra a disputa de várias famílias nobres pelos Sete Reinos de Westeros, um continente fictício.
Seja na ficção, como na batalha pelo “Trono de Ferro” em GoT, ou em relatos históricos, como nas conhecidas façanhas do francês Napoleão Bonaparte, o interesse por reis e imperadores no século 21 tem a ver com vários dos elementos associados às experiências de força, excelência e autoridade que essas figuras carregam. “Rei é sinônimo de poder, é sinônimo de comando, de superioridade, é sinônimo de destaque”, lembra o historiador Fernando Figueiredo, mestre em educação.
Na cidade que tem uma das mais ricas gastronomias do mundo e ostenta o título de Cidade Criativa da Gastronomia pela Unesco desde 2019, ser “rei” é algo que exige todas essas qualidades. E não são poucos os estabelecimentos em Belo Horizonte que se aproveitam da alcunha de levar no nome um título de nobreza para marcar território. Rei do Pastel, Rei do Tropeiro, Rocambole Imperial… Indo a qualquer canto das nove regionais da capital, é possível ver que a estratégia é amplamente utilizada por centenas de lojistas dos mais variados ramos.
Só na base de dados do Sindilojas (Sindicato do Comércio Lojista de Belo Horizonte), são 41 estabelecimentos que têm no nome social, ou “nome fantasia”, o termo “rei”. “A associação historiográfica é muito simples, é a ideia de poder que a monarquia traz, a ideia de controle e de posse. Quando você fala que é o Rei do Amendoim, é você que controla, você que é o melhor, é o primeiro, tem a conquista daquele produto, você que domina aquilo”, acrescenta o historiador Fernando Figueiredo.
O reinado mais popular de Belo Horizonte é do Rei do Pastel. Em quase 30 anos, são seis lojas pela Savassi, bairro com um dos metros quadrados mais caros de BH. O ar de modernidade da região em contraponto à simplicidade do pastel frito e da cerveja gelada não espantou os ‘súditos’. Pelo contrário. É motivo de atratividade.

Alexandre Fidelis aprendeu o “ofício do boteco” ainda pequeno, quando foi trabalhar com a tia na Savassi, na antiga “Bom Pastel”. O destino do garoto já estava traçado para ser o sucessor na linhagem familiar de quem domina a arte de fazer e vender um bom salgado frito. O segredo? “A primeira coisa é manter a qualidade. Nunca diminuir a quantidade se os produtos aumentarem. Na pandemia, óleo disparou, farinha disparou, carne… Mantenho o padrão, seja o preço que for”, afirma, com o poder de quem comercializa cerca de 8 mil unidades por dia, o rei do pastel.
No Mercado Central, em meio a queijos, cachaças e frutas das mais diversas, feijoada e bacalhau tentam atrair a maior quantidade de ‘súditos’ para os seus reinados. As tradições culinárias cruzaram o oceano nos últimos séculos, conquistaram o paladar de brasileiros, e, hoje, seus ingredientes são procurados por muitos.
Lysio Dias*, proprietário do Rei da Feijoada, começou a acompanhar o pai aos 15. Ao BHAZ, ele conta que o patriarca assumiu o ponto da loja em 1985 e que cresceu vendo o seu “mestre” atrás do balcão, atendendo clientes e conferindo o funcionamento da loja.
O empresário conta, orgulhoso, que ao longo de quase 40 anos o estabelecimento virou referência e ponto de parada obrigatória para quem vai ao Mercado Central. Seja para fazer a versão light da receita ou a mais tradicional com direito a todos os cortes de carne, de linguiças, torresmo e bacon a joelho, pé de porco, costelinha defumada e muito mais.
Lysio avalia que a especialização do estabelecimento garante os bons resultados do Rei da Feijoada. “Hoje, a gente tem um produto padronizado, que a gente fabrica e vende. Noventa por cento dos produtos que a gente vende, somos nós que fabricamos. Aprendi com o meu pai que, quando se é específico numa coisa, você precisa ser o melhor”, afirma.
A alguns passos do Rei da Feijoada, em um corredor vizinho do labiríntico Mercado Central, está a loja do Rei do Bacalhau. Com preço mais salgado que o concorrente mais popular, o ingrediente trazido ao Brasil por colonizadores portugueses se tornou tradição, principalmente em datas comemorativas, quando as vendas de bacalhau se multiplicam por mais de 10.
A criação da loja se deu a partir da oportunidade de se explorar um campo fértil, sem ainda o domínio de outros concorrentes, o que também fez diferença para que o Rei do Bacalhau alcançasse a honra de reinar absoluto até os dias de hoje. “Meu pai não tinha conhecimento nenhum, mas foi uma oportunidade. Em algum momento, ele pensou: ‘quero trabalhar com alguma coisa que não tem tanto aqui e que a gente vire uma referência’. Até por isso o nome ‘Rei do Bacalhau’”, revela Jefferson dos Santos.
Jefferson fala com entusiasmo do pai, Arnaldo Bezerra de Oliveira, que começou toda a história. “O meu pai foi comerciante a vida inteira e surgiu uma oportunidade de trabalho para ele aqui em Belo Horizonte. Nós saímos de São Paulo em 2001, e ele trabalhou aqui por muitos anos até ser desligado”, conta Jefferson. Sem emprego e com uma família para sustentar, Arnaldo resolveu colocar os anos de experiência no varejo em prática e abrir o próprio negócio. E foi na venda desse tipo de produto que ele encontrou a oportunidade perfeita. Atualmente, o estabelecimento vende cerca de 300 kg de peixe por mês. Na Páscoa esse número sobe para 4 toneladas. Na cidade que não tem mar, o Rei do Bacalhau triunfou.
Para o professor do Centro Universitário UNA, Flávio Poddighi, pós-graduado em marketing estratégico, quando escolhemos palavras para nomear um estabelecimento, o ideal é capturar a essência do que ele oferece ou o sentimento que queremos que o público associe a ele. As palavras criam significado, influenciam o marketing e a identidade de uma marca, diz Flávio.
“Ao usar ‘rei’ como nome de comércio, o proprietário busca se posicionar acima da concorrência. É possível transmitir também uma ideia de confiança e tradição, uma vez que reis são figuras históricas associadas a poder e legado, com a possibilidade de haver uma história ou tradição por trás, além da associação positiva do nome, já que reis comumente são ligados à realeza, ao luxo e a algo especial ou exclusivo”, comenta Poddighi.
Embora seja comum e repleta de significado, a escolha por termos como “rei” ou “rainha” para o empreendimento é só o primeiro passo. Com o tempo, é preciso mostrar que, de fato, há um domínio sobre a fabricação ou comercialização daquele produto. Com isso, reina melhor quem, segundo os especialistas, investe nos chamados nichos. É como reunir sob seu “império” um número importante de clientes com desejos e interesses de compra comuns, tal qual um reino, com muitos e diferentes “súditos”, regido por um mesmo monarca, ligados a um mesmo modo de vida e cultura.
Diogo Reis, especialista do Sebrae Minas, explica que o nicho de mercado é uma segmentação que uma empresa realiza para atender a um público específico. “Eu posso ‘nichar’ por comportamento, gostos, características, entre outros aspectos. O nicho é um grupo de pessoas que pertencem àquele segmento. Vegetarianos, veganos, ou pessoas que gostam de um tipo específico de turismo em determinada localidade, tudo isso pode ser considerado um nicho. No caso da alimentação, posso nichar através de pessoas que gostam de um determinado tipo de culinária”, completa. Dessa forma, quem comer feijoada, pastel, amendoim, por exemplo, tende a escolher lugares em que esses produtos são a especialidade do reino, ou melhor, da casa.
No entanto, o nome funciona apenas como uma espécie de brasão, como um selo de qualidade, que sugere que o comerciante consegue mesmo mostrar que é uma autoridade inconteste na oferta daquele produto. Mas, manter o reinado, ou comércio, de pé, depende principalmente da história de luta pela sobrevivência do negócio e, ainda, das estratégias que cada “rei” ou “rainha” adota para provar que é mesmo uma autoridade.
Segundo o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), Marcelo de Souza e Silva, a longevidade de um negócio é importante porque reflete a capacidade da empresa de se manter relevante e competitiva ao longo do tempo. “Empresas que perduram geralmente constroem marcas fortes, ganham a confiança de clientes e parceiros, e acumulam experiência e conhecimento valiosos. A longevidade também é um indicativo de sustentabilidade e resiliência, o que pode atrair investidores e facilitar o acesso a recursos, como crédito e talento”, explica.
Não é nada fácil. Nos relatos de “reis”, ou melhor, comerciantes, e também na análise de especialistas ouvidos pelo BHAZ, vencer uma “guerra” e se estabelecer como o “melhor em algo” exige, além de tempo e histórico, o empenho em várias frentes e bons planos, sempre. É preciso considerar cada batalha (das pequenas às grandes), derrotar inimigos externos, expandir territórios e, se possível, contar com ascendentes e descendentes para nunca perder a majestade.
*Lysio Dias, proprietário do Rei da Feijoada, faleceu em 18/08, dias depois de receber a reportagem. A equipe do BHAZ decidiu manter e publicar a entrevista, como forma de homenagear sua história.
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Reportagem: Amanda Serrano, Andreza Miranda, Asafe Alcântara, Isabella Guasti, Thiago Cândido e Ana Magalhães | Edição: Pablo Nogueira, Pedro Rocha Franco, Rafaela Carvalho, Shirley Pacelli e Sinara Peixoto | Fotos e vídeos: Asafe Alcântara e Vitor Vilaça | Identidade visual: Gabriela Fagundes, Giulianna Fagundes e Rafael Rallo


