A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) está elaborando diretrizes para orientar o uso da inteligência artificial (IA) tanto nas atividades de ensino e pesquisa quanto na gestão administrativa. Segundo o reitor Alessandro Moreira, em entrevista exclusiva ao BHAZ, a proposta é estabelecer princípios permanentes para o emprego da tecnologia, buscando priorizar aspectos éticos e responsáveis, em vez de focar em ferramentas específicas, que mudam rapidamente.
“Modelos, equipamentos, plataformas vão aparecer. Hoje vai aparecer um, amanhã vai aparecer outro. Eu acho que o que a gente tem que estar preservando é o uso responsável, o uso ético, adequado da inteligência artificial”, explica Moreira.
De acordo com o reitor, a universidade já iniciou esse processo há alguns anos, com a criação de uma comissão formada por professores e técnicos administrativos de diferentes áreas. O grupo trabalha na construção das primeiras diretrizes, que deverão ser apresentadas em breve à comunidade acadêmica.
“Já há alguns anos, nós iniciamos um trabalho, instituímos uma comissão com participação ampla da comunidade universitária, de vários professores, técnicos administrativos também. Então, a gente está numa fase mesmo de apresentar para a comunidade acadêmica as primeiras linhas, diretrizes, de como a gente pretende trabalhar a questão da inteligência artificial na educação”, afirmou.
Além do uso em atividades na sala de aula e nos laboratórios, a UFMG também estuda formas de aplicar ‘de maneira responsável’ a IA nos processos administrativos. A iniciativa envolve diferentes setores da instituição, entre eles a Diretoria de Educação a Distância e Educação Digital (DEDD), antigo Centro de Apoio à Educação a Distância (Caed), que, segundo Moreira, já desenvolve projetos relacionados à transformação digital.
Segundo o reitor, o papel da universidade é acompanhar a evolução tecnológica, mas sem perder de vista sua responsabilidade na formação dos estudantes e na definição de parâmetros para o uso da IA. “A universidade precisa estar atenta às transformações, mas o principal é preservar os princípios que orientam o uso correto dessa tecnologia”, reforça.
Cotas trans
Durante a entrevista, o reitor reafirmou o compromisso da gestão com as políticas de inclusão e saiu em defesa das cotas adicionais para pessoas trans e travestis, aprovadas em março pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) da Universidade. Alessandro Moreira garantiu que a política será implementada, apesar das críticas e da tentativa de vereadores de Belo Horizonte de que a medida seja suspensa pela Justiça.
Segundo a UFMG, a resolução prevê o mínimo de uma vaga adicional para todos os cursos em todas as entradas, além da possibilidade de que os colegiados ampliem esse número. A decisão do Conselho Universitário é direcionada a pessoas autodeclaradas trans ou travestis, que tenham 18 anos completos no momento da matrícula e renda familiar de até 1 salário mínimo per capita. O ingresso dos primeiros estudantes por meio desse mecanismo ocorrerá em 2027.
Várias reações surgiram após a decisão tomada pelo órgão máximo de deliberação da instituição. Ainda em fevereiro, um grupo de manifestantes, de acordo com a UFMG, perseguiu e assediou os conselheiros no dia da votação. A ação foi condenada pela direção que, em nota, repudiou as ofensas sofridas.
“A Universidade não pode jamais, especialmente em tempo de espetacularização e polarização, se tornar espaço da incivilidade e da barbárie. Que a Universidade seja sempre defendida de atitudes atrozes e injustificáveis como as que hoje presenciou-se em seu campus Pampulha”, dizia a nota assinada pela então reitora Sandra Regina Goulart Almeida e pelo então vice-reitor Alessandro.
Fora da universidade, a medida também gerou críticas, inclusive de políticos. Os vereadores Pablo Almeida e Uner Augusto, ambos do PL, protocolaram uma Ação Popular na Justiça Federal para tentar anular a decisão. Eles alegam que a Universidade não tem competência para implementar as cotas e pediam, de forma liminar, que a medida fosse suspensa imediatamente.
“A definição de critérios de acesso a vagas em universidades federais é matéria de lei federal, não de ato administrativo”, defendeu Pablo Almeida, em postagem nas redes sociais.
A suspensão imediata, no entanto, foi negada pelo juiz Marcelo Aguiar Machado, da 10ª Vara Federal Cível. O magistrado argumenta que não há, por ora, “ocorrência de dano irreparável ou de difícil reparação”, já que a reserva de vagas produzirá efeitos apenas para estudantes que ingressarem na universidade a partir do ano de 2027. O mesmo entendimento teve o Ministério Público Federal (MPF). O processo ainda segue.
Na entrevista, Alessandro Fernandes Moreira defendeu a implementação das cotas e garantiu que a Universidade continuará trabalhando pelo que considera uma política “muito importante para a instituição”.
“Vamos em frente. Vamos enfrentar e vamos fazer valer essa ampliação da diversidade em nossa instituição, que é muito justa”, garantiu.
Para o reitor, as cotas são necessárias porque pessoas trans e travestis ainda são sub-representadas na universidade. “Não é somente essa questão do ingresso. É toda uma situação que a universidade tem que estar atenta, tem que discutir, tem que reconhecer e tem que saber que essas pessoas estão aqui e que elas também têm o direito à educação”, afirmou. “O fato de ter lá um número de vagas para determinados cursos, isso é só um pedacinho. Eu acho que a instituição também tem que compreender e tem que trabalhar.”










