Estreia neste fim de semana, em BH, a peça Quem tem medo de general?, espetáculo que leva o público para dentro do prédio do antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops) na capital. O local, usado para prisão e tortura de militantes e opositores da ditadura militar no Brasil, é reivindicado como Memorial de Direitos Humanos de Minas Gerais.
A peça marca as comemorações dos 10 anos de fundação da Cia. TeAto do Amanhã. Durante 70 minutos, o espetáculo conduz o público a uma imersão pelo prédio, com cenas nas antigas celas, na área administrativa e nas salas de repressão.
“Agora, esse espaço se abre para a cidade por meio da linguagem teatral, transformando a memória do edifício em uma experiência sensível, crítica e coletiva sobre a democracia, a violência de Estado e a preservação da memória”, explica o diretor Jonata Vieira.
O elenco é composto por atores e atrizes formados pelo Teatro Universitário da UFMG, entre 2022 e 2025, e foi desenvolvido especificamente para o espaço onde é apresentado.
Ocupação do antigo Dops
Em 1º de abril de 2025, data que marcou os 61 anos do golpe militar que instaurou a ditadura militar no Brasil, manifestantes ocuparam a antiga sede do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) em Belo Horizonte. Na época, Luiz Ramos, de 28 anos, explicou ao BHAZ que uma das reivindicações do ato era a transformação do local em um memorial para preservar a memória dos mortos e desaparecidos durante o governo militar.
O projeto do “Memorial dos Direitos Humanos – Casa da Liberdade” foi apresentado em 2018 e, desde então, passou por duas obras, mas ainda não foi concluído e entregue ao público. “Em 2024, o Governo de Minas Gerais destinou verba para o memorial, mas não sabemos por que não fizeram a abertura do espaço”, afirmou na ocasião, o membro do partido Comunista Revolucionário.
Para Ramos, o memorial é um direito que garante a preservação da memória e da verdade sobre tudo o que ocorreu durante a ditadura. “Não houve uma justiça, muitos ainda continuam desaparecidos, sem ossadas ou documento de óbito. Por isso, lutamos por memória, verdade, justiça e reparação”, destacou na época.
Além disso, o movimento cobra a punição de torturadores “do passado e do presente”. “Os ditadores e assassinos não foram punidos e a violência continua acontecendo através de uma herança da ditadura”, concluiu Ramos.
Ministério Público representa por criação de memorial
Já em novembro do ano passado, o Ministério Público Federa (MPF) acionou a Justiça para que fosse determinada a construção de um Memorial de Direitos Humanos no local.
Conforme o MPF, a Ação Civil Pública (ACP), movida contra o Estado de Minas Gerais e a União, busca “reverter a inércia estatal de mais de 25 anos no cumprimento da Lei Estadual nº 13.448/2000”. Além disso, o documento pede a condenação solidária dos réus ao pagamento de indenização por dano moral coletivo.
O órgão argumentou que a implantação do Memorial de Direitos Humanos nesse prédio está determinada pela Lei Estadual, aprovada em 2000, mas até agora nada foi feito. A ideia é que o espaço seja destinado à “guarda e exposição de material referente à defesa e preservação dos direitos da pessoa humana”.
Na ação, o MPF requereu que o Estado de Minas Gerais e a União implantassem definitivamente o Memorial de Direitos Humanos no antigo prédio do Dops, com a elaboração dos projetos previstos na Proposta de Musealização desenvolvida pela UFMG em 2021, já analisada pelo Iepha/MG, além da inclusão dos custos no orçamento para execução das obras, aquisição de mobiliário e formação de acervo.
O órgão também solicitou a definição de um modelo de gestão que assegure participação paritária da sociedade civil, de grupos de direitos humanos e de vítimas e familiares na construção das atividades culturais do espaço.
Diante da “omissão estatal”, que levou à deterioração do sítio de memória e reforçou a sensação de desrespeito à luta democrática, o MPF pede ainda a condenação solidária dos réus ao pagamento de indenização por dano moral coletivo, estimada em R$ 40 milhões. Caso o valor seja concedido, os recursos serão destinados ao Fundo de Defesa de Direitos Difusos.
O antido Dops em BH foi um dos 98 locais em Minas Gerais utilizados para a repressão, conforme aponta o relatório da Comissão da Verdade.
Anota aí!
Local: Memorial dos Direitos Humanos de Minas Gerais
Datas e horários: 14, 15, 16, 21, 22 e 23 de agosto – Sextas e sábados às 19 horas e domingos às 18 horas
Endereço: Av. Afonso Pena, 2351 – Centro, BH
Entrada: Paga
Acesso à peça: TeAto do Amanhã – Produtor – Eventos e Conteúdos na Sympla
“Endereços da Ditadura”
A luta para preservar a memória dos lugares onde funcionaram centros de repressão a opositores da Ditadura Militar foi o tema da série “Endereços da Ditadura”, que o Ariza Podcast estreou em outubro de 2025 no portal BHAZ. São quatro episódios que contam as histórias de locais usados para prisão, tortura e morte entre 1964 e 1985.
O ponto de partida foi o mapa “Lugares de Memória da Ditadura Militar”, elaborado pelo Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania (MDHC). O documento, divulgado em abril de 2025, listou 49 pontos de importância histórica, três deles em Belo Horizonte.
No podcast, as histórias de todos esses lugares são contadas pelos seus protagonistas: as vítimas que passaram pelos porões da ditadura. No primeiro episódio, o Ariza Podcast faz uma visita à antiga sede do Dops, no Centro de Belo Horizonte.
Ouça à série “Endereços da Ditadura” no Podcast:











