Em coletiva de imprensa realizada nesta terça-feira (14), a Polícia Civil de Minas Gerais detalhou a investigação sobre o latrocínio de um casal de idosos no bairro São Pedro, na região Centro-Sul de Belo Horizonte. Segundo o delegado Gustavo Barletta, responsável pela investigação, a diarista de 30 anos teria justificado a brutalidade do crime alegando ter sido comandada por vozes sobrenaturais.
Durante a reconstituição do crime, a investigada apresentou uma narrativa onde afirmava ter sofrido um surto e que não se lembrava da dinâmica dos golpes. Segundo o delegado, ela relatou que foi “determinada por vozes” que exigiam um sacrifício em troca de bens materiais. “Seria uma voz que queria sangue, queria sangue, já que ela gosta de dinheiro”, explicou Barletta.
De acordo com a suspeita, após o assassinato brutal do casal, Cláudio foi morto com 43 facadas e Maria Clotilde com 15, além de ter o corpo queimado com solvente, a voz teria lhe dado “permissão” para o roubo, dizendo: “Vai, agora é tudo seu. Já que você me deu o que eu quis, que era o sangue, agora você está autorizada a levar todo o dinheiro que quiser”.
Para a Polícia Civil, essa versão não passa de uma encenação. O delegado classificou o episódio como um “surto eletivo” e uma forma de autodefesa para tentar se esquivar da lei penal. A investigação aponta que a mulher é uma “criminosa contumaz”, acostumada a usar o método “Boa noite, Cinderela” para dopar e roubar as vítimas.
“A Polícia Civil, após esses longos dias de investigação, pode dizer que esse surto, ao nosso sentir, é fantasioso”, afirmou o delegado. Ele reforçou que a frieza da suspeita ficou evidente ao observar que ela planejou a fuga, comprou novos terminais telefônicos e utilizou os cartões de crédito e as roupas das vítimas logo após o crime.
Diante das alegações da investigada, a defesa apresentou um requerimento para que ela seja submetida a um exame de sanidade mental. O pedido foi encaminhado pela Polícia Civil ao Poder Judiciário, que decidirá se há indícios suficientes para a realização da perícia por psiquiatras forenses.
A mulher foi indiciada por duplo latrocínio, uma vez que a polícia entende que houve duas condutas autônomas de matar para subtrair patrimônio. Se a justiça acatar o indiciamento, a pena da suspeita, somada pelo concurso material de crimes, pode variar entre 48 e 60 anos de prisão.
Mulher fez outras vítimas
Segundo a PCMG, Paola também é suspeita de ter dopado e roubado ao menos outros quatro clientes. No decorrer das investigações, outras pessoas compareceram à delegacia informando que também teriam sido vítimas da diarista, que dopava os clientes para cometer os roubos. “Foram contabilizados outros quatro crimes, praticados com o mesmo modo de agir, ou seja, dopando clientes”, destacou a corporação.
Parte dos itens subtraídos de um casal foram recuperados na casa da investigada e restituídos. Ao todo, os policiais recuperaram R$ 18,8 mil em dinheiro, 14 relógios, dois celulares, oito frascos de perfume, diversos acessórios (brincos, anéis, pulseiras, pingentes, cordões), 11,2 gramas de ouro fundido, dois pares de tênis, dois casacos e outras roupas.
Conclusão do inquérito
A Polícia Civil o inquérito do caso nessa segunda-feira (13). A diarista foi indiciada pelo crime de latrocínio. Além dela, outros quatro homens foram indiciados por receptação qualificada após comprarem os objetos roubados das vítimas. Após a divulgação do caso, os comerciantes procuraram a delegacia, afirmando que desconheciam a origem ilícita dos objetos. Todos devolveram os itens adquiridos e, por isso, poderão ter a pena reduzida por arrependimento posterior, conforme prevê o artigo 16 do Código Penal.
Relembre o caso
Cláudio Atala, de 75 anos, e a esposa dele, Maria Clotilde, de 76 anos, foram mortos no dia 29 de junho, dentro do apartamento em que moravam, no bairro São Pedro, em BH.
Os corpos teriam sido encontrados pelo filho do casal no dia 1º de julho, depois que ele ficou sabendo que o pai não havia aparecido no trabalho. Ao entrar no apartamento, deparou-se com os pais já sem vida no local. Segundo o boletim de ocorrência, os dois tinham ferimentos em diferentes partes do corpo, como costas, garganta, pescoço, barriga, queixo e tórax, além de sinais de defesa.
Ao investigar as câmeras de monitoramento do prédio, a Polícia Civil identificou a entrada e saída da diarista Paola Stefany Neto Cirino, de 30 anos. Equipes foram até a casa dela em Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de BH. Ela não foi encontrada e parentes contaram à polícia que ela teria viajado para o estado do Espírito Santo com o filho.
Além disso, de acordo com informações obtidas pelo BHAZ junto a fontes ligadas à Polícia Civil de Minas Gerais, parentes informaram que a mulher acumulava uma dívida de aproximadamente R$ 40 mil com jogos de azar online, incluindo o popular ‘Jogo do Tigrinho’. A informação ainda é apurada pela polícia e não foi confirmada oficialmente pela PC.
No local, a polícia constatou que havia uma gaveta de semijoias arrombada no apartamento e que os celulares dos idosos foram roubados.
Suspeita dopou idosos
Paola teria sido indicada por um familiar do casal para prestar serviços na residência deles. No dia do crime, era a primeira vez da autora trabalhando no local.
Conforme a investigação, a mulher já trabalhava há muito tempo na casa desse familiar e nunca havia apresentado indícios de má índole ou de ter cometido outros crimes na residência dele. Segundo a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), não há suspeitas de que o familiar estaria envolvido no crime, uma vez que ele estaria profundamente abalado com a situação.
A mulher confessou que colocou quatro comprimidos no suco de Maria e de Cláudio. Após isso, ela desferiu mais de 40 golpes de faca contra o idoso e 17 contra a idosa. A polícia suspeita que o idoso tenha reagido e, por isso, teria tomado mais golpes de faca que a esposa dele.
Roubo
Paola foi flagrada por câmeras de segurança do condomínio, que mostraram a chegada dela às 7h30 e a saída às 15h30, nessa segunda-feira (29). Ao deixar o prédio, ela usava roupas diferentes das que chegou e levava duas bolsas grandes, sendo que uma das bolsas era de Maria Clotilde.
Além disso, a suspeita também foi flagrada descartando uma blusa com manchas de sangue. As imagens mostram o momento em que Paola joga a blusa branca, que usava ao chegar ao apartamento do casal, em uma caçamba localizada em uma rua abaixo do prédio onde o crime ocorreu.
Prisão
A suspeita foi presa na madrugada da quinta-feira, 2 de julho, em Itabira, na região Central de Minas Gerais.
Durante a prisão de Paola, a polícia apreendeu objetos do casal e R$ 18 mil em espécie, que ela adquiriu com a venda dos pertences das vítimas. Segundo as investigações, ela teria vendido os objetos roubados na Praça Sete, no Hipercentro de BH. Os itens levados incluíam relógios, joias e aparelhos celulares.
Quem era o casal
Casados há décadas, Maria Clotilde e Cláudio Atala eram figuras conhecidas no meio profissional em que atuavam e descritos pela família como pessoas ativas e queridas.
De acordo com Henrique Maciel, sobrinho do casal, Maria era dona de uma loja na capital mineira e, por muitos anos, se destacou como atleta. Já Cláudio era sócio-fundador de um escritório de advocacia no bairro Lourdes, na região Centro-Sul, onde atuava principalmente nas áreas trabalhista e empresarial. Mesmo aos 75 anos, ele continuava exercendo a profissão diariamente.
O casal era conhecido pelo espírito aventureiro e já havia viajado por diversos países. Recentemente, eles haviam retornado de uma viagem aos Estados Unidos. Segundo o sobrinho Henrique Maciel, de quem eram padrinhos de casamento, os tios eram pessoas “cheias de vida” e muito próximas da família. O casal morava na rua Padre Severino há cerca de 20 anos.
A trajetória dos dois também foi marcada por uma perda dolorosa em 2006, quando a filha deles, triatleta, morreu vítima de um atropelamento. Desde então, eles tinham apenas um filho, que também é advogado e trabalha no escritório fundado pelo pai.












